Garotinho acena a Renan Santos, vincula rivais a facções e diz que terá dois vices

O candidato ao Governo do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (Republicanos) afirmou nesta quinta-feira (6) que tem simpatia pela candidatura de Renan Santos (Missão) à Presidência da República, disse que a eleição no estado tem candidatos “da milícia e do Comando Vermelho” e que pretende ter uma vice formal e outro informal.
Governador do Rio de Janeiro de 1999 a 2002, Garotinho, 66, foi deputado estadual, prefeito de Campos dos Goytacazes por dois mandatos e secretário de governo. Em 2002, disputou a Presidência e ficou em terceiro, com cerca de 15 milhões de votos.
Garotinho foi sabatinado nesta quinta-feira (6), na primeira rodada do ciclo de entrevistas promovido por Folha e UOL.
O ex-governador disse que não vê diferenças reais entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
“Entre os dois candidatos, naquilo que de fato melhora a vida do povo —salário, poder de compra, combate à corrupção—, eu quero saber qual a diferença que nós temos aqui. Se ganhar direita, esquerda, vai mudar muito pouco para a vida real da população. Vamos ter mudanças em alguns costumes, posições de política internacional”, afirmou.
“Eu nem o conheço [Renan Santos], mas pelo menos uma coisa ele tem feito: tocado na ferida que outros candidatos tentam esconder.”
O ex-governador disse que Eduardo Paes (PSD) é “candidato da milícia” ao governo, e que Douglas Ruas (PL) é o “candidato do Comando Vermelho”.
A Folha procurou os dois. A campanha de Paes não respondeu.
“Não vou entrar na baixaria desse candidato, velho conhecido da Justiça e do sistema prisional. O povo está cansado disso. Minha campanha será de propostas para melhorar a vida da população. Esse político faz parte da geração que criou todos os problemas para os quais hoje estamos discutindo as soluções”, disse Ruas, por meio de sua assessoria.
Garotinho embasou a vinculação da milícia a Paes pela presença, no PSD, da ex-deputada Lucinha, investigada por ligações com milicianos na zona oeste.
Sobre Ruas, lembrou que o deputado chamou o então presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) Rodrigo Bacellar de “ídolo”. Mais tarde, Bacellar foi preso sob acusação de vazar informações para pessoas supostamente vinculadas ao CV, o que ele nega.
“A mesma PF que prendeu Bacellar afastou da Assembleia a deputada Lucinha, do PSD. A deputada cujo filho é secretário de Eduardo Paes [ele é ex-secretário]. Paes dizia para todo mundo que tinha por ela carinho todo especial. Quando ela vai presa, descobre-se que ela conversava por telefone com Zinho [apontado como chefe de milícia], e ele a chamava de madrinha”, afirmou Garotinho.
“Se ele não é candidato da milícia, a madrinha da milícia é do partido dele.”
Vice
O ex-governador afirmou que definiu sua vice, major da Polícia Militar Elaine Gonçalves (Democrata, antigo PMB), mas disse que sua principal opção seria o coronel Venâncio Moura (DC).
O DC integrará a coligação de Paes e, segundo Garotinho, “se vendeu” ao ex-prefeito.
“Infelizmente, o partido dele se vendeu ao Eduardo Paes. O Eduardo Paes vendeu para todo mundo no Rio que eu não seria candidato, que não conseguiria o registro”, afirmou.
A Folha também procurou a campanha de Paes sobre o tema, além do diretório estadual do DC, e aguarda resposta.
Garotinho disse que terá dois vices paralelamente, um informal, e outro formal.
“Eu vou ficar com o vice que eu escolhi”, disse, “mas legalmente, perante a Justiça Eleitoral, eu tenho que ter alguém registrado. Então eu escolhi a major Elaine, fundadora do movimento Heróis do Rio, um movimento que cuida das famílias vítimas dos policiais.”
Acusações
Preso quatro vezes desde 2016, Garotinho teve processos anulados e disse que as acusações “transformaram denunciantes em denunciados”.
“Ladrão nesse estado tem nome, é Sérgio Cabral. Ladrão é [Luiz Fernando] Pezão. Ladrão é [Jorge] Picciani que eu botei na cadeia. Ladrão é Bacellar que eu botei na cadeia”, afirmou.
“Fiquei 29 dias preso, somando as quatro vezes. Não provaram nada contra mim. Aquilo era retaliação porque queriam calar a minha voz em relação aos poderosos que eu estava denunciando.”
Segurança
Garotinho defendeu intervenção em delegacias e cercos táticos em comunidades. Disse que receptadores de carga financiam campanhas e há conluio entre policiais, seguradoras e suspeitos de roubo de veículos.
“Todo mundo no Rio sabe quem são os compradores de carga roubada. Por que não se toma providência? Porque, infelizmente, falta coragem à polícia do Rio de Janeiro”, disse Garotinho.
Noite das astronautas
Durante o período de pré-candidatura, Garotinho afirmou ter tido acesso ao vídeo chamado de “noite das astronautas”, em que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, teria convidado prostitutas e políticos brasileiros.
O caso chegou a ser vinculado ao senador Flávio Bolsonaro. Nesta quinta, Garotinho voltou a negar ter visto imagem do senador na festa.
“Se o ministro André Mendonça suspender o sigilo, eu publico. Eu tenho tanta responsabilidade por esse assunto que eu ando com isso aqui [pen drive] guardado no meu bolso. Eu durmo com isso. Eu tenho a festa, não tem imagem de Flávio Bolsonaro. Tem imagem de outras autoridades. Não estou dizendo que ele não estava na festa, estou dizendo que não tem imagem dele”, afirmou
Pesquisa Quaest divulgada no último dia 27 aponta que Eduardo Paes (PSD) está na frente na corrida eleitoral, com 38% das intenções de voto. Garotinho e Douglas Ruas (PL) aparecem empatados com 10% cada. Segundo a pesquisa, Garotinho obtém 12% entre os eleitores considerados lulistas e 13% entre os bolsonaristas.
O ciclo de sabatinas Folha/UOL continua nesta sexta (7) com Sergio Moro, candidato ao Governo do Paraná pelo PL.
Folha de São Paulo


