Política

Como PL e PT investem pesado para ampliar bancadas no Senado

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Desde antes do início da campanha, os principais líderes políticos vinham batendo na tecla de que a batalha pelo controle do Senado a partir de 2027 era questão central nas eleições deste ano. Nos dias que antecederam à votação, e diante da deterioração do quadro institucional no país, o discurso ganhou tração, tanto à esquerda quanto à direita. “Não temos mais idade para brincar. O que está em jogo é muito sério. Se não fizermos maioria no Senado, a gente corre o risco de esse país entrar numa crise sem precedentes”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 23, no Rio de Janeiro, exortando militantes de esquerda a abraçarem o aliado Pedro Paulo (PSD) na corrida ao Senado. Dias depois, seu maior rival, Flávio Bolsonaro (PL), ratificou a importância da união da direita ao agradecer a Ricardo Salles (Novo) por desistir da disputa em São Paulo e apoiar Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL), que travam duelo acirrado com Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), candidatas de Lula. “É importante eleger dois senadores de direita, e Salles está dando esse passo para o lado. Eu espero que esse gesto dele seja replicado em outros locais”, disse.

A prioridade dada ao Senado pelas duas correntes hegemônicas da política nacional não está só no discurso. Levantamento feito por VEJA com base nas prestações de contas feitas pelos partidos ao Tribunal Superior Eleitoral mostra que o PT de Lula e o PL de Flávio são as siglas que mais estão investindo recursos do fundo eleitoral nas campanhas ao Senado. O PL lidera com ampla vantagem, com mais de 100 milhões de reais gastos com essas candidaturas, quase um quarto dos 465 milhões de reais direcionados por todos os partidos e bem à frente do segundo colocado, o PT, que despendeu 57,2 milhões (veja o quadro). Somadas, as duas legendas têm catorze das vinte candidaturas ao Senado mais caras da atual campanha — só o PL tem dez.

CAIXA – Gleisi: PT destinou 4 milhões de reais à campanha de sua ex-presidente (@Gleisihoffmann/Facebook)

Motivos não faltam para o empenho dos dois partidos que lideram a polarização no país. O Senado vai renovar dois terços de suas cadeiras (54 de 81) e o desenho de seu perfil influenciará decisivamente o xadrez político nacional. Como Lula lembrou no Rio, não é pequena a possibilidade de ele ser reeleito e ter de enfrentar um Senado presidido por um bolsonarista, já que o PL é competitivo na maioria dos estados em que disputa o Senado e favorito em boa parte deles.

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A principal fonte da cobiça pelo Senado, no entanto, são as prerrogativas que a Casa tem em relação ao Supremo Tribunal Federal. Do lado bolsonarista — que tem hoje a maior bancada, com quinze cadeiras, mas está longe de ter maioria — , o impeachment de ministros é um dos principais motes de campanha, explorado à exaustão na reta final da campanha. Isso ocorre na esteira das suspeitas envolvendo as relações de membros da Corte com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, em especial Alexandre de Moraes, de longe o maior alvo do bolsonarismo desde que relatou o processo que levou à prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro e centenas de pessoas acusadas de tentativa de golpe entre o final de 2022 e o início de 2023 — não por acaso, a pauta da direita no Senado também inclui a busca da anistia total aos condenados. “O plano do PL é ter senadores para emparedar o STF e aprovar com folga a anistia, enquanto o PT, sem condições de controlar a Câmara, busca no Senado um anteparo mínimo contra as agendas da direita”, explica Eduardo Grin, cientista político da FGV-SP.

Infográfico sobre gastos de campanha para o Senado. O PL lidera com 100,3 milhões de reais, seguido por PT (57,2) e MDB (53,4). Dentre as 20 campanhas mais caras, 14 são do PL e PT. André do Prado (PL-SP) gastou 7 milhões, Simone Tebet (PSB-SP) 6,6 milhões e Geraldo Rufino (Podemos-SP) 6,5 milhões

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Responsável por sabatinar e aprovar os indicados do Planalto ao STF, o Senado também terá papel estratégico em manter ou transformar drasticamente o perfil da Corte, hoje composta majoritariamente por ministros indicados pelo PT. Com a vaga de Luís Roberto Barroso ainda em aberto e três ministros (Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes) às vésperas da aposentadoria por idade, o próximo presidente terá a chance de emplacar nada menos que quatro aliados no Supremo. O sucesso, no entanto, dependerá do apoio entre os senadores — o que ficou claro em abril deste ano com a histórica rejeição de Jorge Messias, aliado de Lula, o primeiro nome vetado ao cargo em mais de 130 anos.

A tropa de choque de PT e PL que estará nas urnas não é desprezível. A sigla de Flávio Bolsonaro tem 33 candidatos envolvidos nessa disputa, com um gasto médio de 3,2 milhões por candidatura, enquanto a legenda de Lula terá dezenove competidores, com um investimento de 2,9 milhões em média cada um. Entre os nomes nos quais as legendas apostam estão pesos-pesados, como a ex-primeira-­dama Michelle Bolsonaro, no Distrito Federal, e o ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL), dois dos mais comprometidos soldados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Do lado do PT, a infantaria tem nomes como a ex-presidente do partido Gleisi Hoffmann, no Paraná; o ex-ministro Rui Costa, na Bahia; e a ex-governadora Benedita da Silva, no Rio de Janeiro. De resto, a ofensiva conta com aliados importantes em outras legendas, como o deputado Guilherme Derrite (PP), em São Paulo, e Marcel van Hattem (Novo), no Rio Grande do Sul — ambos pela direita —, o senador Cid Gomes (PSB), no Ceará, e Helder Barbalho (MDB), no Pará — pela esquerda —, todos eles liderando a corrida ao Senado em seu estado na reta final.

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TROPA - Derrite: nome estratégico da direita ganhou apoio de rival em São Paulo
TROPA - Derrite: nome estratégico da direita ganhou apoio de rival em São Paulo (@guilhermederrite/Instagram)

A definição da composição do Congresso será decisiva para o país, não apenas a partir de fevereiro de 2027, quando os novos eleitos tomarão posse. Já definido o desenho da Câmara e do Senado com o encerramento da votação, é quase certo que a perspectiva futura de poder comece a dar o tom já no andamento das pautas que o governo Lula gostaria de ver tocadas logo após o fechamento das urnas, como o fim da escala de trabalho 6×1, a PEC da Segurança Pública e a medida provisória que baniu as bets no país (veja a reportagem na pág. 48).

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Terminada a corrida eleitoral pelas cadeiras do Senado, começará uma outra disputa, tão renhida quanto, pela cadeira mais importante da Casa. A depender do resultado das urnas, o presidente Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), já enfraquecido por suspeitas de relação imprópria com Daniel Vorcaro, reveladas por VEJA, ligará o “modo sobrevivência”, pensando na eleição em que tentará renovar seu posto, em fevereiro de 2027. Se a direita bolsonarista triunfar com larga margem na eleição, é certo que esse grupo terá um candidato fortíssimo ao posto, como o senador Rogério Marinho (PL-RN), hoje coordenador da campanha de Flávio. O cargo, um dos mais poderosos da República, concentra a atribuição de definir a pauta de votação — inclusive, de pedidos de impeachment e de CPI — , além de ter a competência exclusiva de convocar sessões do Congresso para avaliar vetos do Planalto a projetos de lei. A proximidade de Alcolumbre com o governo Lula e ministros do STF, bem como sua indisposição para pôr em votação pedidos de impeachment e anistia, desagrada ao PL e a boa parte da direita que deve emergir das urnas.

ESFORÇO - Tebet: a ex-ministra é aliada importante de Lula em plano para conquistar maioria no Senado
ESFORÇO - Tebet: a ex-ministra é aliada importante de Lula em plano para conquistar maioria no Senado (Campanha Simone Tebet/.)
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Historicamente, o Senado sempre foi conhecido por ser uma arena com políticos mais experientes e, em razão disso, um ringue de debates mais austero, em contraposição à agitação que marca os embates na Câmara. Dos sete presidentes eleitos desde a redemocratização, quatro (José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso) ocuparam cargos no Senado antes da Presidência ou depois de deixá-la. De suas cadeiras também saíram alguns dos quadros mais competitivos para as eleições federais nas últimas décadas, como Aécio Neves, José Serra e Flávio Bolsonaro. O Senado também foi a arena que aprovou o impeachment de dois presidentes da República (Fernando Collor e Dilma Rousseff) e que emparedou João Goulart ao impor-lhe o parlamentarismo em 1961 e declarar vago seu cargo durante a intentona militar que consolidou o golpe de 1964.

A disputa pelo Senado ganhou relevância também pela incerteza que predomina na atual corrida presidencial, com a briga apertada entre Lula e Flávio. Para o PT e o PL, a Casa Alta será o front onde ocorrerão algumas das principais batalhas do próximo mandato, independentemente de o partido estar no governo ou na oposição. A preocupação agora é ampliar o tamanho de suas trincheiras.

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015

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