Flávio x Lula: crise fiscal e peso das promessas são alguns dos dilemas do futuro presidente

Nunca foi tão difícil vencer uma eleição presidencial. Os dois candidatos finalistas passaram ao segundo turno com uma pequena diferença entre eles: 2,2 milhões de votos ou 1,8 ponto percentual, o menor índice registrado desde a redemocratização. Os dois candidatos são rejeitados por cerca de metade do eleitorado. E os dois candidatos — por partilhar do mesmo pecado de atacar muito e propor pouco — também não conseguiram cultivar apoios consistentes no eleitorado independente, considerado o fiel da balança na votação. Pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira 21 mostrou que as intenções de voto espontâneas no presidente Lula e no senador Flávio Bolsonaro caíram dentro da margem de erro, com ambos marcando 40%, enquanto a fatia dos indecisos duplicou de 7% para 14%. A disputa continua aberta e poderá ser definida no photochart, com uma vantagem apertada para o vencedor. Em 5 de janeiro, o eleito assumirá um país repleto de problemas, cindido e ansioso por soluções. No exercício do mandato, ele provavelmente perceberá que governar, muitas vezes, pode ser bem mais complicado do que ganhar uma eleição.
Um dos desafios do futuro presidente será lidar com uma sociedade dividida e refém da chamada polarização afetiva, na qual os principais grupos políticos não se consideram apenas adversários, mas se tratam como inimigos a ser aniquilados. Não há diálogo entre as partes, tal qual havia entre petistas e tucanos no passado. Mesmo gestos mínimos de civilidade, como um cumprimento dos postulantes à Presidência diante das câmeras de televisão, foram deixados de lado. E nada indica que haverá mudança nesse quadro. Em 2022, Lula derrotou Jair Bolsonaro com a ajuda de uma frente ampla, consolidada a partir do convite a Geraldo Alckmin — ex-PSDB, a quem derrotou em 2006 — para que fosse o vice de sua chapa. De volta ao Planalto e honrando a tradição hegemônica do PT, abandonou o conceito de frente ampla.

Já Flávio Bolsonaro até tentou posar de conciliador no início da campanha, mas logo abandonou o figurino. O senador já deixou claro que defenderá iniciativas que dividem a sociedade. Ele declarou, por exemplo, que livrará da prisão seu pai, Jair Bolsonaro, a tempo de o capitão lhe colocar a faixa presidencial no dia da posse — caso, obviamente, vença o segundo turno. O Zero Um e a bancada de senadores do PL também querem dar prioridade à votação de pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Na mesma toada, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, o Zero Três, avisou que, se o irmão dele se tornar presidente, promoverá uma caça às bruxas no Itamaraty contra diplomatas que supostamente boicotaram o governo do pai. Há a possibilidade de tentativas de revanches, que podem interditar ou atrapalhar a tramitação de propostas de interesse do país. “O ideal seria que o governo começasse com uma grande conversação nacional. Só se reconecta um país dividido com uma postura equilibrada, madura, com ações corajosas para consolidar as bases institucionais, política e econômica”, diz Michel Temer. “Sem viés ideológico, com viés de pacificação”, completa o ex-presidente.

Restabelecer canais de diálogo e baixar a fervura da disputa política será fundamental para que o presidente eleito tenha chance de encaminhar soluções para o maior desafio econômico do país: o desarranjo das contas públicas. Desde o início do terceiro mandato de Lula, a dívida brasileira saltou de 72% para 83% do PIB. O crescimento desordenado dos gastos tem impactado de forma negativa as taxas de juros, sufocando financeiramente famílias e empresas. Diante desse cenário, formou-se um consenso de que algum ajuste fiscal terá de ser feito, sob pena de o próximo governo não ter recursos para bancar programas sociais, investimentos e até o custeio da máquina pública. As equipes técnicas de Lula e Flávio Bolsonaro divergem sobre o receituário a ser adotado, a intensidade das medidas e o horizonte de implantação destas, enquanto os candidatos fogem do assunto, já que falar em cortes durante a campanha significaria perder votos. Na sua tentativa de virar o jogo, Lula tem pegado carona na promessa de Flávio Bolsonaro de promover um “tesouraço” para dizer que o oponente cortará programas sociais, como o Bolsa Família.
Ex-diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI) e ex-secretário da Fazenda e do Planejamento do Estado de São Paulo, Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren Investimentos, defende ajustes nos principais gastos que crescem desordenadamente, como as despesas previdenciárias, os pisos da saúde e da educação, o abono salarial, os supersalários, as emendas parlamentares e os chamados gastos tributários, que são receitas das quais o governo abre mão e que superaram, sozinhas, mais de 600 bilhões de reais neste ano. “O programa de ajuste deve ser aprovado com celeridade, mas tem de ser implementado por etapas, sob pena de se jogar a economia em recessão em 2027. É um equilíbrio difícil, mas possível. Requer liderança, convicção, capacidade de articulação e técnicos à altura”, afirma Salto. Durante a campanha, os candidatos não demonstraram tais predicados e ainda prometeram mundos e fundos, numa tentativa desesperada de conquistar mais eleitores.

Em busca de seu quarto mandato, Lula lançou um pacote de bondades estimado em mais de 200 bilhões de reais. Algumas projeções falam em custo superior a 300 bilhões de reais. Nas últimas semanas, o presidente prometeu transporte público gratuito nos finais de semana, a extensão do Programa Pé-de-Meia para estudantes universitários, o repasse pelo governo, via Pix, de 5 000 reais a microempreendedores e o reajuste de 15% no valor do Bolsa Família, que foi pago antecipadamente na segunda-feira 19, a seis dias do segundo turno. As iniciativas recentes são orçadas em quase 50 bilhões de reais e não constam da proposta de Orçamento para 2027 enviada ao Congresso. Se for reeleito, Lula terá de achar receitas para custear as medidas. Pressionado, Flávio Bolsonaro não fez por menos. Depois que integrantes de sua campanha anunciaram, em conversas com representantes do mercado, que o senador poderia promover um corte de 250 bilhões de reais, o que serviu de munição para ataques de Lula, o Zero Um passou a evitar o assunto.
No passado, o oposicionista criticou o Bolsa Família, chamando-o de “bolsa-farelo”. Agora, diz que manterá o programa e dará um reajuste maior do que o concedido pelo presidente. O senador também prometeu ampliar o Farmácia Popular e reduzir o valor das prestações do Minha Casa, Minha Vida. Em resposta ao Pix para os microempreendedores, anunciou que sua gestão devolverá, também via Pix, parte dos valores que os cidadãos gastam com o pagamento de contas. Dividindo uma bandeira empunhada por Lula, Flávio Bolsonaro ainda se comprometeu a comprar dívidas de pessoas físicas e jurídicas, além de dar um prazo de carência para elas começarem a acertar os débitos remanescentes com o governo. “Passadas as eleições, ganhe quem ganhar, essas vendas de terrenos na Lua terão de ser anuladas”, afirma Salto. “O quadro acirrado da disputa presidencial colocou os dois candidatos em uma espécie de corrida ao fundo do poço, nesse aspecto fiscal, como se dinheiro desse em árvores”, completa.

O vale-tudo não se restringe a questões financeiras. Diante do apoio popular à proposta de fim da escala 6×1, Flávio Bolsonaro votou pela aprovação da iniciativa, apesar de já ter declarado que o ideal é a livre negociação entre patrões e empregados sobre a jornada de trabalho. Já Lula, que não tem resultados a mostrar na área da segurança pública, afirmou ser favorável à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crime hediondo. O PT sempre foi contra a medida, enquanto o senador propõe uma redução ainda maior, para 14 anos em determinados crimes. Na reta final da campanha, os candidatos mandaram às favas a responsabilidade fiscal, a coerência programática e os escrúpulos de consciência. Diante de tantas e tão variadas promessas, o presidente eleito correrá um risco real de descumpri-las e ser acusado de estelionato eleitoral, o que pode resultar em queda de popularidade e credibilidade. Em situações extremas, o estelionato eleitoral pode ter consequências mais graves. Ele foi uma das muitas raízes do processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff.
Empatados dentro da margem de erro nas simulações de segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro sabem dos riscos que estão correndo. A prioridade deles é ganhar a eleição a qualquer custo e só depois, com a faixa presidencial no peito, pensar nos problemas. “Todo mundo está de acordo sobre a necessidade do ajuste. A questão é como fazer e qual o calibre dele. E isso só se vai discutir seriamente depois da eleição. Não dá para discutir antes porque (quem discute) não ganha voto”, diz Alberto Aggio, professor da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Unesp. Ele acrescenta que tanto o presidente quanto o rival correm o risco de decepcionar os eleitores. Se reeleito, Lula será cobrado a tirar do papel as promessas em um cenário em que o governo tem pouquíssima margem para novos gastos. Em caso de vitória de Flávio, haverá pressão para ele tirar do papel os investimentos divulgados por sua campanha, enquanto ele promove o tal “tesouraço” nas contas públicas. O Zero Um alega que haverá, sim, redução de gastos — não de programas sociais, mas fechando brechas para desperdícios e corrupção. “A política é mais complexa do que todo esse falatório”, lembra Aggio.

Durante a campanha, Lula e Flávio Bolsonaro adotaram como prioridade atacar um ao outro a fim de aumentar a rejeição do adversário. Como ocorreu em 2022, o eleitor escolherá aquele que considera “o mal menor” ou “o menos pior”. No debate realizado pela TV Bandeirantes, o presidente, quando perguntado sobre suspeitas de corrupção, fez um desafio ao senador: ambos abrirem seus sigilos bancários e telefônicos. Já o oposicionista, ao ser confrontado com o descaso e o negacionismo da gestão de seu pai durante a pandemia de covid-19, fez um rápido mea-culpa e, na sequência, encheu o peito para dizer que estenderá ao SUS o padrão de qualidade do hospital Albert Einstein. Na falta de ideias inovadoras e propostas consistentes, ambos apostaram num palavrório apelativo e estéril, que pode até ser suficiente para garantir a vitória, mas não serve de nada para resolver os problemas do país — da criminalidade ao alto custo de vida.
Caberá ao próximo presidente tentar resolver tudo isso a partir de janeiro de 2027. Será a hora de descer do palanque e trabalhar. Em quatro anos de mandato, ele terá tempo de sobra para perceber que a campanha acirrada foi fichinha diante do desafio de governar um país dividido politicamente e encrencado economicamente, no qual o mandatário ainda enfrentará a rejeição de metade da população e será cobrado a realizar o mundo de fantasia que prometeu enquanto pedia votos.
Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018
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