Atos de rua por Lula misturam fã-clubes, nativos digitais e mobilização fora de partidos

A mobilização da esquerda nas ruas no segundo turno da eleição presidencial mexeu com o cenário da disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) e surpreendeu o meio político após uma campanha que parecia apagada ao longo do primeiro turno.
A movimentação veio de grupos organizados, mobilizados pela internet, que entraram em cena após Flávio ser o mais votado no último dia 4 e passaram a pedir votos para o candidato petista, conseguindo reacender a campanha do PT nas ruas. Parte expressiva da iniciativa veio de grupos de jovens.
Na avenida Paulista, no último domingo (11), o presidente Lula chegou a fazer um agradecimento específico a fandoms, fã-clubes de artistas pop, que articularam online as manifestações.
“Não estão inventando nada, é uma apropriação de uma estratégia que começou lá atrás, na campanha do ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama e que foi muito bem utilizada pela extrema direita brasileira ao longo da década passada, de criar estereótipos e reducionismos que ajudam a multiplicar a adesão na internet”, diz Angela Alonso, professora do Departamento de Sociologia da USP, ex-presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e colunista da Folha.
A professora diz que os jovens sempre tiveram um papel importante nas manifestações de rua, por serem mais esperançosos e também por terem, em geral, mais disponibilidade.
As duas principais manifestações ocorreram em São Paulo, no domingo, e na segunda-feira (12), na praia de Copacabana, no Rio. Atos menores se espalharam por capitais e por dezenas de cidades, e o grupo político de Flávio revidou, articulando um comício na Paulista, marcado para este domingo (18).
“O que a gente tem visto é um movimento que não é do PT ou dos partidos da campanha, é uma mobilização que começou fora desses grupos e tomou a rua com a intenção declarada de evitar a vitória de Flávio Bolsonaro e os riscos que eles enxergam nisso”, afirma Beto Vasques, diretor de relações institucionais do Democracia em Xeque.
Para Vasques, as manifestações marcam um início do debate eleitoral para boa parte da população. “Houve um bloqueio cognitivo no primeiro turno, em que o debate ficou mais concentrado nas denúncias do Banco Master, nas suspeitas sobre integrantes do Supremo Tribunal Federal e na questão sobre a retirada ou não do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida”, diz.
Coordenadora da graduação em sociologia e política da Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), a professora Tathiana Chicarino enxerga semelhanças entre as manifestações deste ano e os atos de junho de 2013. Entre elas, a mobilização com muitas origens e não centralizada em uma pessoa ou uma coordenação única.
“Muitos movimentos que estão na rua agora, como o Passe Livre, estavam à esquerda do PT. Mas, se antes eles estavam fora da política institucional, agora eles estão discutindo como participar de um processo eleitoral e do que vem depois”, compara.
Ela lembra que muito da indignação da década passada acabou sendo absorvida pela direita e ganhou força com os movimentos pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o avanço das investigações da Operação Lava Jato e a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Hoje, segundo Tathiana, o movimento de jovens de esquerda é menos refratário ao PT e a Lula inclusive por causa do saldo dos governos Michel Temer (MDB) e Bolsonaro.
Ela lembra que o PT e seus principais líderes tradicionais tiveram sua formação política antes da disseminação da internet e ainda pensam a mobilização e trabalham de forma analógica. “Neste segundo turno, temos um maior protagonismo de políticos que são nativos digitais, como a Ana Elisa (PT-MG) e o Guilherme Cortez (PSOL-SP), por exemplo”, diz.
Tathiana cita o sociólogo espanhol Manuel Castells para explicar a complementariedade das mobilizações digitais e as manifestações de rua. “Ele já enxergava desde o começo deste século que são ações que se somam, na criação de um espaço híbrido”, argumenta.
Para a professora, o assunto tem mais relevância neste momento, em que o ambiente digital é dominado por plataformas e grandes empresas que controlam a circulação de informações no ambiente digital. Por isso, a atuação na rua tornaria mais fácil o acesso a pessoas que não estão “na mesma bolha”.
Professora de história do Brasil da Unifesp (Universidade Federal do Estado de São Paulo), Edilene Teresinha Toledo faz um paralelo com manifestações em outros momentos históricos, inclusive com a participação de jovens junto a outros grupos sociais.
“Tivemos um movimento de frente ampla, com um papel central do PT, na época das Diretas-Já, da primeira campanha presidencial depois da redemocratização, em 1989 [quando Lula foi derrotado por Fernando Collor] e no movimento dos caras pintadas pelo impeachment do Collor”, exemplifica.
Folha de São Paulo


