Com Zucco e Tarcísio, país terá pela primeira vez na democracia 2 governadores oriundos do Exército

Oito anos depois da onda de militarização da política a reboque do bolsonarismo, dois oficiais da reserva do Exército foram eleitos governadores. Além do novo mandato conquistado em São Paulo pelo capitão Tarcísio de Freitas (Republicanos), a novidade é a vitória do tenente-coronel Luciano Zucco (PL), eleito governador do Rio Grande do Sul.
Desde o retorno da democracia, nunca dois políticos oriundos das Forças Armadas ocuparam ao mesmo tempo a chefia do Executivo de dois estados importantes. A coincidência ocorre na primeira eleição após a condenação e prisão de militares de altas patentes das Forças Armadas por tentativa de golpe em 2022.
Tarcísio, 51, e Zucco, 52, guardam entre si outra particularidade: são da mesma turma da Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), principal escola de formação de oficiais do Exército. Concluíram o curso, tornando-se aspirantes a oficiais, em 1996.
Zucco é da arma de Cavalaria, e Tarcísio, da engenharia. Integraram a mesma turma Wagner Rosário, conselheiro do TCE-SP (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo), ex-ministro da CGU (Controladoria-Geral da União) nos governos Temer e Bolsonaro, e Arthur Lima, secretário de Justiça do governo de SP.
Tarcísio e Zucco ingressaram na política na onda bolsonarista que varreu o país em 2018, mas naquela época já guardavam entre si uma diferença significativa. O primeiro, ao ser nomeado ministro da Infraestrutura por Jair Bolsonaro, tinha largado a farda para entrar no serviço público dez anos antes, em 2008. Já Zucco pulou dos quartéis direto para a política.
Além da bênção do candidato a presidente, Zucco teve como principal padrinho em 2018 o general Hamilton Mourão (vice de Bolsonaro e hoje senador pelo Republicanos-RS), que antes mesmo de passar à reserva gravou um vídeo de apoio ao tenente-coronel, ambos fardados, contrariando as regras militares. O vídeo foi removido das redes sociais de Zucco.
Outra diferença é que, nas duas primeiras eleições que disputou, Zucco lançou mão de sua patente, se apresentando nas urnas como “Tenente-coronel Zucco”, mais uma vez contrariando as leis que regem os militares. Em 2018, foi o deputado estadual mais votado do RS, pelo PSL –e passou automaticamente à reserva, como determina a legislação. Em 2022, pelo Republicanos, foi o deputado federal mais votado do estado. Agora, ao concorrer ao governo pelo PL, abandonou a patente, algo que Tarcísio já fizera desde a sua primeira disputa, em 2022.
“O Zucco se preparou muito bem para essa eleição. Juntou apoio de diversos partidos. Rodou o estado todo e manteve um discurso coerente e focado. Soube explorar a polarização nacional a seu favor, bem como a alma patriótica do gaúcho. O resultado está aí”, disse Mourão à Folha.
Indagado sobre ter tido papel fundamental para alçar Zucco à política, o general revelou modéstia. “Fui um humilde indutor do crescimento dele.”
Antes de se lançar à política, Zucco atuou no GSI (Gabinete de Segurança Institucional) de 2010 a 2016 na equipe responsável pela segurança presidencial durante o governo de Dilma Rousseff.
Na Câmara dos Deputados, Zucco foi líder da oposição ao governo Lula em 2025. Durante o mandato parlamentar, ganhou projeção nacional ao presidir a CPI do MST, quando lideranças de esquerda o acusaram de tentar criminalizar o movimento.
Apesar do alinhamento com o bolsonarismo, Zucco evitou nacionalizar a disputa ao governo no primeiro turno, com poucas menções a Flávio Bolsonaro e foco em pautas estaduais nas propagandas de televisão.
Zucco também criticou a gestão de Eduardo Leite durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024. Na ocasião, afirmou que o governador não havia dado a devida importância aos alertas sobre a tragédia e defendeu maior investimento em prevenção.
Filho de um capitão do Exército, o governador eleito do RS é irmão do general de divisão Marcelo Lorenzini Zucco, comandante da 2ª Divisão do Exército, com sede em São Paulo e subordinada ao Comando Militar do Sudeste.
Ao TSE, nem Tarcísio nem Zucco declararam ser militares ao informarem suas ocupações –o primeiro disse ser governador e o segundo, deputado. São exceções. Grande parte dos candidatos oriundos das Forças Armadas e das forças de segurança usam as patentes como apelo nas urnas.
Na primeira eleição depois da condenação de integrantes das Forças Armadas e de forças de segurança por tentativa de golpe, o número de candidatos que declararam à Justiça Eleitoral serem oriundos dessas corporações diminuiu 36,4% em relação à disputa de 2022.
Segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), pelo menos 1.224 candidatos integram ou já integraram as Forças Armadas ou forças de segurança, como as polícias militar e civil, ou optaram por usar na urna alguma patente ou referência a essas instituições. Isso representa 5,9% do total de candidatos.
Em 2022, esse número foi de 1.924, ou 6,6% do total de candidatos. A campanha de quatro anos atrás foi o ápice de uma enxurrada de candidaturas de militares e policiais, tendência iniciada em 2018, com a vitória do capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro e a consolidação do bolsonarismo no país.
O PL de Zucco, em primeiro, e o Republicanos de Tarcísio, em segundo, foram os dois partidos que mais lançaram candidatos militares e policiais nesta eleição.
Dos 29 condenados pelo STF no processo principal da trama golpista, 21 são militares das Forças Armadas (dois deles tiveram as penas substituídas por multas), e a maioria dos restantes era oriunda das polícias Federal, Civil e Rodoviária Federal –isso sem contar os cinco coronéis da cúpula da PM-DF (Polícia Militar do Distrito Federal) condenados e presos por omissão nos ataques de 8 de Janeiro.
Folha de São Paulo



