Política

Professor no Ceará vota em Renan e vê no catolicismo o futuro da direita

A Catedral Nossa Senhora da Penha estava quase vazia nas primeiras horas da manhã da última quarta-feira de julho. Um jovem vestindo calça jeans e camiseta atravessa os portões de madeira, ajoelha-se e faz o sinal da cruz.

A igreja inaugurada em 1745 fica no centro do Crato. O município tem a maior proporção de católicos dentre aqueles com mais de 100 mil habitantes no Brasil. Ao todo, 81% da população da cidade se declara adepta da religião, frente a uma média nacional de 56,7% segundo o último Censo.

O templo é como um refúgio para Lucca Nobre, 25, professor em um colégio de Barbalha, cidade vizinha na região do Cariri, sul do Ceará.

Em sala de aula, ele fala de literatura, de filosofia e de história na disciplina leitura clássica. Quando os alunos perguntam em quem pretende votar nas eleições presidenciais deste ano, costuma desconversar: “O voto é secreto”, diz em resposta padrão.

Sua posição política, porém, é mais difícil de esconder: Lucca é de direita. Católico praticante, filho de pais conservadores, recorre aos versos do também cearense Belchior para se definir como “um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes”.

Formado em direito pela Universidade Regional do Cariri, pretende atuar na advocacia, mas nos últimos anos vem se dedicando a ensinar adolescentes a ler autores clássicos. Mora sozinho, dá aulas três vezes por semana e costuma dedicar o tempo livre a filmes, documentários e leituras.

O interesse pela política começou ainda na escola. Por um breve período, chegou a se considerar socialista, mas a fase durou pouco. Com a internet, descobriu autores conservadores, incluindo o escritor Olavo de Carvalho (1947-2022), que teve papel importante em sua formação.

Na adolescência, aproximou-se do MBL (Movimento Brasil Livre), embrião do partido Missão, mas afastou-se do grupo. “Foi uma experiência muito boa, mas um pouco frustrante. Percebi que muita gente ali não era tão idealista quanto eu.”

Lucca conta que votou em Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2018 e 2022, mas hoje rejeita o bolsonarismo. Diz que o ex-presidente foi importante ao aglutinar a direita, mas sua permanência como principal referência do campo impediu o surgimento de novas lideranças.

Em outubro, deve votar em Renan Santos (Missão) por ver nele a candidatura mais disruptiva entre os nomes da direita: “Tem aí um corte geracional. A forma como o Renan Santos fala, a identidade, a estética, dialoga muito comigo”.

No segundo turno, deve apoiar Flávio Bolsonaro (PL) contra o presidente Lula (PT). Para o governo do Ceará, vota em Ciro Gomes (PSDB) movido pelos desafios na segurança pública do estado.

Lucca diz que o domínio territorial das facções se tornou uma realidade no Ceará e conta o caso de uma família em Barbalha que precisou deixar a própria casa após ser ameaçada por integrantes de uma facção.

O caso mudou sua percepção sobre o problema e o fez ver o ex-governador tucano como alguém capaz de enfrentá-lo. Ciro foi aliado histórico do PT no Ceará. “Ciro é a direita da esquerda”, define.

No campo da direita, critica a aproximação de setores conservadores do que chama de grupos evangélicos radicais. Diz ter severas restrições a esse segmento. Sua rejeição é tamanha que, em uma hipotética disputa entre Lula e Michelle Bolsonaro (PL), afirma que votaria no petista.

“Minha crítica não é à presença de cristãos na política, muito pelo contrário. É a instrumentalização da política por uma fé capturada e corrosiva. Considero particularmente preocupante quando essa instrumentalização passa a ser confundida com o próprio cristianismo”, afirma.

Ele também se diz preocupado com a radicalização política entre os jovens, influenciados por conteúdos das redes sociais: “É um fenômeno cognitivo. Por que estão se radicalizando na internet? Porque a internet é viciante. Eu tenho celular, eu sei, é viciante.”

Lucca diz ver espaço para o crescimento no Brasil de uma direita ligada à doutrina católica, ancorada na ideia de que, antes de transformar a sociedade, é preciso mudar as pessoas, inclusive a si mesmo.

“O catolicismo político, pode apostar, vai se tornar uma força nacional em breve, com representações e lideranças pelo país. Não sei ainda qual vai ser o lugar partidário desses católicos, mas vai haver uma nova ruptura na direita brasileira”, diz.

Folha de São Paulo

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