A hora e a vez dos independentes

Mais uma vez as urnas nos disseram que não são necessariamente cópias perfeitas dos retratos registrados pelas pesquisas ao longo da campanha.
Os sucessivos instantâneos captaram um empate justo que a câmara escura das cabines indevassáveis alargou um pouco, deu a dianteira a Flávio Bolsonaro (PL) e pôs Luiz Inácio da Silva (PT) em desvantagem no quadro geral de prevalência da direita nos estados, aí incluído o Senado.
As fotos das intenções, contudo, retrataram a indigência eleitoral dos demais oponentes. A despeito da discrepância dos números sujeitos aos humores de última hora do eleitorado —cuja vontade nem sempre obedece à estatística—, prevaleceu o favoritismo dos finalistas descrito nas enquetes.
Agora é ver qual será a escrita que os adversários no embate mano a mano da etapa decisiva reservarão ao país na curta campanha que se avizinha, até o dia 25 de outubro.
Tivemos uma primeira etapa atípica, marcada por ausência de conteúdo substantivo, interferência exacerbada da Justiça, escândalos ecumênicos, desencanto do eleitorado e reserva de mercado de votos para os dois principais candidatos, chefes das respectivas bolhas.
Ignorados por eles, os eleitores ditos independentes agora tanto podem ir para qualquer um dos lados como formar fileiras na abstenção ou engrossar o campo dos sufrágios inválidos, nulos e brancos.
Lula e Flávio Bolsonaro estarão obrigados a falar para esse eleitorado, o que pode confirmar ou desmentir a máxima de que o segundo turno é sempre uma outra eleição, diferente da anterior.
Se quiserem aumentar a distância entre eles a fim de produzir um resultado que confira maior legitimidade política ao vencedor, precisarão se mostrar à altura do desafio.
Serão capazes de romper a barreira das afeições e aversões? Eis a questão que definirá não só o eleito, mas também aquele que se mostrar mais capaz de conduzir o país na travessia que se avizinha turbulenta na economia e na política, sob a égide da disfuncionalidade institucional.
Três semanas é pouco tempo para que Lula e Flávio Bolsonaro remodelem seus figurinos e os adaptem de modo convincente ao gosto da freguesia em disputa. Sob o prisma do copo meio cheio, podem conseguir. A metade vazia pela qual ambos optaram por transitar até aqui não recomenda otimismos.
O estado da arte seria preencher os espaços com o compromisso com boa governança, a preservação da civilidade na ambiência da discórdia saudável e a consciência de que o país é de todos e não se limita à contabilidade de perdas e ganhos numa eleição.
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Folha de São Paulo



