O croata tocou na bola? Depende do que é tocar

Uns 20 anos atrás, numa aula de neurologia, um professor nos repetiu o batido dilema: “Se uma árvore cai e ninguém ouve, ela faz barulho?”. A resposta naquela sala era: “Não, ela faz ondas de compressão do ar. Barulho é um evento neurológico. Sem um sistema nervoso, não há som”.
Essa aula me veio à cabeça nos acréscimos do segundo tempo de Portugal x Croácia. A Croácia perdia por um gol quando a bola foi alçada à área. Matanovic subiu para cabecear, ela passou por ele, tocou nas costas de um defensor português e sobrou para um croata, que cruzou para o toque final do empate.
Comemoração, vídeo de torcedor emocionado. Meu filho feliz porque dormiria mais tarde com a prorrogação.
Porém o VAR chama o juiz e mostra o lance com um gráfico: uma linha que salta quando a bola passa perto da cabeça do croata. Um chip escondido na bola acusou alteração na aceleração inercial da bola, o que a Fifa interpreta como toque. Nesse instante medido, o jogador para quem a bola sobrou estava impedido. Gol anulado.
O que diz a regra? Impedido é quem está à frente do penúltimo defensor “no momento em que a bola é jogada ou tocada por um companheiro”. A palavra-chave, como já levantamos, é “tocada”. O que a definia quando a regra foi escrita? O que humanos reconheciam como tal. Não poderia haver toque se ninguém viu aquilo que, na escala do jogo, árbitros, jogadores e espectadores reconheciam como toque.
Mas e se um aparelho capta o som? Ainda não é som. É uma máquina medindo a compressão do ar, o mesmo fenômeno que, processado por um sistema nervoso, chamamos de som. Neste caso, sequer por câmera superlenta se percebe alteração na rotação ou na direção da bola.
Deixo claro: não digo que não houve toque físico. Digo que, na escala do jogo, não houve. E foi para essa escala que as regras foram feitas. O toque não era “qualquer perturbação inercial”, era “um contato percebido”. Coisas diferentes.
A câmera lenta altera a percepção. Não por acaso, o protocolo do VAR manda avaliar a intensidade de contatos em velocidade normal, já que a lenta pode dar intencionalidade onde não havia. Um toque, porém, seria binário, e por isso se tolera. Só que ele é “sim ou não” na escala humana, não na da máquina, que precisa de um limiar para traçar a linha. O replay é como um óculos, ajuda a percepção a enxergar o fato, e todos podemos conferir. O chip não auxilia nossa percepção, cria uma nova definição para o que é o fato.
Tecnologias devem ser usadas, pois trazem decisões melhores e mais justas. Mas a calibração deve ter a percepção humana como padrão e, no limite dela, uma regra de desempate, que seria a decisão de campo.
Não seria invenção. O princípio fundador do VAR era mudar decisões só diante de “erro claro e óbvio”. O toque de chip e o impedimento escaparam dessa cláusula ao se reclassificarem como “fato”, por definição claro e óbvio. A questão é: óbvio para quem? Ou seria “para o quê”?
Em 2022, noutro jogo de Portugal, Cristiano Ronaldo disse ter tocado na bola antes do gol dado a Bruno Fernandes. O comunicado oficial dizia demonstrar “definitivamente” que não houve contato. A prova? “Nenhuma força externa pôde ser medida.”
Agora Matanovic diz que “acha que sentiu algo no cabelo”. Como o sentir não se mede, vamos ao contato —que, neste caso, a medição deixou de verificar e passou a definir.
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Esporte / Folha de São Paulo



