A declaração de Raquel Lyra que abriu uma crise na sua campanha à reeleição em Pernambuco

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A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), se viu enrolada em uma nova crise durante sua campanha à reeleição para o comando do estado neste final de semana. Um vídeo em que ela sugere a uma pessoa que faça uma laqueadura (cirurgia de esterilização feminina), sem que a paciente tenha dado o consentimento, foi resgatado e espalhado nas redes sociais.
Durante a inauguração da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, no Agreste pernambucano, em maio do ano passado, ela ouve a história de uma mulher que tinha sete filhos e estava gestante do oitavo, e então comenta: “Tem que fazer laqueadura, visse? A gente bota na fila da laqueadura. Isso eu posso fazer. [Trecho inaudível] Mas faz sem ela saber“.
Uma das gravidades da declaração está no fato de ser uma sugestão para que se cometa um crime, visto que a laqueadura sem consentimento é ilegal no Brasil. Segundo a Lei do Planejamento Familiar, a mulher precisa manifestar por escrito a vontade de passar pela cirurgia e deve ser informada sobre riscos e até a dificuldade de reversão do processo. Além disso, é preciso que a cirurgia seja feita após sessenta dias da manifestação, dando espaço de tempo para que a paciente possa voltar atrás, se assim decidir. Fazer a cirurgia sem o consentimento da mulher é, então, crime com pena de dois a oito anos de prisão e multa.
Além disso, a fala atinge diretamente o eleitorado feminino, do qual Raquel tenta se aproximar, com propostas robustas para a construção de mais creches e de um programa específico voltado para a segurança. Por ela ser mulher e ter dado tal declaração, a fala gerou polêmica e vem sendo usada por seus principais adversários.
O ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), que concorre ao governo e polariza a eleição pernambucana com Raquel, foi um dos primeiros a comentar o caso. “Assisti com indignação ao vídeo em que a candidata usa essa frase para sugerir a laqueadura de uma gestante, sem ela saber (… ). Autoridades e gestores públicos têm o dever legal e ético de garantir direitos e proteger a população, jamais de sugerir práticas ilícitas ou violações da integridade física. Fazer ‘sem ela saber’ não é cuidado. É violência. É crime previsto em lei”, escreveu numa rede social.
“Faz sem ela saber”. Assisti com indignação ao vídeo em que a candidata usa essa frase pra sugerir a laqueadura de uma gestante, sem ela saber. A lei é clara: esterilização exige manifestação expressa da vontade da mulher.
Autoridades e gestores públicos têm o dever legal e…
— João Campos (@JoaoCampos) September 20, 2026
A fala seguiu sendo repercutida mais fortemente pelas mulheres ligadas à candidatura de João Campos, como a senadora Teresa Leitão (PT-PE), que é líder do governo Lula no Senado atualmente. “A fala da governadora Raquel Lyra é grave e não pode ser tratada como um simples comentário infeliz. Sugerir a realização de uma laqueadura sem o consentimento da mulher significa desrespeitar sua autonomia e o direito de decidir sobre o próprio corpo”, escreveu a parlamentar.
Leitão ainda destacou o fato de a governadora estar se desculpando pela declaração e falou que, para ela, não adianta de nada. “Não há pedido de desculpas que encerre a gravidade do episódio. A governadora deve explicações às mulheres de Pernambuco e precisa respeitar o direito à maternagem”.
A senadora ainda falou sobre a necessidade de as mulheres se unirem contra esses posicionamentos, sejam eles vindos de homens ou de outras mulheres.
A ex-deputada federal Marília Arraes (PDT-PE), que é prima de João Campos, disputa uma das vagas ao Senado na chapa dele e foi adversária de Raquel Lyra em 2022, também comentou o caso.
“Assisti ao vídeo não sei quantas vezes para ver se era isso mesmo, se eu não estava escutando errado. A gente tem que falar do ataque ao corpo dessa mulher, à religiosidade dela, ao direito dela decidir sobre a própria vida e seu corpo, sua história. Mas tem uma pergunta que tem que vir antes de todas as outras: será que ela diria isso de uma mulher rica? (… ) Provavelmente, não”, criticou.
O uso do vídeo pela oposição já levou a governadora a se desculpar e se justificar ao menos três vezes, duas delas em vídeos publicados no seu perfil do Instagram e uma terceira durante sabatina realizada na manhã desta segunda-feira, 21. “Foi uma fala errada. Não representa aquilo que sou nem aquilo que penso, especialmente no respeito às mulheres. E peço desculpas por isso (… ). Sempre trabalhei para que as mulheres possam ter vez e voz”, comentou Raquel.
Liderando numericamente as pesquisas para sua reeleição, Raquel Lyra está empatada tecnicamente com João Campos, segundo levantamentos do AtlasIntel, Real Time Big Data e Datafolha. O impacto dessa nova crise deverá ser medido nas próximas pesquisas.
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