Saúde

Exercício e mudanças de hábito têm o mesmo efeito sobre a asma, diz estudo

Não é preciso começar uma rotina intensa de exercícios para melhorar o controle da asma. Em um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, publicado em junho na revista Pulmonology, estratégias para reduzir o sedentarismo no dia a dia tiveram resultados semelhantes aos de um programa supervisionado de treino aeróbico em adultos com asma moderada a grave. Além disso, os benefícios da mudança de hábitos pareceram mais duradouros.

Caracterizada pela inflamação crônica das vias aéreas, a asma afeta 4,6% da população brasileira, de acordo com o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Asma do Ministério da Saúde, chegando a 12,1% das crianças. Seus sintomas incluem chiado e aperto no peito, falta de ar e tosse.

Comparados a pessoas saudáveis, indivíduos com asma moderada a grave costumam apresentar redução da capacidade de se exercitar e, portanto, inatividade física.

Programas estruturados para melhorar a aptidão aeróbica ou intervenções comportamentais para aumentar a prática na vida diária são abordagens não farmacológicas utilizadas para melhorar o controle clínico da doença.

Financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), o trabalho foi conduzido no Hospital das Clínicas de São Paulo e acompanhou 52 adultos, com idades entre 18 e 65 anos, com asma moderada a grave, sedentários e com a doença mal controlada, apesar do tratamento medicamentoso.

Metade foi sorteada para um programa de esteira ergométrica com duração de 45 minutos, duas vezes por semana, com intensidade calibrada por teste cardiopulmonar. Já os outros participantes receberam uma pulseira que vibrava quando batia a meta diária de passos ou quando o usuário ficava parado por mais de uma hora, além de sessões semanais de orientação para criar novos hábitos.

Após oito semanas, os dois grupos melhoraram o controle da asma na mesma proporção. E o ganho não veio sozinho. Avanços na qualidade de vida, nos sintomas de ansiedade e depressão e na produtividade no trabalho também foram percebidos em ambos os grupos. Mas o detalhe mais curioso apareceu quatro meses depois: enquanto o efeito do treino na esteira perdeu força com o tempo, a turma que só mudou a rotina manteve o benefício praticamente intacto.

“A manutenção do efeito grande no grupo de intervenção comportamental, em contraste com o declínio do treino aeróbio, pode sugerir uma sustentabilidade superior das estratégias de mudança de estilo de vida“, explica o fisioterapeuta David Halen Araujo Pinheiro, pós-doutorando na FMUSP e primeiro autor do estudo.

Para ele, o motivo mais provável é que, enquanto os benefícios do treinamento físico dependem da continuidade do estímulo estruturado e/ou supervisionado, a mudança de hábito vira parte da rotina, e o paciente carrega esse aprendizado mesmo sem qualquer equipamento por perto.

Obesidade teve pior resposta

Um outro ponto destacado na pesquisa foi que, nos participantes com obesidade do grupo comportamental, não houve aumento no número de passos diários. Segundo os autores, esses resultados reforçam a ideia de que pessoas que convivem com as duas condições podem ser menos responsivas a esse tipo de intervenção.

“A obesidade piora a asma por mecanismos como redução do volume pulmonar e do calibre das vias aéreas, inflamação sistêmica de baixo grau e pelas comorbidades associadas, como refluxo e apneia do sono“, explica o pneumologista Guylherme Saraiva, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia. Ou seja, a condição torna o esforço físico e respiratório mais penoso, criando um ciclo difícil de quebrar: menos disposição para se exercitar, mais peso, pior controle da asma.

Embora o resultado tenha sido favorável às duas abordagens, o estudo tem limitações. O treino na esteira durou só oito semanas, menos que a maioria dos trabalhos anteriores, geralmente feitos ao longo de três meses. Além disso, os grupos começaram com IMC (índice de massa corporal) diferentes, embora os autores destaquem que isso não afetou os demais resultados. Ainda assim, os cientistas reforçam que essa é a primeira pesquisa a colocar ambas as estratégias lado a lado e acompanhar os participantes por meses após o fim da intervenção.

Sair do sedentarismo é o mais importante

Aumentar a atividade física diária não significa virar atleta da noite para o dia. “Levantar a cada hora, subir escadas, ir a pé até o mercado e caminhar dez minutos após o almoço já quebram o comportamento sedentário, que é o alvo real do tratamento”, ensina Saraiva. Com o tempo, o volume de atividade vai aumentando de maneira natural, junto da confiança.

Embora o aumento do movimento cotidiano seja um passo importante, a atividade física é recomendada para todos os casos de asma, de leve a grave.

Entre as boas práticas estão ter a medicação de manutenção em dia, garantir que haja resgate por perto e fazer um aquecimento de cinco a dez minutos, o que reduz a broncoconstrição induzida pelo esforço.

“Se os sintomas ao exercício forem recorrentes, ajusta-se o tratamento em vez de abandonar a atividade. A modalidade deve ser a que o paciente vai manter, com cautela apenas em piscinas muito cloradas, ar frio e seco e dias de alta poluição”, orienta Saraiva.

Apesar dos benefícios observados, uma ressalva permanece: nem o exercício físico nem a mudança de hábitos substituem o tratamento medicamentoso. Ambas as estratégias devem ser adotadas como complemento à terapia prescrita pelo médico, nunca em seu lugar.

Informação

Folha de São Paulo

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