Política

Será ele o anti-Netanyahu? Aumentam as chances de Gadi Eisenkot

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Da última vez em que foram fotografados publicamente juntos, Gadi Eisenkot estava enterrando o filho, morto em combate em Gaza, e Benjamin Netanyahu não pode deixar de comparecer para a última homenagem ao sacrifício supremo pelo Estado de Israel (muitos não deixaram de notar que o caçula do primeiro-ministro, Yair, tinha passado uma parte da guerra em Miami). Agora, os dois se defrontarão em circunstâncias muito diferentes: sem a experiência nem o traquejo de Netanyahu, sem seus ternos de profissional da política nem o inglês perfeito de quem estudou e morou nos Estados Unidos, o rústico general da reserva, ex-chefe do Estado Maior, desponta como a maior ameaça a catapultá-la do poder.

A política em Israel é famosamente fragmentada e só governa quem fizer o diabo – também conhecido como alianças – com partidos minoritários, geralmente extremistas, como acontece atualmente no governo Netanyahu e seus integrantes de ultradireita.

Segundo uma pesquisa do Haaretz, Eisenkot, que criou um partido do nada, o Yashar, teria a possibilidade de conseguir maioria no Parlamento, em coligação com outros oposicionistas – e com os partido que representam a população árabe, em geral elegendo dez deputados. Aí está o ponto que Netanyahu mais explora para minar o adversário: para uma boa parte da população, é anátema se aliar aos árabes e suas ideias antissionistas.

Comparativamente, Eisenkot é de centro, embora ninguém deva imaginar que teria atitudes muito diferentes das de Netanyahu nas questões mais existenciais para o país – Gaza, Irã, Hezbollah, o que fazer com as populações palestinas não integradas. Ao contrário, quando o Hamas atacou Israel com resultados espantosos, ele atendeu ao apelo do primeiro-ministro e integrou o “gabinete de guerra”. A aliança durou menos de um ano. A personalidade dominante de Netanyahu dificulta alianças.

‘MARROQUINOS’ E ‘POLONESES’

Atualmente, o primeiro-ministro tem uma aprovação baixa, na faixa de menos de 40%, mas sua capacidade de sobrevivência política, traduzida em 19 anos de poder, não pode ser subestimada. Considerando-se que o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, com seus 1,2 mil mortos, aconteceu sob sua administração, é até espantoso que Netanyahu tenha uma aprovação desse quilate.

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Talvez muitos israelenses pensem o clássico da reeleição de muitos políticos, “ruim com ele, pior sem ele”. Eisenkot terá que provar o contrário.

A disputa também tem um fator adicional: Eisenkot é filho de judeus marroquinos, ou seja, procedentes de um país árabe. De forma geral, os que vieram de países do Oriente Médio e do Norte da África são chamados de “misrahim”, os orientais. Sempre foram discriminados como mais toscos e menos instruídos do que os ashkenazi, os judeus da Europa que fundaram o sionismo e o próprio Estado de Israel, algumas vezes descritos como os “poloneses”.

O próprio Netanyahu é de uma família de intelectuais. Seu pai era um acadêmico especialista em história judaica. Nasceu em Varsóvia e mudou o sobrenome de Mileikowsky para Netanyahu. Também têm raízes na Polônia os oposicionistas com quem Eisenkot deverá se aliar, Naftali Bennett e Yair Lapid.

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Os judeus orientais muitas vezes chegaram a Israel com baixo nível de instrução e ocuparam posições mais inferiores na escala social. Hoje, são maioria. Só os de origem marroquina, são cerca de um milhão.

ESTADO DE ESPÍRITO SOMBRIO

Eisenkot não usa gravata, não é bom de oratória e não tem a capacidade de transitar por ambientes internacionais de Netanyahu. Talvez exatamente por isso tenha a possibilidade de encarnar o anti-Netanyahu que conseguirá derrubar um político praticamente imorrível como o primeiro-ministro. Segundo uma pesquisa citada pelo Wall Street Journal, a uma pergunta sobre quem é mais adequado para ser primeiro-ministro, 41% responderam Eisenkot; 40%, Netanyahu.

Ou seja, nada está definido. Muito dependerá de acontecimentos externos, como os desdobramentos da situação no Irã e a atitude de Donald Trump, cada vez menos favorável a Israel. O estado de espírito dominante no país é sombrio: 91% acham que Israel perdeu ou não conseguiu um resultado conclusivo na guerra aérea com a qual Netanyahu pretendia uma vitória espetacular – e uma garantia de que seria facilmente reeleito.

A realidade, como sempre, não se conformou ao roteiro pré-traçado e despontou a estrela de um general baixinho e pouco sofisticado no caminho. Será mais uma batalha em que Netanyahu desafia todos os prognósticos ou dessa vez a coisa muda?

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