Política

Ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido

A ideia do futebol, em especial aquele apresentado pela seleção, como uma espécie de expressão da nacionalidade, da alma brasileira e das capacidades e características do país já cumpriu seu papel. Houve um momento histórico, ao longo do século 20, que o nobre e rude esporte bretão ganhou novos contornos entre nós, como observaram alguns de nossos intérpretes –o mais recente e fulgurante deles, José Miguel Wisnik, em seu livro “Remédio Veneno”.

Praticamente reinventado por certa prontidão e jeito brasileiro de atuar, o futebol —parafraseando Wisnik— disse muito, com sua linguagem não-verbal, sobre algumas de nossas forças e fraquezas mais profundas, ajudando a ver sob outra luz questões centrais da formação e da identidade brasileiras.

De alguma forma Pelé, Garrincha, Didi, Romário e tantos outros coreografavam em campo as possibilidades de um país imaginoso, intuitivo e ao mesmo tempo eficiente e vencedor, que estaria construindo uma nacionalidade original, criativa, antropofágica e mestiça. Era o mesmo ethos nacional que se desenhava no território das artes, no samba, na bossa nova, na literatura, na arquitetura, no teatro.

Pois bem, tudo isso aconteceu. Não foi uma ilusão. Esses tijolos foram colocados. Pelé, João Gilberto, Tom Jobim estão lá. Fazem parte de nossas fundações, mas não voltarão mais. Não faremos novamente “Chega de Saudade”, assim como os americanos não vão recompor seus gloriosos standards.

Hoje, como sabemos, aquele ethos nacional está em crise, senão sob ataque, num ambiente em que pensar o futuro do Brasil é problemático.

Embora tenhamos nos habituado, ver no desempenho futebolístico da seleção uma promessa ou um fracasso de nação já não faz mais sentido. A repetição desse padrão fora de época transformou-se num modo de estabelecer relações menanicistas entre performance futebolística e performance do país. Jogamos mal, é culpa de nossa incompetência intrínseca como sociedade.

Na realidade, deveríamos hoje considerar o futebol com menos implicações na configuração da alma e dos resultados objetivos do Brasil.

Estamos numa época em que acompanhamos um esporte que é relevante para os brasileiros como para alguns outros países. Pesquisas apontam, aliás, crescente indiferença pela Copa. Segundo o Datafolha, 54% dos brasileiros declararam não ter interesse em acompanhar este Mundial, maior índice desde 1994.

Também não me pareceu (talvez surjam pesquisas a respeito) que a derrota para a Noruega tenha sido assimilada de maneira traumática como foram, justificadamente outros fiascos, como o sintomático 7 a 1 de 2014, além da inesquecível derrota do grande time de 1982.

Estou entre os que acreditam que a bagunça administrativa e a gestão corrupta dos últimos anos tornaram-se gravíssimas num mundo em que o esporte se globalizou e tornou-se muito mais competitivo.

É certo, porém, que o “processo” pode fracassar. Tivemos duas Copas e “processo” sob Tite, e fracassamos. Mas, sem dúvida, melhor com ele.

Ultimamente, assistimos à ascensão de uma excelência futebolística pós-colonial, com pretos e mestiços, nas seleções da França e da Espanha, que de certo modo reconfigura o ethos nacional dos dois países —enquanto a gigante Itália saiu do mapa.


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Folha de São Paulo

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