Saúde

Anéis e relógios rastreadores de saúde tentam prever menopausa, mas têm limites

Tonya Kuxhausen começou a usar um anel Oura no fim de 2021. Enfermeira de 55 anos em Minneapolis, ela mantinha o anel no dedo quase o tempo todo: durante os plantões no pronto-socorro, à noite enquanto dormia e em todos os momentos entre uma coisa e outra.

Ela passou a confiar ainda mais nele depois de desenvolver Covid longa, em 2022. Alguns anos mais tarde, quando suas menstruações se tornaram irregulares à medida que ela se aproximava da menopausa, os alertas do anel começaram a parecer menos úteis. “É melhor você ir com calma hoje”, Kuxhausen se lembra de o aplicativo alertar, como se “algo realmente terrível fosse acontecer”.

“Eu não estou morrendo”, lembra de ter pensado. Ainda assim, quando a Oura lançou em seu aplicativo, em maio deste ano, um questionário de 22 perguntas sobre a menopausa, Kuxhausen decidiu experimentá-lo.

A Oura está entre as poucas empresas de tecnologia que voltaram sua atenção para mulheres de meia-idade como Kuxhausen: a Whoop e a Apple também anunciaram neste ano novos recursos relacionados à menopausa.

O que essas ferramentas medem —e quanta informação relevante ou útil para a tomada de decisões elas podem fornecer às mulheres sobre o próprio corpo— varia muito. Veja o que é preciso saber sobre elas.

O que os rastreadores de saúde medem

Os recursos variam de um dispositivo para outro, mas todos dependem dos relatos das próprias mulheres sobre seus ciclos e sintomas.

O recurso da Apple é um alerta simples que avisa às mulheres que elas podem ter entrado na perimenopausa. A Oura oferece uma pontuação de sintomas baseada no questionário, e a Whoop busca prever quando as mulheres podem esperar determinados sintomas da menopausa.

O recurso da Apple foi lançado no mês passado: agora, o aplicativo Saúde envia notificações a mulheres com 40 anos ou mais cujos ciclos começam a variar. Segundo a Apple, ele usa os dados registrados pelas mulheres, e não aqueles captados pelos sensores do relógio.

O aplicativo pede às mulheres que confirmem se seus ciclos se tornaram irregulares e, em seguida, informa que isso pode acontecer por vários motivos, incluindo a perimenopausa. Ele sugere que conversem com seus médicos dentro de um ano e oferece um PDF com os ciclos dos últimos 12 meses, que pode ser levado a uma consulta.

A pontuação da Oura, baseada no questionário sobre menopausa, representa o grau em que os sintomas podem estar interferindo na vida cotidiana da mulher. As tendências de sono e temperatura são exibidas ao lado da pontuação para ajudar a explicá-la, diz Chris Curry, ginecologista-obstetra e diretora clínica de saúde da mulher da Oura.

Segundo ela, o anel não consegue determinar se uma mulher está na perimenopausa, mas pode “facilitar o caminho para uma conversa”, inclusive por meio da geração de um relatório que as mulheres podem baixar e compartilhar com seus médicos.

No Whoop, a mulher registra seus sintomas —cólicas, inchaço, dores de cabeça, mudanças de humor, fadiga e confusão mental estão na lista; ondas de calor e suores noturnos, não—, e o aplicativo prevê quando ela poderá voltar a apresentar aquele sintoma.

À medida que os ciclos da mulher se tornam menos regulares, o aplicativo fornece uma faixa de tempo prevista para a próxima menstruação, em vez de uma data específica, diz Emily Capodilupo, vice-presidente sênior de pesquisa, algoritmos e dados da Whoop.

Além desses recursos, alguns dispositivos promovem outros serviços pagos voltados para mulheres de meia-idade. Com a autorização da usuária, a Oura pode compartilhar os resultados do questionário e os dados de sono com empresas de telessaúde como Maven e Wisp, enquanto a Whoop vende, por US$ 299, um painel de exames de sangue realizado pela Quest Diagnostics.

Stephanie Faubion, diretora médica da The Menopause Society e diretora do Centro de Saúde da Mulher da Mayo Clinic, usa um anel Oura e uma pulseira Whoop e disse enxergar valor nos padrões que os rastreadores de saúde podem revelar. Em alguns casos, afirmou, um dispositivo vestível pode ajudar a identificar um problema de saúde que uma mulher atribuiu equivocadamente à menopausa, como a apneia obstrutiva do sono.

Mas, de modo geral, os recursos específicos para a menopausa não acompanham nada que os dispositivos já não monitorassem, disse ela, e são desenvolvidos principalmente em torno dos ciclos menstruais.

Onde os rastreadores de saúde podem deixar a desejar

Apesar de todos os dados coletados por esses dispositivos, a maioria das métricas apresentadas ainda consiste em estimativas. Quando um dispositivo vestível informa a uma mulher quanto tempo de sono REM ou profundo ela teve durante a noite, “isso não equivale a medir o que está acontecendo no cérebro”, diz Fiona Baker, que dirige o programa de pesquisa do sono humano do SRI International, um instituto de pesquisa sem fins lucrativos em Menlo Park, na Califórnia.

Algumas dessas ferramentas também dependem muito da variabilidade da frequência cardíaca —as pequenas diferenças no intervalo entre os batimentos— para avaliar o nível de estresse ao qual o corpo está submetido. Mas, quando a variabilidade da frequência cardíaca muda, o número não diz nada sobre o motivo, afirma Baker: “Foi por causa da idade? Foi por causa da menopausa? Foi por causa de hábitos de vida pouco saudáveis?”

Kelly Baron, psicóloga clínica e professora da Universidade de Utah que estuda tratamentos para problemas de sono na perimenopausa, disse que algumas pessoas ficam pior quando têm acesso a mais dados sobre o sono, pois podem desenvolver uma preocupação excessiva e prejudicial com eles. (Baron e seus colegas criaram o termo “ortossonia” para descrever esse fenômeno.)

Os gráficos dos estágios do sono formam “uma imagem muito bonita”, diz Baron. “Mas não há muita coisa que possamos fazer com isso.”

Há também o risco de um sintoma ser classificado cedo demais como relacionado à menopausa. Palpitações, por exemplo, podem ter outras causas que precisam ser investigadas, diz Faubion.

As mulheres não precisam de um dispositivo para saber quando estão tendo ondas de calor e mudanças de humor. E algumas das métricas que poderiam ser mais úteis para mulheres na menopausa ainda não podem ser monitoradas de forma confiável por dispositivos vestíveis: Faubion citou como exemplo a pressão arterial, que “dispara na menopausa”. As doenças cardíacas são a principal causa de morte entre as mulheres nos Estados Unidos, e a pressão alta é um dos maiores fatores que contribuem para elas.

Kuxhausen, a enfermeira, ainda usa seu anel Oura. Ele a ajudou a entender como a alimentação, o álcool e as noites em claro afetam seu sono. Mas não revelou muita coisa sobre a menopausa que ela já não soubesse.

“Você já se sente traída pelo próprio corpo”, diz ela. A última coisa que queria, afirma, era um lembrete “de que você não está indo bem o bastante”.

Informação

Folha de São Paulo

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