como Ceará virou epicentro da crise do clã Bolsonaro

A três meses das eleições, a composição dos palanques ao governo do Ceará foi alçado ao centro da queda de braço da família Bolsonaro. Na busca por tirar o PT de Elmano de Freitas do poder, o PL passou a articular apoio ao ex-governador Ciro Gomes (PSDB), com as bençãos do senador Flávio Bolsonaro e sob críticas de Michelle Bolsonaro.
A insatisfação da ex-primeira-dama, que já havia sido exposta em evento em Fortaleza no ano passado, culminou no vídeo de anteontem, quando ela criticou o enteado, o ex-ministro e reforçou apoio à candidatura de Eduardo Girão (Novo) ao Palácio da Abolição e à ex-deputada Priscila Costa ao Senado.
A esquerda, por sua vez, não passou ilesa das disputas familiares. Atrás de Ciro nas pesquisas, o campo petista tenta fortalecer a chapa de Elmano pressionando o senador Cid Gomes (PSB) a disputar a reeleição para antagonizar com o irmão, com quem rompeu após desentendimento em 2022.
Ferramenta do InfoMoney
Baixe agora (e de graça)!
Elmano busca a sexta vitória consecutiva da esquerda, mas aparece estacionado na faixa dos 30% nas pesquisas de intenção de voto, atrás de Ciro Gomes. O ex-governador se filiou ao PSDB em outubro e busca consolidar uma chapa, cuja composição ainda não foi anunciada, que una a oposição ao petismo no estado.
Apesar do apoio do PL, Ciro vem buscando se esquivar da nacionalização da campanha e descarta dar palanque para Flávio — no Ceará o presidente Lula teve 69,7% no segundo turno de 2022. A campanha do tucano planeja explorar pautas como saúde e segurança pública para a atacar gargalos da gestão de Elmano. Ontem, ele evitou falar sobre o vídeo de Michelle.
— Não vi o vídeo e nem vou ver. É uma questão do PL nacional e envolve coisas muito mais complexas do que a nossa paróquia aqui. Eu sigo aqui tranquilo. O eixo do nosso entendimento aqui é um projeto de emancipação do Ceará que nós consideramos que está sendo muito mal tratado.
Ciro deve ter o ex-deputado Capitão Wagner (União) como candidato ao Senado. A outra vaga está sendo negociada com o PL, mas a resistência de Michelle à aliança é um obstáculo. Ela rechaça o apoio a Ciro devido a críticas feitas ao ex-presidente Jair Bolsonaro no passado. Por ser a favor de Girão, Michelle foi chamada de “autoritária” por Flávio, o que escalou a crise na família.
Racha no bolsonarismo
Com apoio de Flávio, o PL costura a candidatura do deputado estadual Alcides Fernandes, pai do presidente estadual do partido, André Fernandes, ao Senado. Alcides e pastor, segmento que o partido foca nas eleições estaduais. Já Michelle defende Priscila Costa, também evangélica, vice-presidente do PL Mulher e uma de suas principais aliadas.
Em vídeo publicado na quarta-feira, Michelle disse que Costa teve papel central na campanha de André Fernandes à prefeitura de Fortaleza, mas “o que recebeu em troca é revoltante”. Um dia antes da publicação do vídeo, o presidente estadual do PL disse à mídia local que a ex-primeira-dama poderia “fazer o que ela quiser”, mas não mudaria o apoio da sigla a Ciro Gomes.
Continua depois da publicidade
— O que aconteceu depois foi que, aproveitando-se da prisão do Jair (Bolsonaro), começaram a trabalhar para eliminar a Priscila da disputa, cedendo a vaga dela para garantir uma aliança com Ciro Gomes. Se o André queria agradar o Ciro Gomes, por que ele não ofereceu a vaga do seu próprio pai? Será que ele acha que retirar a vaga de uma mulher seria mais justo e fácil? — disse Michelle.
O PL do Ceará espera a participação de Flávio e Michelle em evento no mês que vem, quando lançarão as candidaturas ao Senado.
Aposta nos padrinhos
Enquanto opositores o acusam de não ter uma marca própria à frente do Executivo, Elmano aposta na presença de padrinhos políticos na campanha: o presidente Lula e o ex-governador Camilo Santana (PT), que deixou o Palácio da Abolição em 2022. Camilo, inclusive, aparece à frente de Ciro nas pesquisas, mas o PT nega a possibilidade de ele substituir Elmano nas urnas. O grupo político deseja ter Cid como candidato ao Senado para antagonizar com o irmão Ciro.
Continua depois da publicidade
Ciro e Cid Gomes estão afastados há cerca de três anos, após discordarem sobre quem deveria ser o candidato do PDT, partido que integravam, no pleito estadual de 2022. O senador defendia a continuidade da então governadora Izolda Cela, que assumiu o cargo após a saída de Camilo para disputar as eleições. Já Ciro bancou a candidatura do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio.
O objetivo de Ciro era ter um palanque no estado em sua campanha ao Planalto, quando disputou com Lula. O PT, que defendia a candidatura de Izolda, rompeu com o PDT e lançou Elmano. O petista teve 54,02% dos votos, e o aliado de Ciro, 14,14%.
Com a presença de Cid na chapa, o PT deseja utilizar esse antagonismo familiar para fortalecer Elmano. Mas o senador resiste, mesmo com a pressão pública da irmã, a deputada estadual Lia Gomes (PSB). Ele afirma ter um compromisso firmado com o deputado Junior Mano para que ele seja o candidato do PSB ao Senado.
Continua depois da publicidade
A defesa da candidatura do aliado também é justificada por Cid pelo apoio angariado por Junior Mano entre prefeitos — mais de 40 já se comprometeram a atuar na campanha. A segunda vaga da chapa de Elmano ao Senado deve ser distribuída para outro partido da base do governo.
Infomoney



