Política

Em busca da política perdida

Para alcançar o estatuto de “golpista”, a carta do exílio de Flávio Bolsonaro precisaria chegar à idade adulta, escapando ao pântano da comicidade grotesca. Quando, em duas ou três das quatro versões do texto delirante divulgado na Flórida, Flávio qualifica-se como “presidente eleito” e compara-se a José Martí, Rui Barbosa e De Gaulle, a direita democrática brasileira fica sem alternativa senão tomar um banho de realidade.

A segunda derrota do bolsonarismo, provocada pela tardia reação popular à hipótese de retomada do Planalto por uma escória repugnante, já seria suficiente. Mas sua sequência, com a fuga covarde e a proclamação alucinada, sela o envelope: é cisão ou morte política.

Ninguém, nem mesmo o PL ou o círculo de presidentes latino-americanos alinhados à Casa Branca, ousou contestar o desenlace eleitoral. Flávio e Eduardo, os filhotes fujões, caminham sozinhos no reino das sombras. Além do divórcio entre a direita democrática e o bolsonarismo, é razoável supor que a bufoneria vulgar perpetrada na Flórida provoque uma reorganização no interior do próprio bolsonarismo.

O PT, que rotulava Alckmin como “fascista”, não acredita em direita democrática. Mas ela existe. Figuras como Tarcísio de Freitas (Republicanos), Caiado e Ratinho Júnior (PSD), Esperidião Amin (PP) e mesmo Rogério Marinho (PL) não pregam rupturas institucionais e, por isso, reconheceram o triunfo de Lula. É justo criticá-los em várias áreas, especialmente pelo desprezo pela proteção ambiental e pela leniência com violências policiais, mas eles fazem parte da pluralidade democrática. Só lhes resta, agora, recuperar a política perdida durante o transe bolsonarista.

Foi precisamente a política o que deixaram para trás quando se ajoelharam diante do comando dos Bolsonaro. Na esperança de compartilhar o poder, ofereceram respaldo a uma candidatura extremista e, como fruto de suas escolhas oportunistas, tornaram-se sócios involuntários de uma falência moral, algo muito pior que uma derrota eleitoral.

Daqui em diante, se quiserem ter futuro, precisam dissociar-se da quadrilha familiar à qual serviram. Primeiro teste prático: como se portarão diante do intento de anular a condenação ou a sentença de Jair Bolsonaro? A viabilidade da candidatura de Tarcísio em 2030, que já começa a ser ensaiada, depende de uma nítida ruptura com a camarilha extremista desmoralizada.

Superficialmente, o bolsonarismo parece um monolito. Atrás da espuma, porém, configura uma aliança entre alas distintas. Na sua tenda, abrigaram-se conspiradores de origem militar, milicianos do submundo, criminosos ambientais, empresários do capitalismo de faroeste, ultraliberais fanáticos e lideranças cristãs fundamentalistas.

Sob Jair, predominaram as inclinações militares e milicianas, estruturadas em torno de uma perspectiva golpista. A fuga dos filhotes de espinhas frouxas tende a desequilibrar a balança na direção do fundamentalismo cristão —ou seja, de Michelle, Damares, Malafaia et caterva. Desenha-se, ao que parece, um bolsonarismo pós-familiar, menor e mais ideológico: um partido empenhado numa cruzada contra o Estado laico.

São oito anos de congelamento da política brasileira no molde binário da rivalidade entre lulismo e bolsonarismo. Tudo indica que essa era deplorável vai chegando ao fim.


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Folha de São Paulo

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