Alterações genéticas hereditárias são menos frequentes em brasileiros com câncer de próstata, indica estudo

Um estudo feito no Brasil indica que alterações genéticas herdadas dos pais são menos frequentes em homens com câncer de próstata metastático do que o observado em outras populações, como a dos Estados Unidos e a da Europa.
A pesquisa analisou o DNA de 193 pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) de todas as cinco regiões e encontrou esse tipo de alteração herdada, em genes diretamente ligados ao câncer de próstata, em 5,7% deles —proporção menor do que a registrada em outros países.
Os autores, porém, ressaltam que os dados são apenas um indicativo e que ainda não é possível afirmar que a doença tenha menos origem hereditária entre os homens brasileiros do que os de outras nacionalidades.
Segundo os pesquisadores, são necessários novos estudos, com mais pacientes e amostras de melhor qualidade, para confirmar se a diferença se mantém.
“A contribuição genética parece ser menor aqui, mas ainda não dá para cravar”, diz o geneticista Gabriel Macedo, do Hospital Moinhos de Vento e da Rede D’Or, co-pesquisador responsável pela parte genética do estudo.
O trabalho, do projeto Onco-Genomas Brasil, foi publicado na revista científica Genetics in Medicine Open. Faz parte do programa Genomas Brasil, parceria do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre, com o Ministério da Saúde para estudar a genética da população brasileira em diferentes doenças.
O câncer de próstata metastático é aquele em que o tumor já se espalhou para outras partes do corpo, como os ossos. Entre outubro de 2022 e dezembro de 2023, os pesquisadores recrutaram 193 homens nessa condição, atendidos pelo sistema público brasileiro, com idade média de 68 anos.
De cada um, analisaram o DNA do sangue, que revela o que foi herdado, e o do tumor, que mostra o que foi adquirido.
As alterações genéticas herdadas (ou germinativas) são recebidas do pai ou da mãe, estão presentes desde o nascimento em todas as células do corpo e podem ser transmitidas aos filhos. Elas não causam o câncer por si só, mas aumentam o risco de desenvolvê-lo.
Quando uma pessoa herda uma versão alterada de um desses genes, ele passa a trabalhar pior, e o risco de desenvolver certos tipos de câncer ao longo da vida fica maior do que o da média da população.
Já as alterações genéticas adquiridas (ou somáticas) surgem apenas nas células do tumor, ao longo da vida, e não são passadas adiante.
Analisando 148 genes ligados ao câncer em geral, 9,8% dos pacientes tinham alguma alteração herdada. Mas ao restringir a análise aos genes sabidamente associados ao risco de câncer de próstata, o índice caiu para 5,7%.
Essa proporção foi menor do que a registrada em alguns estudos feitos com populações norte-americanas e europeias.
Estima-se que cerca de 10% de todos os tumores no mundo tenham origem hereditária e, em estudos realizados nos Estados Unidos e na Europa em pacientes com câncer de próstata, esse índice chega a até 17%.
Os autores alertam, porém, que a diferença não deve ser entendida apenas como uma característica biológica dos brasileiros.
“Talvez tenhamos aqui mais alterações cujo impacto ainda não sabemos explicar, justamente porque os bancos de dados que usamos para interpretar a parte genética foram construídos na Europa e na América do Norte”, explica Macedo.
A menor proporção de alterações herdadas também não significa que fatores ambientais, como estilo de vida, alimentação e exposições do dia a dia, tenham mais peso para os brasileiros. Segundo Macedo, esses fatores são, em geral, semelhantes entre o Brasil e outros países.
Hoje, a ciência sabe que algumas alterações genéticas que aumentam o risco de câncer estão mais associadas a determinados grupos étnicos ou ancestralidades específicas. O exemplo mais bem conhecido é o da Angelina Jolie.
A atriz descobriu por meio de um teste genético que tinha uma alteração em um gene chamado BRCA1, herdado da mãe, e por isso tinha alto risco de desenvolver câncer de mama e de ovário ao longo da vida. Ela já tinha vários familiares que morreram de câncer.
O estudo é, segundo os autores, o primeiro a descrever de forma abrangente as características genômicas de uma população miscigenada de pacientes com câncer de próstata metastático recrutada em todas as regiões brasileiras.
“Quanto mais conhecermos o perfil genômico dos brasileiros, mais condições teremos de compreender as particularidades das doenças, aprimorar a interpretação dos testes e avançar em uma oncologia realmente personalizada”, afirma Daniela Dornelles Rosa, pesquisadora do Hospital Moinhos de Vento e investigadora principal do estudo.
A pesquisa também calculou a ancestralidade genética dos participantes. Em média, ela foi de 67% europeia, 14% africana e 13% indígena. Quanto à cor da pele, 50,8% dos pacientes se declararam brancos, 37,3% pardos e 11,4% pretos.
Esse dado não indica que ter ancestralidade europeia aumente o risco de câncer de próstata. Ele serve para mostrar que o grupo estudado representa a diversidade do país. “Isso mostra que estamos representando, no estudo, a população brasileira”, afirma Macedo.
Um dos achados mais preocupantes não é genético, e sim prático. Dos 193 pacientes, apenas 55 (28,5%) tiveram resultado válido na análise do tumor.
Tumores são guardados em blocos de parafina após a cirurgia ou a biópsia. Quando o material é pouco, de baixa qualidade ou mal preservado, o DNA fica insuficiente ou fragmentado, e não é válido para a pesquisa.
“Talvez esse seja um dos pontos mais importantes do estudo: mostrar que precisamos melhorar a qualidade do material tumoral para a análise genética”, diz Macedo.
“A medicina de precisão não começa quando um médico recebe um laudo genético para decidir o melhor tratamento. Ela começa muito antes, na cirurgia em que o material é retirado e em como ele é preparado no laboratório de patologia”, afirma Rosa.
Informação
Folha de São Paulo



