Para duas irmãs, um teste de idade biológica se tornou um registro do passado

A notificação iluminou o celular de Michelle às 5h25 na Costa Oeste dos Estados Unidos: era uma mensagem de texto de sua irmã mais velha, Deb, que tinha uma ideia.
Deb tinha ouvido falar, em um podcast sobre longevidade, de uma nova tecnologia que afirmava medir a velocidade com que uma pessoa estava envelhecendo.
Por US$ 399 (cerca de R$ 2.030), cada irmã poderia enviar uma amostra de sangue e descobrir como seus hábitos e suas experiências haviam afetado a maneira como seus genes se comportavam. O teste, chamado TruAge, supostamente informaria a idade funcional do cérebro, do coração, dos pulmões e do corpo como um todo.
“Acho que seria muito interessante comparar os resultados do teste entre irmãos”, escreveu Deb, 56. “Você topa?” “Sim, adoraria”, respondeu Michelle, 54. “Mas tenho medo dos resultados.”
No que dizia respeito à genética, as irmãs pareciam notavelmente semelhantes. Tinham os mesmos olhos azul-gelo, fundos; as mesmas maçãs do rosto proeminentes; o mesmo cabelo loiro, que formava um redemoinho por causa de um topete no lado direito da parte de trás da cabeça.
Ambas tinham astigmatismo e cegueira noturna; nenhuma das duas conseguia enrolar a língua nem cantar afinado. E possuíam a mesma variante incomum de um gene chamado ABCC11, o que significava que o suor de suas axilas nunca tinha odor.
Criadas juntas em Detroit, Deb e Michelle sabiam que compartilhavam cerca de metade do DNA, mas às vezes tinham dificuldade para acreditar nisso.
Deb, que agora morava no estado da Virgínia, sempre fora extremamente disciplinada, pragmática e extrovertida. Ex-enfermeira da Força Aérea, havia viajado pelo mundo, criado três filhos e parecia se exercitar sem parar.
Michelle era sensível e intelectualizada —tão introvertida que nem sequer tinha uma agenda. Depois do ensino médio, fixou-se no Vale Central da Califórnia e nunca se casou. Levava uma vida tranquila e satisfeita com um único companheiro: Merlin, seu cão mestiço de pastor com pitbull.
Havia outra diferença fundamental: Deb sempre fora saudável, exceto por uma leve dor nas articulações e pelo colesterol alto, mantido sob controle com medicamentos.
Michelle, porém, havia sido obesa na adolescência e na faixa dos 20 anos e, mais tarde, enfrentara problemas autoimunes que nenhum médico conseguira explicar por completo. Cada dia trazia alguma combinação de fadiga extrema, dor nos nervos e taquicardia decorrente da pressão baixa.
Quando a mensagem de Deb chegou, Michelle estava com os gânglios linfáticos inchados, protuberâncias por toda a extensão das mãos e uma erupção cutânea que avançava pelos canais auditivos e pelas narinas.
Deb disse à irmã que talvez o teste pudesse ajudá-la a compreender melhor as causas e os efeitos de seus problemas de saúde. Depois de anos sentindo que os médicos não lhe davam ouvidos, talvez Michelle se sentisse respaldada caso sua idade biológica refletisse seu sofrimento.
No fundo, Michelle tinha a impressão de que a irmã só queria se sair melhor do que ela. Ainda assim, Michelle não perderia a primeira oportunidade em anos de fazer alguma coisa com a irmã. Na vida adulta, as duas haviam se afastado e, depois de uma briga, deixado de se falar totalmente por quase duas décadas. Só haviam retomado o contato poucos anos antes e, mesmo agora, apenas por mensagens de texto.
Os materiais de divulgação do teste prometem “o retrato mais completo de como seu corpo está envelhecendo”. Ele analisa quase 1 milhão de marcadores químicos no DNA que compõem a epigenética de uma pessoa, a camada de instruções biológicas que controla como os genes de alguém se expressam.
Comparando o padrão singular de uma pessoa com grandes bancos de dados de resultados e desfechos de saúde de outras pessoas, seus modelos tentam atribuir uma “idade” que reflita o nível de saúde previsto para aquele indivíduo.
As duas irmãs embalaram suas amostras de sangue e as entregaram nas respectivas agências dos correios, em envelopes endereçados ao mesmo laboratório no Kentucky.
Anos antes, para se manter saudável, Deb começara a caminhar 15 mil passos por dia, fazer musculação na academia e manter uma dieta sem açúcar.
À medida em que se interessava mais por longevidade, foi acrescentando novos hábitos, até passar a usar diariamente terapia com luz vermelha, tomar comprimidos para aumentar a produção de antioxidantes e a função mitocondrial e experimentar acupuntura e adesivos de ervas.
Ela não tinha clínico geral e não achava que precisasse de um. Todos os seus biohacks já se baseavam em informações personalizadas. Fizera um exame para verificar o acúmulo de cálcio nas artérias do coração, várias avaliações por imagem para medir a resistência dos ossos e uma análise enviada pelo correio chamada 3X4 Blueprint, que supostamente revelava quais genes a tornavam mais suscetível à demência, à inflamação crônica e à degeneração do tecido conjuntivo.
Deb inseriu todas as suas informações de saúde no ChatGPT, que então a orientou na escolha dos melhores estimuladores do nervo vago, peelings químicos e gomas de fibra —além de mais avaliações. Foi o ChatGPT que convenceu Deb a encomendar o teste TruAge.
“Você passou o último ano otimizando quase todas as principais alavancas da longevidade”, disse-lhe o chatbot depois que ela perguntou sobre o valor do teste. Segundo ele, o TruAge pode ajudar a responder se o protocolo que você montou está mudando sua trajetória biológica.
Deb, mestre em compartimentalizar as coisas, preferia não pensar nos surtos imprevisíveis da mãe; nas brigas explosivas dos pais; nos constantes casos extraconjugais, dos quais as meninas muitas vezes sabiam. Às vezes, os adultos desapareciam por longos períodos, deixando as irmãs entregues à própria sorte, obrigadas a falsificar bilhetes para os professores e cuidar de si mesmas.
Os caminhos das duas foram se tornando cada vez mais diferentes: Deb cresceu alta, magra e sociável, enquanto Michelle se fechava por trás de um peso cada vez maior. Deb tornou-se líder de torcida, tirava nota máxima em tudo e passava mais tempo com a família do namorado do que com a própria.
Deb não conseguia se lembrar dos detalhes do rompimento entre elas, mas Michelle fora por muito tempo uma lembrança dolorosa de que Deb, como irmã mais velha, precisava ser a adulta da casa, mesmo quando ainda era criança.
Tinha quase certeza de que o ponto de ruptura ocorrera quando estavam na faixa dos 30 anos e Michelle se envolvera profundamente em um relacionamento horrível com um homem que Deb não suportava. Deb sempre conseguira excluir qualquer pessoa de sua vida sem pensar duas vezes —e foi o que fez.
Então, quase 20 anos depois, Michelle entrou em contato por mensagem de texto, pedindo desculpas por seu papel no conflito. Elas voltaram a trocar mensagens, mas, quando Michelle telefonava, Deb deixava a ligação cair na caixa postal e respondia por texto.
Algo na ideia de realmente falar com a irmã fazia o peito de Deb ser tomado pelo pânico, mesmo agora. Ela esperava que sua idade biológica fosse menor que a de Michelle. Mas, no silêncio da casa vazia, começou a considerar outras possibilidades.
E se as muitas festas de Deb na faixa dos 20 anos tivessem envelhecido demais seu fígado? E se seus níveis naturais de colesterol, que estavam além de seu controle, estivessem causando danos vasculares?
E se sua irmã mais nova “tivesse conseguido enganar o próprio corpo de alguma forma”, pensou Deb, e provasse que todos os protocolos dela não serviam para nada?
Michelle não havia pensado muito no teste desde que o fizera. Parte dela achava que tudo aquilo talvez fosse pseudociência. Ela se consultava regularmente com pelo menos sete especialistas, entre eles um alergista, um neurologista, um podólogo e um dermatologista. Duvidava que algumas gotas de sangue fossem enfim revelar o quadro completo.
Mas Michelle era formada em aconselhamento de saúde mental e lia mais de 200 livros por ano, muitos deles sobre psicologia. Ultimamente, vinha pensando nas maneiras pelas quais o estresse tóxico poderia deixar cicatrizes permanentes no DNA humano.
Agora, não conseguia deixar de se perguntar se os algoritmos do kit teriam sido programados para medir algo mais profundo.
Quando criança, Michelle havia internalizado o caos de sua casa —um fator que, segundo ela, contribuíra para suas erupções cutâneas, infecções nos seios da face e compulsão alimentar. Lembrava-se de como a mãe atirava nelas objetos como chaves de fenda e livros, e das larvas na comida quando ela e Deb eram rotineiramente deixadas sozinhas por semanas.
O trauma da infância marcara a primeira metade da vida dela. Ela comeu compulsivamente até chegar aos 155 quilos e precisar passar por uma cirurgia para perda de peso.
Sentia-se atraída por relacionamentos abusivos e permaneceu em um deles por 14 anos. Certa noite em 2007, Michelle foi atacada por três homens no estacionamento de um Walmart e sofreu traumatismo cranioencefálico, fraturas nos ossos da face e o rompimento de um tímpano, que a deixou parcialmente surda.
Ela conta que foi então que decidiu investir em uma “cura holística”. Formou-se em aconselhamento, conseguiu um emprego em uma organização de defesa dos direitos das pessoas com deficiência e começou a fazer trabalho voluntário em um abrigo para pessoas em situação de rua.
Por fim, também entrou em contato com Deb e finalmente encontrou estabilidade emocional. Às vezes, sugeria que Debbie fizesse terapia, mas a irmã não tinha interesse. Agora Michelle se perguntava: será que toda aquela compartimentalização poderia ter provocado alguma coisa nas células de Debbie?
Deb vinha atualizando o portal on-line do TruAge a cada dois dias, mas os resultados de Michelle chegaram primeiro.
Eram 73 páginas de dados, incluindo marcadores de estresse, níveis de nutrientes e exposição a toxinas. No alto, em destaque, apareciam três indicadores principais: uma pontuação geral que abrangia as marcas químicas acumuladas ao longo de toda a vida; outra que media o “ritmo” em que o corpo supostamente envelhecia; e, por fim, uma pontuação voltada aos órgãos do corpo, com base em marcadores associados a 11 sistemas diferentes. Michelle recostou-se na poltrona reclinável e começou a rolar a tela.
Não havia como amenizar a primeira pontuação: embora Michelle tivesse apenas 54 anos, o teste declarou que sua “idade biológica” geral era de 62.
Mas os outros dois indicadores trouxeram o que parecia ser uma boa notícia. A pontuação de seu “ritmo” de envelhecimento dizia que, a cada ano transcorrido, ela envelheceria apenas 0,98 ano —um sinal de que vinha mantendo um estilo de vida saudável nos últimos meses.
E as idades de seus órgãos a surpreenderam ainda mais: a média dos 11 sistemas do organismo era de relativamente jovens 53,4 anos. Seus pulmões tinham 53,6; seu cérebro, 53,8, apesar da lesão cerebral traumática. E, mesmo com todos os problemas autoimunes de Michelle, seu sistema inflamatório tinha, inexplicavelmente, 52,4.
Semanas depois, Deb recebeu seus resultados. Ela acessou o portal, aproximou-se da tela e engoliu em seco. A pontuação geral da mulher de 56 anos era de 58,3: mais alta do que gostaria, mas ainda inferior à da irmã. E ela envelhecia a um ritmo de 0,90 por ano.
Era uma boa notícia, mas então ela rolou a tela até os resultados dos órgãos.Todos os números pareciam astronômicos. A média era de 63,5 anos, mais de uma década acima da de Michelle. Muitos eram ainda mais assustadores: seus pulmões tinham 64,7; seu coração, 64,3; seu fígado, 63,9. Seu sistema imunológico tinha 66,7, em comparação com os 57,8 da irmã, que sofria de deficiência imunológica.
Deb fechou o laptop e se preparou para trabalhar, mas passou o dia mergulhada em um turbilhão íntimo de angústia. Teria se exercitado demais no dia anterior ao teste ou dormido pouco? Ou talvez os resultados estivessem corretos, e nenhum esforço fosse capaz de superar o azar de seu DNA. De qualquer forma, ela não sabia o que fazer em seguida.
Esse era o problema que muitos especialistas em saúde viam nos resultados dos testes de idade biológica: não havia consenso sobre como agir a partir deles.
Um médico teria dito a Deb para não se preocupar muito com as pontuações e se concentrar, em vez disso, em conselhos tão antigos quanto conhecidos: manter-se ativa, alimentar-se de forma saudável e aproveitar a vida. Mas a corrente emocional subjacente à era do bem-estar parecia sugerir que isso já não bastava.
Informação
Folha de São Paulo



