Política

Em tempos de ego, Cabo Verde foi coletivo

Antes que pergunte o que faz um artigo sobre futebol na seção de política, eu explico. Este texto não é sobre bola. Nem me atrevo a análises de tática ou impedimento. Este texto é sobre liderança, identidade, mobilização e paixões coletivas. Tudo isso coexiste no futebol e na política.

Escrevo-vos com novos heróis que não imaginava que precisava: os jogadores da seleção de futebol de Cabo Verde. Esses gigantes. Saíram do Mundial, mas arrebataram o coração de meio mundo. Fizeram-me voltar a acreditar na velha magia do futebol —não o circo de egos, negócio zilionário, o hype e o marketing, mas o puro prazer de ver um time “azarão” dar tudo em campo. Sem vedetismos, sem dinheiro e sem manias, mas com muita garra, autenticidade e humildade.

Aqueles homens foram tudo o que a seleção de Portugal e muitas seleções nacionais consideradas favoritas não são. Deram um show de bola, sim, mas deram também uma lição maior ao mundo.

No futebol moderno, tal como na política, o sentido de coletivo desvirtuou-se. Impuseram-se as estrelas e seus caprichos, objetivos pessoais e negócios. Perdeu-se a coesão, o altruísmo, a ideia de bem comum, o desapego em prol de um interesse maior.

Cristiano Ronaldo, por exemplo, joga por Portugal, claro, mas joga sobretudo pelo seu umbigo, pela marca CR7, pelo objetivo de chegar à marca histórica dos mil gols e bater o inigualável Pelé. Ronaldo quer o bem do time, mas quer sobretudo que a equipe jogue para o seu bem, para o fazer brilhar. Não era bem essa a ideia do “todos por um” que devia pautar o esforço de uma seleção dentro das quatro linhas. Aqui está a sina agridoce de Portugal hoje: o seu grande herói é também o seu carrasco. Tal como ditam as leis da natureza, a estrela maior está perdendo o brilho, mas não deixa que mais ninguém se ilumine à sua volta.

Bubista, Vozinha e os companheiros da equipe cabo-verdiana estão no exato extremo oposto. O primeiro, um treinador que é “a voz dos pobres”; o segundo, um eletricista que só se tornou jogador profissional aos 25 anos. Ninguém os conhecia, eram todos secundários. Não se moveram pela fama pessoal, mas pela vontade indomável de levar no peito a bandeira de um jovem país, o intento de honrar os seus antepassados, quem sabe até de vingar os seus tetravós escravizados. Estiveram ali, realmente, “um por todos”, para fazer brilhar a menor nação da história a chegar à fase eliminatória de um Mundial. Jogaram contra três seleções de países que já foram campeões mundiais, mas nunca se deixaram derrotar em 90 minutos. Fizeram a Argentina e Messi verem a vida andar para trás. Só lhes faltou em sorte o que sobrou em garra. E isso, que não é pouco, bastou para que o planeta, atordoado com a arena midiática ridícula que se tornou a modalidade, se apaixonasse por eles.

Tribal, irracional, intersocial e intergeracional, o futebol tem uma importante função social. É o reino da emoção que serve como válvula de escape, catarse e limpeza da alma. Num tempo de individualismos e de Narcisos, Cabo Verde mostrou a força do coletivo e o poder do sonho. Provou, como escreveu Fernando Pessoa, que vale mesmo “tudo a pena quando a alma não é pequena”. Pessoas na vida pública, ponham os olhos nisso!


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Folha de São Paulo

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