Política

Liderança feminina do Xingu acompanha política por redes sociais e vota em Lula

Usuária assídua das redes sociais, Watatakalu Mehinako Yawalapiti, do Território do Xingu, tem se tornado uma das principais lideranças femininas do movimento indígena brasileiro. Aos 46 anos, está à frente da Anmiga, articulação nacional das mulheres indígenas.

“Não preciso morar em Brasília para ser uma das coordenadoras da Anmiga por causa da internet”, diz ela, que aponta fragilidades da liderança masculina. “No ano passado, a gente teve uma reunião de mulheres sobre madeira, pesca esportiva, arrendamento de terra e agrotóxico. Os homens não contam que o madeireiro aparece com uma maleta cheia de dinheiro, com uma arma na cintura.”

Localizada no Mato Grosso, a área indígena do Xingu completa 65 anos desde o decreto do presidente Jânio Quadros, em 1961. Atualmente, a governança do território é feita em uma espécie de condomínio das 16 etnias que compõem sua população, reunidas na Associação Terra Indígena do Xingu (Atix), na qual Watatakalu é parte da Atix-Mulher.

Segundo ela, os principais desafios hoje são a pressão do agronegócio, com fazendas chegando ao limite das florestas, provocando ressecamento do ambiente e contaminação por agrotóxicos; as invasões ilegais de madeireiros, depois que a região em volta foi toda desmatada; e exploradores do turismo ilegal.

As etnias do Alto Xingu têm sua dieta alimentar exclusivamente baseada em peixes e mandioca. A pesca ilegal reduz os cardumes e ataca os grandes peixes considerados sagrados por serem “os donos do rio”.

Segundo ela, a ameaça não vem só de fora: “A gente vê indígenas querendo imitar o mundo dos caraíbas [não indígenas]. Muitos parentes querem, por exemplo, estar nesse mundo de sojeiros”.

Watatakalu associa a origem das invasões ao governo de Jair Bolsonaro (PL): os madeireiros e os projetos de “pesca esportiva” chegaram logo após a posse do ex-presidente, em 2019, e as ações do novo governo não conseguiram eliminá-los.

Quando questionada sobre as eleições, sua primeira resposta é por contraste: “O atual governo veio reconstruir uma situação que foi toda estragada pelo governo Bolsonaro. O fortalecimento das invasões de madeireiros no nosso território vem do governo passado. A autorização ao turismo de pesca também”.

Por isso, não hesita em declarar o voto: “Vou votar no Lula, logicamente. Não tem outro”.

Watatakalu é parte da segunda geração de um povo que renasceu. Os Yawalapiti estavam praticamente extintos até a criação do Xingu. Sua população chegou a cerca de dez indivíduos, depois de massacres e epidemias.

O principal responsável pela campanha de criação da primeira reserva indígena brasileira e por sua implantação, o indigenista Orlando Villas Boas, decidiu juntar as lideranças das outras comunidades e combinar um esforço para aumentar a população Yawalapiti, promovendo casamentos com pessoas de outras etnias.

Ficou combinado que os novos casais sempre iriam morar na aldeia Yawalapiti, fazendo com que a população desse grupo tivesse mais braços para o trabalho e crescesse mais rapidamente.

Em 1978, quando a extinta TV Tupi produziu a novela “Aritana” (com Bruna Lombardi e Carlos Alberto Ricelli no papel-título), vagamente baseada na história do grupo e de seu jovem líder da época, os Yawalapiti já tinham uma população maior.

Hoje são cerca de 400 pessoas. Aritana morreu em 2020, vítima da epidemia de Covid-19, aos 75 anos. Watatakalu é filha de um irmão de Aritana, o cacique Pirakumã (1955-2015).

A aldeia original do grupo à beira do rio Tuatuari se dividiu em duas: a nova, liderada por Tapi, filho mais velho de Aritana; e a velha, sob o comando de Ana Terra, irmã de Watatakalu.

As redes sociais não são a única marca da abertura dela para a cultura não indígena. Quando adolescente, Watatakalu estudou em uma escola em Canarana (MT), polo regional do agronegócio, onde se tornou fluente em português. Mas após a primeira menstruação, como manda a tradição, passou dois anos em “resguardo”, em um quarto escuro da casa, em contato apenas com a mãe.

Watatakalu lida com a tecnologia com certa prudência: no dia a dia, recorre muito a informações vindas das redes sociais, onde acompanha a vida nas comunidades indígenas do Xingu e também das jovens mulheres de todo o país que ela lidera na Anmiga. Fica a par de muitos fatos políticos filtrados por essa rede de contatos.

No entanto, confronta essas informações com outros dados em sites de empresas jornalísticas tradicionais: “A gente assiste à CNN e vê jornais”.

Seus três filhos têm limites: celular só depois dos 14 anos e “não adianta reclamar”. Antes disso, a diversão tem que vir de brinquedos tradicionais, a formação cultural vem das “histórias dos mais velhos ao pé do fogo”.

“Meu filho de dez anos não tem celular porque eu não concordo. Criança indígena tem que viver, com celular a gente não vive. Existem os rios para conhecer, as florestas em volta da aldeia para explorar.”

Folha de São Paulo

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