Política

Quem protege os brasileiros dos protetores da democracia?

Afinal, quem guarda os guardiões? Esta pergunta retórica filosófica com 2000 anos ganha atualidade no Brasil de hoje, perante umas eleições renhidas e uma crise institucional nunca vista na Justiça.

Se estas eleições brasileiras fossem um filme, seriam uma ação eletrizante.

Estão reunidos todos os ingredientes para um enredo tenso: uma corrida praticamente empatada e com elevadas taxas de indecisos e de rejeição; um candidato sob investigação por suspeitas de crimes graves; o anúncio de medidas escandalosamente eleitoreiras em cima do pleito; a ameaça latente de uma interferência externa; e a somar a tudo isto, uma gravíssima crise institucional que abala a Justiça, garante do Estado de Direito. Era difícil ficar mais alucinante.

Esta grande confusão leva-nos à famosa pergunta de Juvenal, um pensador satírico da Roma antiga. Quem vigia os vigilantes que é suposto garantirem a lei e a ordem num regime democrático? Quem nos protege dos supostos protetores?

O Supremo barraco que está montado no Supremo Tribunal Federal faz tremer a imagem de independência destes guardiões da justiça, que são essenciais na arquitetura de qualquer democracia.

E o que é mais impressionante no Brasil é que, comparado com outros tribunais superiores noutros países, o STF é especialmente poderoso. Porque concentra nele funções que, noutras jurisdições, estão muitas vezes separadas por três instâncias diferentes: fiscalizador das questões de constitucionalidade, entidade de recurso superior e tribunal penal para pessoas com foro privilegiado, nomeadamente políticos. Tal como acontece nos EUA, o tribunal supremo brasileiro é uma instituição muito personalizada, politizada e mediática.

Basta dizer que, em Portugal e na maioria dos países europeus, poucos conhecem de cor os nomes dos juízes dos supremos, enquanto no Brasil são verdadeiras estrelas —amados por uns, odiados por outros.

Os mandatos vitalícios, a escolha politizada por indicação do Presidente, a transmissão dos julgamentos pela TV e a ausência de um código de ética vinculativo… tudo isto fez de alguns destes ministros do STF entidades superpoderosas, quase justiceiras, protagonistas agitadores na vida política.

É evidente que este desenho institucional se transformou num problema que precisa de ser repensado. É que uma democracia sem uma justiça credível e independente pode até ter eleições, mas dificilmente terá verdadeira liberdade.


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Folha de São Paulo

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