Lula prova do próprio veneno no incentivo ao antagonismo político

Ganhar a eleição já no primeiro turno é a meta de todos os candidatos. Sonho quase impossível, considerando que, das últimas nove disputas presidenciais, só duas foram decididas na etapa inicial.
E isso porque, em 1994 e 1998, as vitórias de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foram pautadas pelo ocasional fator da unidade nacional em torno do combate à inflação e da estabilidade econômica.
A eleição de Luiz Inácio da Silva (PT), em 2002, introduziu na cena o antagonismo materializado no conceito do “nós contra eles”, cuja continuidade se traduziu na reação do “eles contra nós” e tornou o debate político refém de duas forças políticas conduzidas pela afeição ou rejeição da maioria dos brasileiros.
Essa dinâmica reduziu a possibilidade de construção de consensos mínimos e minou a probabilidade de as eleições presidenciais serem resolvidas na primeira etapa.
Lula não conseguiu liquidar logo a fatura, mesmo quando estava nos píncaros da popularidade. É de se imaginar que tenha sido vítima do próprio veneno ao jogar na divisão, apostando na hipótese de a maioria se perfilar ao lado dele.
Os índices de mais de 80% de aprovação ao fim do segundo mandato não se traduziram em apoio suficiente para repetir o feito de FHC, que apostou num projeto coletivo de economia estável enquanto Lula se apoiou no culto à própria personalidade.
Insistiu nessa toada no terceiro mandato, a despeito das evidências de fadiga dessa matéria-prima, subestimou a oposição aos seus planos de continuidade eterna, dentro e fora do universo político. Agora, apresenta-se ao presidente um dilema.
Ele que se vê como grande líder não lidera uma saída para a crise institucional, arrisca-se a encerrar a carreira com uma derrota vexaminosa para o herdeiro do golpista condenado. E, se ganhar, não está apto a oferecer ao Brasil nada além da promessa de “fazer mais” do mesmo.
Em qualquer dos cenários, o que se vê adiante é estrada escura e um caminho deserto.
Folha de São Paulo



