Política

Congresso amplia presença feminina, mas vê avanço antifeminista

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A cada quatro anos, o Congresso bate um novo recorde de presença de mulheres em um processo que começou no século 20 com Bertha Lutz, principal líder do movimento sufragista brasileiro. Neste ano, elas são 21% da Câmara dos Deputados e 22,2% do Senado.

Mas há um fator interessante: apesar de poderem ser eleitas devido à luta do movimento feminista, cresce o número de representantes que se consideram antifeministas e fazem oposição aos direitos conquistados pelas mulheres, como o voto.

Em 8 de março, a Assembleia de Santa Catarina sediou o primeiro Congresso Antifeminista, com estudos sobre o feminismo e as igrejas católica e protestante. Uma das palestrantes foi a deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC), católica ultraconservadora que bateu o próprio recorde de votos no domingo (4).

Na campanha, ela apoiou outras candidatas com as mesmas ideias. Em vídeo no Instagram, indicou a deputada estadual mais votada de São Paulo, Eduarda Campopiano (PL), a paulistas que queriam votar em uma antifeminista. “A dupla que é o terror das feministas”, dizia a publicação.

Campopiano se coloca como a maior inimiga das feministas, defende a criminalização do aborto, é contra a lei antimisoginia e faz falas contra mulheres transexuais.

As duas contaram com o apoio de influenciadoras católicas, como Pietra Bertolazzi —conhecida por participar do reality Power Couple Brasil e por ser comentarista da Jovem Pan. Em julho, ela viralizou com vídeo contra o voto feminino e a distribuição gratuita de absorventes.

O movimento cresce desde 2018, segundo pesquisa do Observatório Nacional da Mulher na Política e da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), publicada neste ano. O estudo analisou deputadas federais entre 1998 e 2022.

Segundo as pesquisadoras, a bancada feminina passou do predomínio do centro, em 1998, e da esquerda, nas duas décadas subsequentes, à ascensão da direita a partir de 2014.

Impulsionada pelo bolsonarismo, a direita ultrapassou a esquerda pela primeira vez nas vagas ocupadas por mulheres em 2018, quando também se projetaram defensoras de pautas antigênero e antifeministas, segundo a pesquisa.

Em 2023, dez deputadas federais desse grupo votaram contra o Projeto de Lei da Igualdade Salarial. Entre elas, as senadoras eleitas Bia Kicis (PL-DF) e Caroline de Toni (PL-SC).

A partir de 2027, a composição da bancada feminina no Congresso continua sendo liderada pela direita, mesmo que as bancadas femininas da Câmara e do Senado tenham sido menos à direita que o conjunto de parlamentares.

Mulheres brasileiras já se posicionaram contra o feminismo antes, como as Blusas Verdes, ala feminina da Ação Integralista Brasileira. O grupo se opôs ao sufrágio feminino, conquistado no mesmo ano, e à maior presença das mulheres no espaço público, mas não alcançou a proporção atual.

Nos Estados Unidos, cresce o esforço de pesquisadores para explicar mulheres antifeministas e conservadoras que são contra os próprios direitos.

No livro “Pink-Pilled: Women and the Far Right” (Manchester University Press, 2025), Lois Shearing descreve a radicalização de mulheres por outras mulheres. O termo contrapõe-se ao “red pill“, associado à radicalização masculina. Segundo a autora, o processo explora queixas como exaustão, solidão e violência sob a roupagem de acolhimento e comunidade.

Entre as portas de entrada, Shearing cita o movimento “tradwife“, que apresenta o papel de dona de casa como refúgio, e a transfobia, que atrai mulheres progressistas. Também aponta a desconfiança no sistema de saúde, alimentada por casos de misoginia médica.

No Brasil, o tema inspirou o livro “Mulheres e extrema direita no Brasil” (Elefante, R$ 66,00, 112 págs.), de Christina Vital da Cunha e Jacqueline Moraes Teixeira. Elas explicam como se construiu a ideia de que o feminismo ameaça a família para mobilizar brasileiras contra o movimento.

Entre as diversas publicações que estudam as novas agentes na política, o mais importante parece ser perceber que as mulheres não estão sendo influenciadas exclusivamente por homens ou pela religião, mas têm seus próprios desejos e partem de insatisfações reais.


Uma mulher para conhecer

Laélia de Alcântara (1923-2005)

Neste ano, não foram eleitas senadoras negras, então trouxe a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no Senado brasileiro para você conhecer. Laélia de Alcântara nasceu em Salvador, formou-se em medicina no Rio de Janeiro e se mudou para o Acre, onde construiu carreira como médica obstetra. Chegou ao Senado aos 57 anos, sem nunca ter ocupado outro cargo político, ao assumir como suplente do senador Adalberto Sena, em abril de 1981, ainda durante a ditadura militar.

Laélia permaneceu no Senado primeiro por quatro meses e, após a morte do titular, assumiu definitivamente até o fim do mandato, em janeiro de 1983. Na tribuna, denunciou o racismo em uma época em que a ditadura difundia a ideia de que o Brasil vivia uma “democracia racial”. Também defendeu o combate à fome e ao trabalho infantil, a demarcação de terras indígenas, a preservação ambiental e o acesso gratuito à saúde. A senadora também levou ao Congresso pautas de igualdade entre homens e mulheres.

Folha de São Paulo

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