Esporte

Foi-se Franco Baresi, ‘o’ líbero dos anos 1980 e 1990

O mundo do futebol perdeu na sexta-feira (31) Franchino “Franco” Baresi, um dos melhores zagueiros que o esporte viu jogar. Era um jovem de 66 anos.

Na minha memória, quando eu era um adolescente, nos anos 1980, e isso estendeu-se para os anos 1990 (não a adolescência, a memória), Baresi era uma unanimidade quando o tema era beque de qualidade. “Dos bão”, como dizia o apresentador Milton Neves.

Beque, sim, sinônimo de zagueiro, mas bem mais que isso. Foi com Baresi que fui apresentado a uma palavra muito presente no vocabulário futebolístico da época e que caiu em desuso: líbero.

O italiano que comandava a defesa do Milan –pelo qual eu torcia contra por ser muito fã de Careca (ex-Guarani e ex-São Paulo), do rival Napoli, que contava também com Diego Maradona– era não um líbero. Era “o” líbero.

Havia ele, Baresi, e havia os que, jogando na defesa, queriam ser como Baresi, invariavelmente sem conseguir devido à imensa capacidade técnica e tática, única. Fisicamente, tinha um fôlego sem fim, apesar de não ser muito rápido, deficiência que compensava com o posicionamento. Sobrava inteligência. E não escasseava raça.

Lembro-me de sua classe, de sua elegância, de sua firmeza e de sua precisão, seja na marcação, seja na armação.

Baresi, apesar de saber se fosse necessário (quase nunca era), não marcava duro, com pancadas, os oponentes. Desnecessário para quem tinha uma leitura tão sublime do jogo, de modo que, quando um adversário acionava o atacante, ele acionava era Baresi, que se antecipava e ficava com a bola.

E precisava ser assim. Não era alto (1,76 m) nem muito robusto para a posição, então o corpo a corpo significava desvantagem.

O interessante é que o líbero que Baresi interpretava era completamente distinto do líbero de décadas anteriores, e a Itália teve vários. Geralmente, esse jogador atuava na sobra, um terceiro zagueiro atrás de outros dois, responsável pela cobertura. Alguém falhava? Ele consertava (ou tentava), mandando a bola para fora do campo. Salvava com chutões.

Porém o Milan treinado por Arrigo Sacchi, além de não gostar de dar chutões, não jogava com três zagueiros, mas com dois. Baresi formava dupla, atuando pela esquerda, com Costacurta.

Liderava como ninguém. Baresi acertava o posicionamento do time todo e controlava a linha de impedimento, bastante eficaz, do Rossoneri.

O que fazia dele um líbero era a liberdade que lhe era concedida para sair jogando. Iniciava as jogadas, avançava para distribuir o jogo.

Antes, olhando o mundo, quem fazia tão bem a função era o alemão Franz Beckenbauer. Depois, o holandês Ronald Koeman, também grandioso nos lançamentos, e outro alemão, Matthias Sammer. Depois, mais ninguém.

Na Copa de 1990, Sebastião Lazaroni inventou um líbero para a seleção brasileira, à moda antiga. Mauro Galvão jogava para cobrir os Ricardos (Rocha e Gomes). Deu certo até dar errado com a Argentina: Caniggia estava livre, com Mauro Galvão “a milhas de distância”, para eliminar o Brasil.

Foi na Copa seguinte, a de 1994, que quem tinha idade para acompanhar e registrar talvez lembre-se de Baresi –campeão em 1982 na reserva de outro líbero, Scirea. Ou talvez não se lembre.

Pois, na final sem gols entre Brasil e Itália, o erro mais memorável na disputa de pênaltis é o de Roberto Baggio. Antes, contudo, um italiano tinha desperdiçado da mesma forma, batendo “na lua”, por cima do gol de Taffarel. Ele, Baresi, o capitão da Azzurra.


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Esporte / Folha de São Paulo

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