Como a divisão de votos entre homens e mulheres impacta campanhas de Lula e Flávio

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A discussão sobre as diferenças entre os sexos chegou com força à política nos últimos tempos. O fenômeno ganhou um termo específico — gender gap (disparidade de gênero, em português) — e, segundo especialistas, tem força para se tornar um dos acontecimentos eleitorais mais relevantes das democracias contemporâneas. Em termos ideológicos, o gender gap tomou a seguinte configuração: enquanto homens tendem mais à direita, as mulheres vêm se posicionando mais à esquerda. É um fenômeno mundial que encontra eco no Brasil. De tão relevante, virou objeto de estudos por aqui, como o do cientista político Fábio Vasconcelos, pesquisador das universidades Uerj, PUC-Rio e UFPR. Segundo as análises feitas por esse especialista, o eleitorado feminino e masculino vinha se comportando de forma igual no país nas disputas presidenciais, até que esse pêndulo começou a se distanciar nos anos recentes. Desde então, a diferença só vem aumentando. Tudo indica que o movimento chegou ao auge na atual disputa ao Palácio do Planalto. “O gênero passou a ser a principal linha divisória da política brasileira”, afirma Vasconcelos.
Essa conclusão foi feita com base em análises das sondagens eleitorais divulgadas pelo Datafolha nos últimos dezesseis anos. O pesquisador observou que as intenções de voto por gênero para a Presidência se dividiram a partir de 2018, com homens aderindo à candidatura de Jair Bolsonaro, então no PSL (a quem deram uma vantagem de 18 pontos percentuais), enquanto mulheres preferiram levemente Fernando Haddad (PT). Essa inclinação à esquerda das mulheres se ampliou em 2022 e não parou de crescer. O gender gap atual aparece com clareza quando se analisam os números dos atuais favoritos à Presidência. Segundo o Datafolha de junho de 2026, entre o eleitorado masculino, Flávio Bolsonaro aparece na frente de Lula, com 50% ante 41%. A situação se inverte quando se considera apenas o público feminino: o petista lidera com 52% ante 37% do senador.
Este pleito promete ser um dos mais disputados da história (no eleitorado em geral, de acordo com o mesmo Datafolha, o presidente tem 47% ante 43% do Zero Um na simulação do segundo turno), daí a relevância do gender gap. O alargamento da diferença ideológica entre homens e mulheres acontece ao mesmo tempo que a direita cresce no Brasil. Segundo a mais recente pesquisa Datafolha, pela primeira vez desde 2014 os brasileiros se enquadram mais à direita e centro-direita (44%) do que à esquerda e centro-esquerda (39%). Entre as mulheres, no entanto, esse quadro se inverte: 44% se dizem mais à esquerda a enquanto 38% se colocam mais à direita. “O gênero se tornou um dos principais definidores do voto hoje”, afirma Vasconcelos.
É justamente esse diagnóstico que orienta a estratégia das principais campanhas. A condenação pública de casos de feminicídio tornou-se frequente nos discursos de Lula, assim como propostas como o fim da escala 6×1 e a política nacional de cuidados, apresentados como medidas voltadas especialmente para as mulheres. O governo também bate na tecla dos programas sociais, que atingem principalmente o público feminino. Enquanto isso, Lula tem o desafio de buscar alternativas para reconquistar o eleitorado masculino, no qual a desaprovação a seu governo chega a 55%. Não à toa, os três temas em que o eleitor acha que Flávio se sairia melhor que Lula, segundo a última pesquisa Atlas Bloomberg, são combate à criminalidade, carga tributária e equilíbrio fiscal, temas com maior tração entre o eleitorado masculino.
Já Flávio passou a promover encontros com o público feminino, procura uma mulher para vice e tem levado a esposa, Fernanda, a compromissos. Todo esse esforço esbarra em obstáculos criados por ele próprio e por gente de seu círculo político. As desavenças públicas entre o Zero Um e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro certamente não contribuem para a melhora da popularidade do candidato do PL junto às mulheres. A crise foi amplificada por aliados de Flávio, como o blogueiro Paulo Figueiredo. Embora Michelle seja apontada pela pesquisa Meio/Ideia como a mulher mais influente da política brasileira, ela passou a ser alvo de ataques machistas disparados por essa turma.

Ao criticar o recente vídeo no qual a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro acusou o enteado de humilhá-la ao dizer que ela não entendia de política, Paulo Figueiredo achou por bem ampliar a crise de imagem no campo conservador. Disse que “mulheres votam muito mal, principalmente as solteiras”, já que “casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido”. Pesquisa Meio/Ideia, divulgada na quarta-feira 8, mostrou que 24% dos homens concordam ao menos em parte com a declaração, posição compartilhada por 0% das mulheres (isso mesmo, zero). A reação ao vitupério de Figueiredo piorou a situação de Flávio — que teve que reprovar a fala do aliado.
Tido como um político mais conciliador e menos radical que o pai, o senador herdou o eleitorado conservador do ex-presidente e, ao mesmo tempo, a antipatia que parte considerável do público feminino passou a nutrir por Jair Bolsonaro. O histórico do ex-capitão, vale lembrar, é farto de episódios de machismo e misoginia. Na campanha de 2022, em entrevista a VEJA, ele se disse arrependido por ter afirmado em 2014 que a deputada petista Maria do Rosário não merecia ser estuprada por “ser feia”. O mea-culpa tardio não foi suficiente para evitar a derrota para Lula. Na véspera daquele pleito, a vantagem do petista para o ex-capitão entre as mulheres era de 49% a 39%.

O alinhamento feminino à esquerda no Brasil aumentou justamente com a ascensão política de Jair Bolsonaro, que inspirou em 2018 onda de protestos tendo como palavras de ordem “Ele Não”. Esse fenômeno está em grande parte ligado a dois fatores: a reação ao conservadorismo masculino, crescente (não só no Brasil), e a aproximação com pautas da esquerda, principalmente na economia. Afirmações como “é preferível pagar mais impostos ao governo e receber serviços gratuitos de educação e saúde”, por exemplo, encontraram mais apoio entre o público feminino (48%) do que entre os homens (39%). “Elas se preocupam mais com soluções concretas para seus problemas em vez da mera polarização, porque são elas que usam os serviços públicos, que acompanham a educação infantil, que levam crianças e idosos ao posto de saúde”, diz Cila Schulman, CEO do Ideia Instituto de Pesquisa.

Se a aproximação das mulheres com a esquerda está ligada a políticas de proteção social, o movimento masculino segue outra lógica. Para especialistas, parte dos homens reage ao avanço feminino em espaços antes predominantemente masculinos e tende a aderir com mais facilidade a discursos de autoridade e de respeito a estruturas tradicionais de hierarquia familiar. Também são mais suscetíveis a propostas que ressaltam o mérito individual e compartilham posições mais liberais na economia e uma visão linha-dura da segurança pública. Isso ajuda a explicar por que pautas como flexibilização do acesso às armas encontram maior receptividade entre eles (muitas vezes sob a óptica de proteção da propriedade e da família), enquanto são rejeitadas pela maioria das mulheres, principais vítimas da violência armada (59%), segundo levantamento do Instituto Sou da Paz.

O debate sobre o voto feminino ganhou centralidade porque as mulheres passaram a ocupar mais espaço na vida econômica e social. Até 1932 elas não podiam votar nem ser candidatas no Brasil. Todas as conquistas foram precedidas de muita pressão, especialmente nas ruas, por aqui, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. Hoje, as mulheres são maioria do eleitorado no Brasil, estudam mais do que os homens e respondem por parcela crescente dos lares. Apesar desse protagonismo, seguem sub-representadas na política: ocupam apenas 17,7% das cadeiras da Câmara.

Mesmo que a presença institucional ainda seja limitada, as mulheres são uma força eleitoral importante. Em termos políticos, o que ocorre hoje no Brasil é semelhante ao movimento anti-Donald Trump nos Estados Unidos, que conta com apoio maciço das mulheres. Isso aprofundou o cisma ideológico entre os gêneros ao provocar a radicalização das convicções de direita, como o sentimento anti-woke, explorado à exaustão pelos republicanos. Ao mesmo tempo, a inclinação feminina à esquerda seguiu ganhando tração. Levantamento da fundação alemã Friedrich Ebert de 2025 confirma a percepção: entrevistas em catorze países da América Latina mostraram que, em nove deles, o percentual feminino que se identifica mais com a esquerda é maior do que o masculino.

O alinhamento feminino ao campo progressista não é automático, mas condicionado ao que os candidatos apresentam. Um estudo da Universidade de Cambridge de 2025 analisou dados em dezesseis países europeus e concluiu que mulheres passaram a votar mais em partidos de esquerda nas últimas décadas, mas que isso depende do que eles oferecem: se não houver compromisso com políticas de igualdade de gênero no mercado de trabalho e de divisão do cuidado, como incentivos à licença-maternidade e a creches, essa vantagem praticamente desaparece. Não por acaso, portanto, o recorte de voto por gênero tornou-se um dos principais fatores capazes de definir uma eleição. No Brasil, o campo que conseguir entender e superar melhor o desafio político do gender gap terá maiores chances de sair vitorioso das urnas em outubro, na disputa pelo Palácio do Planalto.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003
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