Exercício: células guardam memória do treino após pausa – 08/10/2026 – Equilíbrio

Você já passou meses sem treinar —talvez devido a uma lesão, à chegada de um bebê ou a prazos de trabalho sufocantes— e, ao voltar, teve a certeza de que estava recomeçando do zero?
Uma pesquisa da nossa equipe traz boas notícias: no nível celular, provavelmente não estava.
Descobrimos que as células musculares e hepáticas armazenam lembranças de cada sessão de treino de maneiras que podem ajudar a melhorar a resistência, controlar os níveis de açúcar no sangue e até desacelerar a recuperação do peso após um período de inatividade.
Usar ou perder? Talvez não
Durante a maior parte do século passado, muito antes de dietas da moda e tendências sofisticadas de exercícios ganharem popularidade, a atividade física era considerada uma das mudanças de estilo de vida mais eficazes para reduzir o risco de doenças cardíacas, diabetes tipo 2, diversos tipos de câncer e morte prematura em pessoas de todas as idades. No entanto, as pessoas normalmente entendiam o exercício como algo cujos efeitos benéficos desaparecem com o tempo: se não usar, perde.
Quando você para de treinar, seu consumo máximo de oxigênio, seus ganhos musculares e sua sensibilidade à insulina voltam aos níveis iniciais, muitas vezes em questão de semanas. As diretrizes de atividade física se baseiam nesse fato, razão pela qual enfatizam a consistência acima de tudo.
A consistência, porém, é um luxo do qual cerca de 3 em cada 4 adultos americanos não conseguem desfrutar. As pessoas podem sofrer lesões, adoecer, engravidar ou ter empregos que limitem o tempo ou a capacidade de se exercitar. Se a adaptação realmente voltasse ao ponto inicial, toda vez que você entrasse na academia seria como se nunca tivesse estado lá. Mas esse cenário não corresponde ao que treinadores e atletas que retomam as atividades costumam relatar: na prática, quem já treinou consegue recuperar a forma física mais rapidamente do que quem não passou por um treinamento semelhante.
Nos últimos anos, porém, cientistas começaram a questionar o conceito de “usar ou perder”. Novas pesquisas indicam que suas células podem manter um registro do seu histórico de treinamento, de modo que nem todos os seus ganhos sejam completamente perdidos.
Mais do que músculos
Somos fisiologistas do exercício e estudamos como as células se lembram da atividade física. Nosso laboratório e outros já demonstraram que o corpo é capaz de armazenar uma forma de memória do exercício em diferentes órgãos.
Para estudar como essa memória funciona, nossa equipe de pesquisadores usa em camundongos um protocolo de treinamento LIGA-DESLIGA-LIGA, que envolve um período inicial de quatro a oito semanas de treinamento, seguido de destreinamento —um período sem exercício— e de uma segunda etapa de treinamento. Esse método nos permite analisar como as células formam uma memória do exercício, mantêm um registro durante o destreinamento e recuperam lembranças do treinamento anterior quando são novamente expostas à atividade física.
Usando essa estratégia, nossa equipe descobriu que a memória do músculo esquelético acelera o crescimento muscular. Em comparação com camundongos sem histórico de treinamento, os que voltaram a treinar desenvolveram músculos maiores, e as fibras musculares individuais dentro desses músculos também cresceram. Fibras musculares maiores significavam que as próprias células em atividade estavam aumentando de tamanho, e não o tecido ao redor.
Ao observarmos mais de perto essas células musculares, constatamos que músculos treinados novamente são mais eficientes em ajustar a produção de energia à demanda — ou seja, conseguem recorrer melhor às reservas de energia quando elas são mais necessárias — e que essa capacidade persiste mesmo sem a continuidade dos exercícios. Essa memória permaneceu até quando os camundongos consumiram uma dieta rica em gordura, o que sugere que o treinamento anterior ainda pode trazer benefícios mesmo quando a alimentação atua contra esses ganhos.
Os músculos não são a única parte do corpo que aprende com o exercício. Músculos em atividade precisam de combustível, e o fígado o fornece durante e depois das sessões de treinamento.
Meus colegas e eu descobrimos que as células hepáticas também armazenam a memória do exercício e a utilizam para abastecer os músculos com mais eficiência. Tanto em camundongos quanto em pessoas que treinaram, pararam e depois voltaram a treinar, o fígado liberou níveis mais elevados de uma família de enzimas chamadas carboxilesterases. Essas enzimas decompõem os lipídios que circulam no sangue, fornecendo gordura em uma forma que os músculos conseguem absorver e queimar à medida que crescem.
Um registro que sobrevive a você
As memórias celulares registradas do exercício podem até ser transmitidas às gerações futuras.
Em camundongos, descobrimos que três a quatro semanas de exercícios de resistência praticados pela mãe e pelo pai podem ter um efeito duradouro sobre seus descendentes. Em comparação com filhotes de pais sedentários, os filhotes de pais que praticaram exercícios tiveram proteção contra níveis inadequados de açúcar no sangue e ganho excessivo de peso durante todo o primeiro ano de vida.
Pesquisadores levantaram diversas hipóteses sobre como o exercício pré-natal pode afetar os descendentes. Por exemplo, a atividade física materna pode permitir que os filhotes passem mais tempo se desenvolvendo no útero ou levar os pais a produzir leite de melhor qualidade.
Ainda há, porém, muito a descobrir sobre como os pais influenciam a saúde dos filhos e se seu estilo de vida pode proporcionar uma vantagem física ao longo das gerações.
Todas as células se lembram
Tradicionalmente, a biologia atribuía a memória a um grupo restrito de células. Os neurônios armazenam memórias nas conexões entre si. As células do sistema imunológico armazenam memória para poderem reconhecer agentes patogênicos de maneira mais rápida e intensa na próxima vez que os encontrarem.
Antes, os pesquisadores consideravam que as demais células não tinham memória: uma célula responde a um sinal e depois retorna ao estado inicial sem manter um registro dessa interação. Mas essa ideia agora está sendo desmontada.
As células-tronco da pele conseguem manter um registro da inflamação, o que lhes permite cicatrizar uma nova ferida mais rapidamente meses depois. As células de gordura humanas mantêm um registro da obesidade que persiste mesmo após uma perda de peso significativa, o que pode explicar por que você engorda mais depressa ao voltar a uma dieta rica em calorias —o chamado efeito sanfona.
Propomos que todas as células do corpo se lembrem do exercício, independentemente de quanto uma pessoa treine. A questão é por quanto tempo esses registros são armazenados e se os pesquisadores poderiam prolongar ou ampliar a capacidade de armazenamento de cada célula. Uma compreensão melhor de como as células aprendem e se lembram do exercício, onde armazenam essas memórias e como elas são preservadas, pode ajudar a aperfeiçoar as diretrizes de atividade física para quem não consegue se exercitar por períodos prolongados ou de forma consistente.
Para deixar claro, nenhuma dessas descobertas é uma justificativa para deixar de ir à academia; nada em nossos dados sugere que os efeitos de treinamentos anteriores possam substituir o treinamento atual. Mas há esperança de que o esforço que você fez para entrar em forma não se perca completamente com o tempo.
Em algum lugar, nas profundezas de suas células, existe um registro à espera de ser reativado na próxima vez que você amarrar os tênis de corrida, pegar um par de halteres ou quiser cumprir uma promessa de Ano-Novo.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.
Informação
Folha de São Paulo



