AgroCultura

A verdadeira face dos nematoides



A convivência com nematoides nas áreas agrícolas brasileiras deixou de ser uma possibilidade para se tornar uma certeza operacional. Ainda assim, o que mais chama atenção não é a presença desses patógenos, mas a forma como eles seguem subestimados dentro das estratégias de manejo.
Quando falamos em perdas anuais próximas de R$ 65 bilhões, segundo dados da Sociedade Brasileira de Nematologia, não estamos somente diante de um problema fitossanitário relevante. Estamos diante de um dos principais fatores de ineficiência produtiva da agricultura tropical.
Na soja, por exemplo, admitir que uma em cada dez safras pode ser comprometida por nematoides deveria, por si só, reposicionar o tema no centro das decisões agronômicas, e não na periferia, como ainda ocorre em muitas propriedades.
Existe uma contradição evidente no campo: ao mesmo tempo em que a tecnologia embarcada na agricultura avança em ritmo acelerado, o manejo de nematoides ainda é, em muitos casos, reativo, baseado em sintomas tardios e decisões generalistas. E isso tem um custo alto.
Nematoides não são patógenos de comportamento uniforme. São complexos biológicos dinâmicos, com distribuição heterogênea, interação direta com o sistema de produção e forte influência do manejo adotado ao longo dos anos.
Os levantamentos nacionais são consistentes nesse ponto. A presença em 94% das áreas agrícolas e a predominância de populações mistas não apenas confirmam a ampla distribuição, mas também expõem a limitação de abordagens simplificadas. Pratylenchus spp., detectado em cerca de 76% das áreas, frequentemente divide espaço com Meloidogyne, Heterodera, Helicotylenchus e outros gêneros. E essa coexistência muda completamente a lógica de manejo.

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Não se trata mais de controlar um alvo específico, mas de equilibrar um sistema biológico complexo. E isso exige precisão.
Nas regiões do Cerrado e Norte do país, onde a intensificação produtiva é mais recente, e, muitas vezes, mais agressiva, esse cenário ganha contornos ainda mais críticos. A alta frequência de Pratylenchus spp., especialmente P. brachyurus, não é um acaso. Ela reflete sistemas baseados em sucessões de culturas altamente favoráveis à sua multiplicação, muitas vezes sem intervalos ou estratégias que promovam quebra de ciclo.
É nesse ponto que, na prática, o problema se consolida: não pela presença do nematoide em si, mas pela ausência de leitura do sistema como um todo.
A experiência em campo reforça isso de forma muito clara. Durante a ação Caçadores de Nematoides, ao percorrer propriedades no Mato Grosso, ficou evidente que os nematoides estão menos relacionados a eventos pontuais e mais associados a históricos de manejo.
A constatação de Pratylenchus spp. em 100% das áreas avaliadas não surpreende do ponto de vista técnico, mas deveria acender um alerta do ponto de vista estratégico.
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Porque, na prática, o que se observa ainda é uma tomada de decisão baseada em “suspeita”, e não em diagnóstico.
E aqui está, talvez, o principal ponto de inflexão: enquanto a diagnose nematológica não for incorporada como rotina, o manejo seguirá limitado, uma vez que não é possível manejar aquilo que não se conhece com precisão. Sintomas de reboleira, falhas de estande ou plantas com desenvolvimento irregular são consequências tardias, que já carregam perda produtiva consolidada.
Diagnóstico não é custo, é ferramenta de decisão. A partir dele, o manejo deixa de ser genérico e passa a ser direcionado. Rotação de culturas deixa de ser apenas uma prática recomendada e passa a ser planejada com base em hospedeiros, hospedeiros desfavoráveis e plantas antagonistas.
O uso de cultivares ganha critério. O controle biológico e químico passa a ter momento e alvo definidos. E, talvez o mais importante, o sistema começa a ser construído para reduzir a pressão ao longo do tempo, e não apenas reagir a ela.
Nesse contexto, iniciativas que aproximam a diagnose da realidade do campo ganham relevância estratégica. A atuação de empresas especializadas segue exatamente nessa direção: transformar dado em decisão, e decisão em manejo efetivo. Não se trata apenas de oferecer soluções, mas de estruturar uma lógica de acompanhamento que permita ao produtor entender o que está acontecendo no solo, e, principalmente, antecipar movimentos.
Porque, no fim, o manejo de nematoides não é sobre eliminar o problema. É sobre aprender a conviver com ele de forma inteligente. E isso exige, antes de qualquer tecnologia, uma mudança de mentalidade.
*Angélica Calandrelli, engenheira agrônoma e doutora em nematologia, e Lucas Pereira da Silva, coordenador do projeto Caçadores de Nematoides e desenvolvedor de mercado MT/RO da Vitalforce
As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural


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