A eleição de R$ 56 bilhões: por que políticos têm volume recorde de dinheiro neste ano

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Foi sob intensa pressão pública que o Supremo Tribunal Federal decidiu, em 18 de setembro de 2015, pela proibição das doações de empresas para campanhas eleitorais. A ideia era expurgar das eleições a influência das companhias que patrocinavam políticos — muitas vezes com dinheiro sujo, como revelava a Lava-Jato — em troca de apoio a interesses corporativos. “Há uma crescente influência do poder econômico sobre o processo político, decorrente do aumento nos gastos de candidatos e de partidos”, disse Luiz Fux, relator da ação no Supremo. A medida, que visava moralizar as eleições, acabou, porém, criando um efeito colateral: ampliou o assédio da classe política ao orçamento público. Em 2026, partidos e candidatos terão à disposição um caixa de 56 bilhões de reais para usar na caça ao voto, mais de dez vezes o dinheiro privado recebido em 2014 (5 bilhões de reais).
A fatia mais gorda vem das emendas — parcela do Orçamento controlada pelos congressistas e usada para alimentar uma estratégia baseada na busca de votos e apoio para as campanhas. O valor saltou de 450 milhões de reais em 2015, quando caiu o financiamento privado, para 40 bilhões de reais em 2024. Para este ano, metade da soma recorde de 49,9 bilhões de reais é reservada às emendas individuais, que podem ser livremente distribuídas por deputados e senadores. Vale desde asfaltar uma rua ou custear eventos até construir hospitais e comprar armas e viaturas para guardas. Um instrumento popular são as “emendas Pix”, montante de 7 bilhões de reais que pode ser transferido diretamente por deputados e senadores a estados e municípios.
A falta de controle sobre essa máquina é flagrante, e os abusos se multiplicam. Em março, por exemplo, o Supremo condenou à prisão os deputados federais Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil, do PL do Maranhão, por cobrarem até 1,6 milhão de reais de propina em troca do envio de emendas ao município de São José de Ribamar. A fiscalização vem avançando desde 2024, quando o ministro Flávio Dino, do STF, baixou novas regras de transparência e determinou um pente-fino em nível nacional, o que levou a operações frequentes da Polícia Federal. “Temos uma máquina que não é auditável. As emendas geram dezenas de milhares de documentos fiscais por ano que não precisam ser declarados nas eleições”, diz Bruno Bondarovsky, pesquisador associado da PUC-Rio e idealizador da plataforma Central das Emendas.
Outra parte expressiva do dinheiro usado nas campanhas vem de dois fundos alimentados com dinheiro público. O maior deles, o eleitoral, pago somente em ano de eleições, chegou a 4,9 bilhões de reais em 2026. Já o fundo partidário, pago todo ano, cobre as despesas dos partidos, o que inclui passagens aéreas, hotéis, jatinhos, advogados e consultorias de marketing político. Como o sistema é baseado no tamanho das bancadas, ele foi criando distorções, engordando as mais azeitadas máquinas partidárias. Os três maiores agrupamentos na Câmara, que representam o bolsonarismo, o lulismo e o Centrão, controlam metade do fundo eleitoral (veja no quadro). A dinheirama empodera alguns caciques, que vão para a campanha com o cofre cheio, como Antonio Rueda, presidente do União Brasil, partido que faz federação com o PP e tem o maior naco do fundo eleitoral. Também terá muito cacife o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, para tentar fazer a maior bancada da Câmara, como em 2022, e manter o caixa cheio — em 2024, a sigla foi a primeira a bater na casa de 1 bilhão de reais em verba pública em ano eleitoral. Edinho Silva, presidente do PT, tem o terceiro maior caixa para reforçar a campanha de Lula, que ainda conta com a máquina do governo em pleno funcionamento na pré-campanha, quase sempre guiada pela lógica eleitoral.

Como as maiores bancadas também são as que têm mais poder de negociação, elas acabam abocanhando ainda o grosso das emendas, o que lhes permite eleger mais deputados e senadores, formando um ciclo de perpetuação dos grupos que controlam a máquina e de políticos que já têm mandato. “Existe um conflito de interesses direto: quanto mais recursos o parlamentar tem para direcionar à base, mais votos ele recebe e mais incentivo tem para conseguir mais verba”, diz Eric Brasil, diretor da LCA Consultoria. Na última eleição, em 2024, a taxa de reeleição de prefeitos chegou a 81%, a maior da história.

A farra orçamentária atual da classe política resulta de um longo esforço do Congresso para abocanhar parcelas cada vez maiores do Erário. Um divisor de águas ocorreu em 2015 com a aprovação do “orçamento impositivo”, que transformou as emendas em gastos obrigatórios, garantindo o fluxo de caixa aos parlamentares sem necessidade de negociação com o governo. A aprovação da PEC foi patrocinada por Eduardo Cunha, então presidente da Câmara e alvo da Lava-Jato por, veja só, receber propina de empresas para bancar sua campanha em troca de favorecimentos. “Cunha era um articulador das doações empresariais aos partidos, fazendo em âmbito privado o que os presidentes da Câmara e do Senado fazem hoje com dinheiro público”, diz Marco Antonio Teixeira, cientista político da FGV-SP.

A sanha do Parlamento por dinheiro cresce enquanto o país enfrenta dificuldades para manter o equilíbrio das contas. Além disso, configura um mau uso do apertado orçamento público, com o direcionamento de verbas guiado pela lógica eleitoral e sem preocupação com políticas públicas de longo prazo. “Temos uma política de varejo orçamentário: os parlamentares liberam emendas conforme seus interesses individuais, e o Executivo, que precisa se virar para garantir, arca com o custo político da crise fiscal”, diz Marcos Mendes, pesquisador do Insper e ex-assessor especial do Ministério da Fazenda. Para Carlos Honorato, professor da FIA Business School, a falta de planejamento das emendas distorce as prioridades no gasto público e agrava o rombo fiscal. “São bilhões usados para construir praças e recapear ruas, quando poderíamos cobrir parte do déficit e atender às necessidades prioritárias da população em saúde e educação”, diz.

Não bastasse o uso ostensivo de dinheiro público, os partidos se movimentam, ainda, para blindar-se de complicações na Justiça Eleitoral. Em maio, a Câmara aprovou uma minirreforma que facilitou o uso do dinheiro público e fragilizou ainda mais os já frágeis mecanismos de fiscalização e punição. O projeto cria um teto para multas por irregularidades na prestação de contas, permite parcelar os débitos ao longo de quinze anos, fixa prazo de três anos para os processos “caducarem” (o que é muito provável, dada a modesta estrutura da Justiça Eleitoral), extingue todas as dívidas em caso de fusão partidária e proíbe o bloqueio de bens caso a legenda deixe de pagar por um serviço. “É uma enorme anistia e autoimunidade para os partidos. A lei cria um regime jurídico altamente privilegiado”, diz Ana Claudia Santano, diretora-executiva da Transparência Eleitoral Brasil. Também em maio, o Congresso aprovou mudanças na Lei de Diretrizes Orçamentárias para permitir a transferência de recursos a estados e municípios durante o processo eleitoral — isso era vetado nos três meses anteriores à votação. O esforço parlamentar em causa própria não tem agradado ao eleitor. Pesquisa Datafolha de maio mostra que só 15% dos entrevistados disseram achar ótimo ou bom o trabalho do Legislativo.

O dilema sobre o financiamento das eleições não se restringe ao Brasil. Não há um só modelo. Na França, as doações por empresas são proibidas, e há limites tanto para contribuições individuais quanto para gastos da campanha. A Alemanha não faz distinção entre recursos eleitorais e partidários, permite que qualquer pessoa ou empresa banque as agremiações e ainda acrescenta alguns centavos públicos por euro arrecadado de forma privada. O maior contraste com o caso brasileiro vem dos EUA, onde as bilionárias campanhas são quase integralmente custeadas por corporações.

A questão não tem solução fácil. Embora haja quem defenda a volta do financiamento público, não seria simples retomar o modelo. O fato, porém, é que a escalada evidente do assédio eleitoral ao Orçamento vai exigir que as instituições se debrucem sobre o tema. Se tem uma prioridade que o país não pode deixar de lado é melhorar a qualidade do gasto público — e isso inclui, até para dar o exemplo, a gastança eleitoral.
Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000
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