Política

Candidatos novatos tentam enfrentar peso das emendas no Nordeste com redes sociais e voto ideológico

Era início de setembro quando o vereador em Salvador, Sandro Filho (PP), surgiu trajando uma roupa de mergulho na baía de Todos-os-Santos. Seu objetivo, afirmou em um vídeo que circulou nas redes, era fiscalizar a instalação das vigas da plataforma provisória para construção da ponte Salvador-Itaparica.

O jovem de 21 anos é candidato a deputado federal e tem percorrido a Bahia para gravar vídeos em tom crítico ao governador Jerônimo Rodrigues (PT). Quase sempre está vestido com um colete à prova de balas e acompanhado por sua equipe de redes sociais.

Nesta campanha, o vereador encontrou no advogado Marinho Soares (PSB) o seu antípoda. Candidato a deputado estadual, ele circula com um simulacro de colete balístico formado por livros e não perde uma oportunidade de fustigar Sandro Filho: “Vá estudar, menino”, costuma repetir.

Com posições claras à direita e à esquerda, os dois candidatos enfrentam um desafio semelhante nesta eleição: romper um voto para o Legislativo embalado pelo apoio de prefeitos e por recursos de emendas parlamentares, modelo que ganhou tração nas últimas eleições nos estados do Nordeste.

Esta dinâmica se aprofundou com a adoção das emendas impositivas, na qual a execução dos recursos passou a ser obrigatória, e também com o aumento da fatia do orçamento destinado às emendas, que chegou a R$ 61 bilhões este ano.

O modelo ganhou tração no governo Jair Bolsonaro (PL), período em que foram turbinadas as emendas do relator, e continuou no governo Lula com as emendas de comissão. As modalidades foram questionadas pelo STF (Supremo Tribunal Federal) pela falta de transparência e critérios técnicos.

De um lado, os gestores municipais apoiam parlamentares que levam recursos às cidades, enquanto os deputados apresentam a execução das obras como resultado de seus mandatos.

“É estratégico e até racional que os prefeitos apoiem parlamentares que destinam recursos para suas cidades. Isso acontece no Brasil em geral, mas olhando para o Nordeste, grande parte dos municípios é dependente de repasses federais, e as emendas fazem diferença”, avalia o cientista político Vitor Sandes, professor da Universidade Federal do Piauí.

Para romper com essa dinâmica, os novatos apostam em um voto mais ideológico e veem as redes sociais como ponto de partida para a carreira política.

No Ceará, André Fernandes (PL) é um dos exemplos mais conhecidos. Antes de ser deputado, tornou-se conhecido nas redes sociais, construindo uma base digital ligada a pautas conservadoras. Agora, reúne multidões de jovens na periferia da capital cearense durante a campanha.

Na esquerda, despontam na disputa para a Assembleia Legislativa nomes novos como Léo Suricate (PSOL) —criador de conteúdo de humor ligado à periferia de Fortaleza— e o vereador em Fortaleza Gabriel Biologia (PSOL), ambos com forte presença nas redes sociais.

Em Pernambuco, o historiador Jones Manoel (PSOL) também leva para a disputa eleitoral uma audiência construída fora das estruturas tradicionais —ele ganhou notoriedade como influenciador no campo da esquerda e tem cerca de 2 milhões de seguidores só no Instagram.

Ao mesmo tempo em que produz conteúdos para as redes, Jones tem percorrido o estado para dar capilaridade à sua candidatura.

Em agosto foi à cidade de Salgueiro, no sertão central de Pernambuco, visitou uma comunidade junto ao açude da Barriguda e conversou sobre problemas de infraestrutura, saneamento básico e acesso à água.

Mas a tarefa de conquistar votos na região não será fácil. Nos últimos quatro anos, Salgueiro foi palco de uma batalha particular entre os deputados federais Fernando Coelho Filho (União Brasil) e Pedro Campos (PSB), cuja relação com líderes locais foi turbinada com recursos de emendas.

Fernando Filho destinou R$ 3,7 milhões para a gestão do prefeito Fábio Lisandro (PSD). Pedro Campos, próximo ao ex-prefeito Marcones Sá (PSB), levou R$ 1,9 milhão para a cidade, além de tratores doados a associações de agricultores da zona rural.

A disputa em Salgueiro é um microcosmo de outras tantas que vão se repetir em cidades do interior do Nordeste, onde a campanha para o Legislativo é embalada por recursos de emendas parlamentares e cidades se dividem entre os nomes indicados pelos líderes locais.

Em Salgueiro, epicentro de grandes obras como a transposição do Rio São Francisco e a ferrovia Transnordestina, são as pequenas intervenções nos bairros e comunidades que fazem a diferença na hora do voto.

No bairro Cohab, em Salgueiro, ruas de terra foram calçadas com paralelepípedo e outras foram cobertas por um asfalto trincando de novo. Sentada em uma cadeira na porta de casa, onde vive com o filho de 13 anos, a doméstica Simone Barros, 43, comemora a nova pavimentação do bairro.

Sobre as eleições, diz que seu único voto convicto é no presidente Lula (PT). Para os demais cargos, é pragmática: gosta de João Campos (PSB), mas deve votar em Raquel Lyra (PSD) por ser aliada do prefeito. Para deputado, votará no candidato que o gestor da cidade indicar —ele apoia Fernando Filho, o dono das emendas que custeou as obras no bairro.

Na zona rural, o agricultor Manuel dos Santos Pereira, 54, trabalha em uma área irrigada beneficiada pelas águas da transposição do rio São Francisco. Ele conta que começou recentemente a utilizar o sistema de abastecimento e já conseguiu colher uma primeira safra de melancia.

A associação de agricultores local recebeu um trator por meio de emenda do deputado federal Pedro Campos. O agricultor segue em dúvida sobre seu voto, mas afirma que líderes locais apoiam o deputado do PSB, em retribuição à doação dos equipamentos para a comunidade.

As entregas de obras e equipamentos estão no centro das campanhas de diversos candidatos ao Congresso, onde a ideologia e o alinhamento com a eleição nacional ficam em segundo plano.

Presidente da Câmara entre 2021 e 2024, o deputado federal Arthur Lira (PP) disputa o Senado ancorado nos recursos que despejou nos municípios alagoanos.

Na Bahia, o senador Angelo Coronel (Republicanos) se gaba de ter enviado emendas para todos os 417 municípios do estado. Foi desta forma que ele conquistou o apoio de prefeitos que fazem parte da base do governador Jerônimo Rodrigues (PT), hoje adversário.

Esses apoios cruzados têm marcado a campanha no Nordeste, com prefeitos que apoiam simultaneamente grupos adversários, de olho no acesso a diferentes fontes de recursos.

Em Pernambuco, parte dos prefeitos apoiam simultaneamente o lulista Humberto Costa (PT) e o bolsonarista Mendonça Filho (PL), ambos adversários na disputa pelo Senado.

Prefeito de Morro Cabeça no Tempo (PI), Josué Alves (PP) foi além. Ele apoia a reeleição do senador Ciro Nogueira (Progressistas) e se dividiu quanto à segunda vaga: vai com o deputado Júlio César (PSD) na zona urbana e com o senador Marcelo Castro (MDB) na zona rural.

A tendência é de um alto índice de reeleição para o Legislativo, sobretudo nos estados menores, onde há menos cadeiras em disputa para a Câmara dos Deputados. A redução da fragmentação partidária também deve turbinar ainda mais os partidos do centrão, aponta Vitor Sandes.

“A expectativa é de crescimento dos partidos que têm essa perspectiva de uso de emendas de maneira massiva. E quanto mais deputados federais, mais acesso ao financiamento de campanha, o que já entra no cálculo dos políticos para as eleições para prefeito, daqui a dois anos”, avalia.

Folha de São Paulo

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo