Economia

Data centers de IA podem destravar R$ 100 bi por ano no Brasil; quais ações ganharão?

Os hiperescaladores estão movendo o maior ciclo de investimento da história e trazendo também boas perspectivas para as empresas brasileiras da Bolsa.

Os hyperscalers são as gigantes de tecnologia que operam infraestrutura de nuvem em escala industrial. Empresas como Amazon (AWS), Microsoft (Azure), Alphabet (Google), Meta e Oracle, juntas, devem investir cerca de US$ 725 bilhões em 2026, alta de aproximadamente 77% frente a 2025, com aproximadamente 75% direcionados à infraestrutura de IA (GPUs, chips e data centers). “Para se ter dimensão, esse montante se aproxima do PIB da Argentina e mais que dobra tudo o que foi investido pelo grupo entre 2022 e 2024”, destaca a Ágora Investimentos.

Os estrategistas da casa também apontam que, no Brasil, o país já concentra 48% da capacidade instalada e 71% da capacidade em construção de data centers da América Latina, combinando energia limpa abundante e disponibilidade – atributos escassos nos EUA e Europa.

Para os analistas, com o eventual avanço do Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter), os investimentos locais podem alcançar R$ 100 bilhões ao ano, elevando a capacidade instalada de 750 MW (megawatt) para 3 GW (gigawatt) até 2032.

Assim, o tema deixou de ser uma “história de tecnologia” e se tornou transversal: impacta ações globais, crédito corporativo (recorde de US$ 428 bilhões em bonds, ou títulos, emitidos pelo setor em 2025) e abre uma nova avenida de infraestrutura no Brasil, com potencial de captura por nomes ligados à cadeia elétrica.

Na B3, as ações de empresas de infraestrutura e de energia aparecem entre as beneficiadas com esses movimentos.

Já no fim de 2025, o BTG Pactual ressaltou em relatório sobre o setor elétrico que, se o Brasil souber capturar a oportunidade com a construção de data centers, o país pode se tornar um “paraíso dos data centers” ao lado do Chile.

O Brasil dispõe de ampla capacidade de geração para sustentar um eventual crescimento de IA, avaliou. No Nordeste, por exemplo, devido às características regionais de oferta e demanda, uma parcela significativa de energia tem sido desperdiçada por restrições em fontes renováveis, com mais de 20% da geração renovável sendo desligada por falta de demanda regional e de capacidade de transmissão. Essa energia é simplesmente eliminada do sistema e poderia ser utilizada para abastecer a nova capacidade de data centers.

O Sudeste e o Sul do Brasil, por sua vez, abrigam diversas usinas hidrelétricas com reservatórios. Com a expansão do mercado livre de energia (ACL) no país, os contratos de fornecimento se tornaram mais curtos. Até pouco tempo atrás, um produtor independente (IPP) normalmente contava com contratos médios superiores a 10 anos. Esse cenário mudou, e hoje todas as empresas possuem uma parcela significativa de sua capacidade descontratada.

Continua depois da publicidade

“A estabilidade e a confiabilidade da rede elétrica no Brasil melhoraram nas últimas décadas. Os padrões de qualidade exigidos pelo regulador se tornaram muito mais rigorosos, e todas as distribuidoras de energia que monitoramos investiram múltiplas vezes seus QRRs (depreciação)”, ressaltou a equipe de análise.

No país, Axia (AXIA3), Auren (AURE3), Copel, CPFL Energia (CPLE3), Engie (EGIE3) e Cemig (CMIG4) poderiam ser empresas da Bolsa beneficiadas, em razão de seus portfólios de geração, avaliou a equipe do banco. Todas as companhias impactadas por restrições de produção renovável também poderiam se beneficiar, incluindo Equatorial (EQTL3), CPFL (CPFE3) e Neoenergia.

Mais recentemente, o Goldman Sachs manteve recomendação neutra para CPFL, mas ressaltou que, entre os principais riscos de alta para o papel, estavam possíveis sinais de expansão de data centers de inteligência artificial em Campinas e outros locais do estado de São Paulo. Isso impulsionaria aumento dos volumes de energia e investimentos na área de concessão da CPFL.

Continua depois da publicidade

Em relatório recente, o JPMorgan aponta que as conversas entre investidores focados na WEG (WEGE3) têm se concentrado justamente em como modernizar as redes de energia para que elas deem conta de toda a carga. 

A WEG possui exposição direta a essa tendência por meio de seu segmento de Energia GTD (Geração, Transmissão e Distribuição), divisão responsável por fabricar desde geradores até grandes transformadores. Somente essa área responde por cerca de 38% da receita da companhia no primeiro trimestre de 2026. 

Os analistas do JPMorgan destacam que os novos complexos tecnológicos de IA vão exigir tanto poder que a infraestrutura atual das cidades vai precisar ser completamente atualizada para que o sistema não entre em colapso. 

Continua depois da publicidade

Para dar uma ideia do tamanho desse desafio, as projeções mostram que o setor precisará de uma capacidade gigante medida em GW (Gigawatts). “Espera-se que a demanda global de energia dos data centers atinja cerca de 240-280 GW até 2030 vs. cerca de 115 GW em 2025, o que implica em mais do que dobrar de tamanho – criando uma atração direta para atualizações em transmissão, distribuição, interconexão e equipamentos”, avalia o JPMorgan.

Para os negócios da WEG, o apetite por energia significa uma carteira de pedidos robusta por anos. Segundo os analistas, o mercado terá que correr para construir novos projetos do zero (chamados de greenfields) para dar conta desse consumo. Além disso, também vai precisar substituir sistemas antigos e obsoletos. 

O outro lado da moeda

Cabe destacar ainda que as próprias elétricas têm feito uso da inteligência artificial em seus processos. A Axia implementou diversas soluções baseadas em IA nos últimos anos, mirando principalmente ganhar eficiência e aumentar a resiliência de sua enorme base de ativos, que inclui dezenas de hidrelétricas e 74 mil km de linhas de transmissão.

Continua depois da publicidade

As aplicações de IA na Axia envolvem, por exemplo, modelos climáticos que avaliam riscos associados a queimadas e ventos extremos, visando ações preventivas para evitar desligamentos de linhas de transmissão de energia e outras interrupções. Também alcançam funções administrativas, como auditoria de contratos e cálculos de passivos judiciais.

Além disso, também há líderes de IA na Bolsa brasileira que adotaram a tecnologia no último ano e tiveram os melhores resultados, conforme aponta o Santander.

Entre elas, Totvs (TOTS3), Nubank (BDR: ROXO34), Itaú (ITUB4), TIM (TIMS3), Magazine Luiza (MGLU3), C&A (CEAB3), Coca-Cola FEMSA (negociada em Nova York e México) e YDUQS (YDUQ3).

No caso da Totvs, a visão é de que a empresa está construindo uma das narrativas de IA mais diferenciadas do setor de software corporativo (mesmo setor em que a Globant está enquadrada). Em 2025, a companhia informou que os habilitadores relacionados à IA já representavam mais de 17% da receita de 2025.

Já o Itaú reportou mais de 500 casos de uso internos de IA voltados para eficiência e produtividade, além do PIX via WhatsApp impulsionado por IA e por capacidades transacionais. Para os analistas do Santander, isso indica uma base de adoção interna em larga escala.

Infomoney

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo