Livro conta como internet virou shopping center e está tomada por robôs e cassinos

A capa do livro “A Internet Não Precisa Ser Assim”, ilustrada pelo personagem TVnauta de ponta-cabeça —grafite do artista Celso Gitahy na rua Treze de Maio, em São Paulo—, dá uma ideia da visão de seus autores sobre a web atual: as pessoas estão sintonizadas, mas, ainda assim, sozinhas e desorientadas.
O casal de jornalistas Fernanda Campagnucci, atual diretora-executiva da entidade de direitos digitais InternetLab, e Marcelo Soares, primeiro editor de audiência e dados da Folha e hoje à frente da Lagom Data, foram adolescentes que conheceram a internet no fim dos anos 1990 e no começo dos anos 2000.
Por isso, na introdução, essa tecnologia vista à época como utópica é alvo de uma espécie de declaração de amor. O choque de realidade fica para os cinco capítulos seguintes.
Campagnucci e Soares apresentam cinco possíveis vilões que frustraram os sonhos iniciais dessa rede mundial de computadores: plataformas que muraram a internet, bilionários com interesses escusos, marketing impulsionado por vigilância, mecanismos similares a cassinos para reter atenção e a enxurrada de robôs que veio com avanço da IA generativa.
Em vez de se aprofundar em cada um desses possíveis problemas, os autores fazem um diagnóstico do paciente —essa internet menos idealizada e mais popular dos dias de hoje.
Os jornalistas ainda apresentam aos leitores uma lista de conceitos que funciona como uma caixa de ferramentas para enteder a web dos últimos anos. Um deles é a “merdificação”, do escritor canadense Cory Doctorow, segundo o qual as empresas pioram seus serviços para lucrar mais.
“Depois de criar dependência, elas tentam agradar os parceiros comerciais empurrando goela abaixo dos usuários, que ficam porque o produto funciona e é de graça. No fim, as big techs traem os próprios parceiros em prol dos próprios lucros”, sintetiza o livro.
Outro conceito citado é o “capitalismo de vigilância”, da socióloga Shoshana Zuboff. Nele, a extração de grandes volumes de dados pessoais e o uso dessas informações para prever comportamentos se tornam fontes de lucro para as empresas de tecnologia.
Os autores argumentam, porém, que esse modelo vem dando lugar a estratégias mais agressivas de captura da atenção. Como é difícil prever o comportamento humano com precisão, as empresas também recorrem a mecanismos que transformam a navegação em uma espécie de cassino. O livro cita o “jogo do tigrinho”, mas vai além das apostas.
É aí que entra a gamificação, conceito associado ao designer Adrian Hon: o uso de elementos típicos dos jogos, como narrativas, pontuações e recompensas, para estimular a participação em outras atividades. Na internet, esses recursos podem manter o usuário engajado mesmo quando a experiência já não lhe traz benefícios.
Em sua forma mais nociva, a estratégia explora comportamentos compulsivos. É o caso de sistemas que estabelecem horários para jogar ou impõem punições a quem abandona uma partida, incentivando o usuário a continuar conectado.
Se o livro oferece ferramentas para criticar a internet, também sugere maneiras de preservar o prazer de usá-la. As recomendações vão de limitar o tempo de tela a recorrer a softwares desenvolvidos fora das grandes corporações.
“Você que usa a internet e sabe a importância dela para tantos aspectos da sua vida, deve saber que ela não precisa ser assim”, escrevem os autores no fim.
Folha de São Paulo>



