Saúde

A ligação pouco conhecida entre demência e epilepsia

Os episódios estranhos começaram quando Jeff Will ainda não tinha 70 anos. Na empresa de instalações elétricas que administrou durante décadas, os funcionários perceberam que ele estava agindo de maneira estranha: ficava alheio durante reuniões e esquecia o que havia sido discutido. Eles ligavam para sua esposa pedindo que fosse buscá-lo.

Em casa, na Pensilvânia, ele tinha crises de confusão, perambulava pela casa e olhava fixamente para o vazio. Certa vez, sua esposa ouviu um ruído e o encontrou vestindo um dos suéteres dela como se fosse uma calça.

“Mais ou menos uma vez por mês, eu acordava sem saber exatamente onde estava ou o que estava fazendo”, diz Will, hoje com 73 anos. “Isso começou a acontecer cada vez mais, e vendi minha empresa principalmente por causa disso.”

Durante quase três anos, ele não conseguiu obter um diagnóstico. No início, sua esposa o levou a um hospital, preocupada com a possibilidade de ele estar sofrendo um derrame. Também o levou a neurologistas, neuropsicólogos e a um psiquiatra. Ele participou de um programa destinado a melhorar a saúde cerebral.

Nas avaliações cognitivas, sua pontuação ficou dentro da média para sua idade. Os exames de imagem do cérebro também pareciam típicos para uma pessoa de 70 anos.

“Finalmente nos cansamos disso e fomos à Cleveland Clinic”, diz Will. Lá, os médicos chegaram a uma conclusão que o surpreendeu: seus sintomas semelhantes aos de demência eram desencadeados por crises epilépticas silenciosas que ele nem sabia que estava tendo.

Will recebeu a prescrição de um medicamento anticonvulsivante comum que interrompeu seus surtos de confusão e perda de memória.

Pesquisas vêm constatando que crises epilépticas podem provocar sintomas semelhantes aos de demência. E vice-versa.

“Há um risco duas a três vezes maior de desenvolver demência se você tiver epilepsia“, diz Alice Lam, professora de neurologia da Faculdade de Medicina de Harvard. E “se você tiver demência, terá, em média, um risco duas a três vezes maior de desenvolver crises epilépticas”.

As ligações entre epilepsia e demência —condições que afetam milhões de pessoas e são mais prevalentes em idades avançadas— tornam-se cada vez mais importantes de reconhecer à medida que as pessoas vivem mais, dizem especialistas.

Os sintomas cognitivos provocados pela epilepsia muitas vezes diferem dos sintomas do Alzheimer ou de outras demências. Eles podem ocorrer durante uma crise, frequentemente tão sutil que passa despercebida, ou depois dela, no que é chamado de fase pós-ictal, diz Anny Reyes, neuropsicóloga da Cleveland Clinic.

Os episódios de confusão podem desaparecer depois de horas ou dias, diz Lam, acrescentando que as pessoas podem não responder a perguntas ou conversas.

Arjune Sen, professor de epilepsia global da Universidade de Oxford, afirma que outra característica marcante é o “esquecimento acelerado de longo prazo” —por exemplo, esquecer detalhes de um filme alguns dias depois de assisti-lo e esquecer quase todo o filme semanas mais tarde.

Às vezes, esses episódios podem ser causados exclusivamente pela atividade epiléptica no cérebro e desaparecer com o uso de medicamentos anticonvulsivantes, diz Lennart Mucke, diretor do Instituto Gladstone de Doenças Neurológicas. Não está claro com que frequência isso acontece. Em outros casos, pode ser “um prenúncio da doença de Alzheimer”, afirma.

No sentido inverso, pessoas com demência podem desenvolver crises epilépticas capazes de agravar seu declínio cognitivo.

Uma relação de mão dupla

Vários especialistas disseram que pelo menos 10% das pessoas com demência ou comprometimento cognitivo leve provavelmente desenvolverão crises epilépticas ou distúrbios elétricos mais sutis, embora as estimativas variem.

Muitas vezes, as crises são imperceptíveis e podem ocorrer durante o sono.

“Quando as pessoas ouvem falar em crises epilépticas, imaginam alguém se debatendo por inteiro”, diz Mucke. Isso pode caracterizar uma crise do tipo grande mal, afirma, “mas a epilepsia pode ser muito mais complexa e sutil”, manifestando-se, por exemplo, como “crises de ausência”, caracterizadas por “olhar fixo para o vazio e desconexão total do ambiente”.

Embora as pessoas frequentemente associem a epilepsia à infância, ela é pelo menos tão comum entre adultos com 65 anos ou mais, diz. Vineet Punia, epileptologista da Cleveland Clinic. Muitas vezes, a causa subjacente não é clara e não há um fator desencadeante identificável, como um derrame.

Entre idosos com epilepsia de causa desconhecida, cerca de 20% a 25% provavelmente desenvolverão demência em um período de cinco anos, diz Punia. Outros desenvolverão comprometimento cognitivo leve, afirma, enquanto alguns já apresentam problemas cognitivos quando começam a ter crises epilépticas.

A relação biológica entre epilepsia e demência tem vários aspectos. Às vezes, os distúrbios elétricos epilépticos produzem efeitos “como se estivessem interferindo nos sinais de rádio responsáveis pela formação da memória”, diz Lam.

Uma forma pela qual isso pode ocorrer, segundo Sen, é a “hiperexcitabilidade” da atividade epiléptica desencadear moléculas que estimulam a perda de neurônios, desgastando algumas vias de sinalização cerebral e criando um “ciclo de atividade elétrica, perda de células nervosas e neurodegeneração”.

As tentativas do cérebro de reorganizar suas conexões para neutralizar essa hiperexcitabilidade também podem reduzir sua agilidade e “restringir alguns dos processos de que precisamos para pensar adequadamente”, diz Mucke.

Além disso, tanto na epilepsia quanto na demência, células cerebrais chamadas interneurônios, que funcionam “como o maestro de uma orquestra”, ficam comprometidas. E ambas as condições podem afetar as mesmas áreas do cérebro ligadas à memória, especialmente o lobo temporal e o hipocampo.

Duas proteínas fundamentais para o Alzheimer, a amiloide e a tau, “tendem a aumentar o risco de crises epilépticas”, diz Reyes.

Outras demências, entre elas a vascular, a frontotemporal e a de corpos de Lewy, também podem aumentar o risco de atividade epiléptica, diz Punia.

Além disso, algumas condições de saúde que elevam o risco de epilepsia em adultos, incluindo pressão alta, diabetes e colesterol alto, também aumentam a chance de demência. E alguns medicamentos para epilepsia podem, por si só, acelerar o declínio cognitivo, diz Reyes. Por esse motivo, quando os médicos prescrevem anticonvulsivantes para tratar episódios cognitivos causados pela epilepsia, devem evitar medicamentos que prejudiquem a cognição.

Informação

Folha de São Paulo

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