Política

Debate entre Tarcísio e Haddad tem excesso de números e vira prévia para 2030

O debate entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) é uma reprise de 2022, mas pode ser visto também como um trailer para 2030. Ambos, afinal, têm grandes chances, ao menos aos olhos de hoje, para representar os campos bolsonarista e lulista na eleição presidencial daqui a quatro anos.

Eles não se negaram a cumprir esse papel, nacionalizando o encontro em diversos momentos. O governador provocou o ex-ministro da Fazenda sobre o gasto fiscal elevado e chamou sua menina dos olhos, o arcabouço fiscal, de “frouxo”.

Jogou sal na ferida ao lembrar o desastre econômico do governo Dilma Rousseff e lançou uma provocação: “Será que não tem que haver uma mudança em Brasília?”.

Haddad respondeu com dados macroeconômicos que são um trunfo de Lula: inflação relativamente controlada, desemprego em mínimos históricos e crescimento razoável.

E cutucou o adversário lembrando da relação da família Bolsonaro com o governo Donald Trump e seu papel na imposição de tarifas contra o Brasil. Aludiu também a um dos maiores erros cometidos pelo governador durante seu mandato, a foto com o boné do presidente americano. “O governador tem que colocar o boné certo, o boné do brasileiro”, afirmou.

O figurino nacionalizado incluiu ainda o caso Master, isca que Haddad jogou para Tarcísio, ao lembrar da suposta omissão de Roberto Campos Neto, mas que o governador não mordeu. O petista também citou o filme “Dark Horse”, que teve financiamento em parte de Daniel Vorcaro, já em sua última participação no debate, sem dar tempo para o adversário responder.

Tarcísio devolveu mais adiante, perguntando se o petista fazia um mea culpa pelo escândalo da Lava Jato, e desse fez foi Haddad quem ignorou a provocação.

Em vários pontos, os debatedores pareciam emissários de seus padrinhos nacionais, Lula e Flávio Bolsonaro (PL), o que ajudou a elevar a temperatura do encontro. Não chegou a ser um debate sangrento, mas também não foi o chá de porcelanas de quatro anos atrás.

Haddad, possivelmente mordido após ter sido chamado pelo prefeito Ricardo Nunes de “professorzinho de nariz empinado”, qualificou Tarcísio como um concurseiro adepto de “decoreba”.

O clima piorou quando o governador disse que o petista dividiu palanque com uma traficante da favela do Moinho, gerando reação irada do ex-ministro da Fazenda.

O petista adotou uma estratégia previsível, de críticas à desestatização, uma marca da gestão Tarcísio, chamando-a de “programa voraz de privatização” e “parceria com a Faria Lima”.

Também falou da infiltração do crime organizado no estado e de uma suposta insatisfação do governador com seu ex-secretário de Segurança Guilherme Derrite.

Cobrou ainda, como já vem fazendo, reconhecimento por parte do governador da participação de recursos federais em ações que vão da remoção da favela do Moinho às novas linhas de trem e metrô e investimentos na saúde.

Já Tarcísio defendeu a venda da Sabesp e citou um sem-fim de obras em diversas áreas, além de ter feito uma defesa dos indicadores de violência em queda.

Nos momentos em que houve discussão sobre temas do estado, Tarcísio e Haddad voltaram ao tom professoral pelo qual são mais conhecidos, desfilando um sem número de dados e termos técnicos.

“Eu sei que os números incomodam”, disse Tarcísio a Haddad, em certo momento, na enésima troca de farpas baseada em dados. Grande parte da audiência certamente se identificou com a frase.

Folha de São Paulo

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