IA amplia escala das campanhas, mas não é atalho para vencer eleição, diz cientista

A menos de dois meses do primeiro turno das eleições de 2026, as campanhas eleitorais contam com uma nova ferramenta que pode reescrever as regras da disputa política: a inteligência artificial.
A tecnologia generativa de IA oferece aos partidos a oportunidade de reduzir drasticamente o custo das campanhas digitais e produzir conteúdo segmentado para diferentes parcelas do eleitorado. Mas o aumento no volume de publicações, por si só, não será suficiente para garantir a vitória dos candidatos.
Para o cientista político Renato Dolci, a inteligência artificial permitirá que as siglas produzam variações de uma mesma campanha e ampliem o espaço para a experimentação criativa na transmissão de suas mensagens. A distribuição nas redes sociais, porém, continuará sendo um fator decisivo para determinar quais mensagens efetivamente chegarão ao eleitorado.

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“A novidade da IA está em reduzir drasticamente o custo de produzir variações da mesma mensagem, mas o protagonismo continua com as redes sociais, porque são elas que organizam a distribuição e determinam o que chega ao eleitor. Na prática, a IA amplia a oferta, mas as plataformas continuam administrando a atenção”, afirma Dolci.
O pesquisador reforça que, até o momento, o aumento na produção de conteúdo não tem sido proporcional ao crescimento do engajamento. Em um levantamento próprio, Dolci identificou 6.022 vídeos rotulados como produzidos por IA nas duas últimas semanas de julho, contra aproximadamente 600 nas duas semanas anteriores.
Embora o volume represente um crescimento de dez vezes no mesmo período, o engajamento analisado apresentou comportamento oposto. “Quando retiramos os dez vídeos de grandes candidatos, os outros 6.012 conteúdos somaram apenas 117 interações”, explica.
O levantamento de Dolci reforça o baixo interesse do eleitorado por conteúdos produzidos com inteligência artificial, observado na última pesquisa Quaest.
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Segundo o levantamento, 73% dos brasileiros reprovam o uso de IA em campanhas feitas por candidatos. A rejeição foi predominante também nos diferentes recortes etários: 68% dos jovens de até 34 anos rejeitam a ideia de utilizar ferramentas generativas, percentual que sobe para 76% entre eleitores acima de 60 anos.
IA e o TSE
O uso da inteligência artificial pelas campanhas ganhou a atenção do público e da Justiça Eleitoral após o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) utilizar um vídeo com a imagem de seu pai, Jair Bolsonaro, durante a convenção nacional do Partido Liberal que referendou seu nome para a disputa.
No vídeo, Bolsonaro, impedido judicialmente de conceder declarações públicas ou se ausentar da prisão domiciliar, aparece em um breve comunicado endossando a candidatura e afirmando que Flávio dará continuidade ao seu projeto político. Na voz do ex-presidente, a peça deixa claro que todo o conteúdo foi gerado por inteligência artificial para atender às medidas restritivas impostas pelo Supremo Tribunal Federal.
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O vídeo foi alvo de denúncias de diversos partidos, principalmente aliados do governo federal e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que questionaram a legalidade do conteúdo e se a representação artificial de Jair Bolsonaro viola os termos da prisão domiciliar.
O Tribunal Superior Eleitoral se reuniu, a portas fechadas, na terça-feira (18), para discutir o uso de inteligência artificial pelas candidaturas. Nos bastidores, integrantes da Corte afirmam que a reunião teve “clima tranquilo”, com a apresentação prévia de argumentos dos ministros sobre o tema. O presidente do TSE, porém, ainda não agendou uma data para o julgamento.
Para Dolci, o TSE deve concentrar a regulamentação da IA na produção de conteúdo fraudulento, como deepfakes e materiais que busquem manipular a percepção do eleitorado sobre determinado tema ou candidato.
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“A regulamentação deve se concentrar na intenção de enganar, na relevância política da manipulação, no alcance e na possibilidade de o eleitor identificar a alteração. A rotulagem é importante, mas não pode servir como salvo-conduto para uma falsificação capaz de produzir dano antes que o público consiga compreendê-la. O desafio é proteger o eleitor sem transformar toda linguagem política em infração e sem confundir criatividade com fraude”, diz.
O analista também salienta que as medidas impostas pela Corte até o momento são necessárias, mas ainda insuficientes. Dolci destaca que o Tribunal avançou ao exigir que o responsável pela propaganda informe explicitamente quando um texto, áudio, vídeo ou imagem tiver sido criado ou alterado por IA. Para ele, porém, as medidas adotadas até agora olham para a peça produzida, enquanto a distribuição também deveria ser levada em consideração.
“A pergunta não é apenas quem fabricou o conteúdo, mas quem o impulsionou, para quais públicos, com que frequência e por meio de quais sistemas de recomendação”, afirma.
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Apesar da crítica, Dolci destaca que a Justiça Eleitoral deve estabelecer um piso de proteção, mas não tentar controlar toda forma de uso da tecnologia. Para o especialista, a linha deve ser estabelecida quando a representação política deixa de ser uma escolha estética e passa a criar uma impressão materialmente enganosa sobre os fatos ou as capacidades do candidato.
“O desafio é proteger o eleitor sem transformar toda linguagem política em infração e sem confundir criatividade com fraude”, diz.
Dolci afirma que a inteligência artificial não possui um “lado político” e que a infraestrutura será melhor utilizada por quem tiver os melhores dados para alimentá-la e a maior capacidade de distribuição. Na avaliação dele, portanto, não haverá uma “vantagem ideológica” inerente à tecnologia na disputa.
“O ponto central não é saber qual lado ‘ganhou’ a IA, mas quem consegue convertê-la em distribuição, confiança e mobilização sem produzir um eleitor tão saturado que deixe de acreditar que ainda vale a pena procurar a verdade. Os algoritmos, em si, não são ideológicos, mas, sim, mercadológicos”, diz.
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