Política

Carta golpista de Flávio busca manter agenda bolsonarista em pauta, avalia cientista política

A carta com aspirações golpistas do senador e candidato derrotado à Presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro (PL), é uma tentativa de manter a agenda bolsonarista em evidência, após a derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nas eleições de 2026. Essa é a avaliação da cientista política Priscila Lapa, em entrevista ao Conexão BDF, da Rádio Brasil de Fato.

“O objetivo principal está sendo cumprido, que é pautar essa agenda, contrapor a derrota do Flávio Bolsonaro e a vitória de Lula. Internamente está pacificado, não há nada que possa impedir a diplomação dos eleitos. Do ponto de vista externo, vários países reconheceram. A Argentina não tem relevância nesse sentido. Mas isso deve criar um problema maior nas relações com os EUA e precisamos ver como a diplomacia brasileira vai lidar com isso”, afirmou Lapa.

A presidenta do Psol, Paula Coradi, avalia que a carta é parte de uma estratégia golpista que já estava pensada e que, se não fosse a extensão da votação, os bolsonaristas iriam criar outra desculpa.

“A família Bolsonaro tem no seu DNA o golpismo. Então é a mesma forma de reagir, como a do pai em 2022. Existe uma tentativa contínua de golpe no Brasil, de ataque à democracia, e o resultado eleitoral de domingo não deixa qualquer dúvida: foram 4,4 milhões de votos de diferença. Mas eles insistem que os 34 mil fariam diferença. Eles não esperavam que nós tivéssemos a capacidade de construir a onda que foi construída no segundo turno e ficou intensificada na reta final. Não seria uma novidade esse tipo de comportamento. Eles têm desprezo pela democracia. É um delírio, mas precisamos ficar atentos”, ressalta.

Para Priscila Lapa, esse movimento não deve se prolongar muito tempo, mas é preciso uma resposta firme das instituições brasileiras, para evitar que o golpismo se fortaleça novamente e produza atos como os do 8 de janeiro de 2023. E a carta golpista busca fortalecer o mesmo entendimento daquele momento: de que houve fraude nas eleições.

“Precisamos de uma reação das instituições à altura. É preciso também fortalecer a atuação contra crimes dessa natureza. É inadmíssível a gente aceitar isso em um mundo civilizado. Não podemos compactuar com esse tipo de postura”, afirma.

A cientista política ressalta, porém, que não se pode ridicularizar a ação bolsonarista.

“Não dá para tratar essas coisas mais de um ponto de vista que não é possível que aconteça. Tudo que a gente imaginou que não era possível, com o bolsonarismo aconteceu. Não tem hipótese descartada quando falamos de até onde os bolsonaristas podem ir na busca por poder. Não é descartável que haja uma insistência nisso, que se tente derrubar a institucionalidade a partir da atuação dos EUA”, pondera Lapa.

Em nota, a bancada do PL no Congresso manifestou “total apoio à carta de Flávio Bolsonaro”.

Lapa avalia que o fiel da balança dessa tentativa de golpe de Flávio Bolsonaro será a atuação do presidente dos EUA, Donald Trump. “Flávio Bolsonaro faz isso de forma orquestrada, mas precisa saber o quanto existe de atuação dos EUA. É uma tentativa de forçar o governo brasileiro a negociar os interesses dos EUA em uma condição mais subserviente devido a essa situação”, explica.

Pouco depois da divulgação da carta, Trump deu novas declarações sobre a eleição brasileira, dizendo que achou o pleito “muito estranho”, mas que não iria se envolver. “Achei terrível. Recebeu críticas muito ruins. É só olhar o que aconteceu com o mercado deles”, disse o presidente dos EUA.

“Se eu aprovaria [a vinda do Flávio Bolsonaro aos EUA]? Sim, aprovaria, estaria ok por mim. É tão terrível dizer isso. Não escolho lados [nas eleições]. Eu conheço os dois, conheço Lula. Flávio eu conheço um pouco. Eu conheci muito bem o pai dele. O pai foi tratado muito mal. Mas isso é o Brasil, é outro país”, continuou Trump.

A carta

O primeiro documento divulgado por Flávio Bolsonaro trazia um antigo Brasão da República, com o nome de “Estados Unidos do Brasil” e ele se proclamava “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. O documento foi corrigido pouco tempo depois.

No documento, Flávio Bolsonaro agradece a Trump e ao presidente argentino Javier MIlei, por terem contribuído para a fuga dele do Brasil, onde responde a ações judiciais e é investigado em outros inquéritos.

Chamando o governo brasileiro de “regime”, a carta golpista cita a prorrogação do horário de votação nas eleições como prova de fraude eleitoral. Flávio Bolsonaro omite que a campanha dele também pediu a prorrogação do tempo de votação.

Também diz que a decisão judicial que cassou seus passaportes foi uma ação de “perseguição política”, novamente omitindo fatos, como as investigações sobre os R$ 61 milhões recebidos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, supostamente para financiar o filme Dark Horse, e os negócios com o advogado Willer Tomaz, com quem o senador mantinha uma conta conjunta.

A carta golpista é concluída com uma tentativa de mobilização dos apoiadores extremistas de Flávio Bolsonaro. “Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil”, diz o documento.




Brasil de Fato

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