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Conheça a brasileira destaque em lista sobre IA da Time – 07/10/2026 – IA


São Paulo


O uso de modelos de código aberto e a ampliação da capacitação tecnológica para grupos sub-representados no setor são apostas para tornar o mercado de inteligência artificial menos dependente de um grupo restrito de corporações estrangeiras e mais inclusivo.

A posição é defendida por Veronyka Gimenes, travesti e cofundadora da Código Não Binário, organização que desenvolve tecnologias e atua na defesa de direitos digitais. A brasileira, conhecida como “Travahacker”, foi eleita pela revista Time uma das cem pessoas mais influentes no campo da IA em 2026.

A publicação destacou o trabalho de Gimenes e da cofundadora da organização, Amanda Claro, no desenvolvimento da TybyrIA, modelo de inteligência artificial de código aberto que identifica discurso de ódio online contra pessoas LGBTQIA+. O recurso permite analisar e classificar grandes volumes de mensagens publicadas nas redes sociais.

Mulher com cabelo longo preso em rabo alto, metade preto e metade grisalho, usa batom vermelho escuro e brincos de argola prateados. Veste blusa preta de tecido rendado, com fundo cinza neutro.

Veronyka Gimenes, conhecida como travahacker, é uma das cem pessoas listadas como mais influentes em IA pela Time em 2026

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Arquivo pessoal

A TybyrIA foi usada para produzir dados que embasam uma ação civil pública movida pela Código Não Binário e outras organizações contra empresas de tecnologia. A ação acusa Meta, Google, X (ex-Twitter) e ByteDance (dona do TikTok) de promoverem o ódio contra pessoas LGBTQIA+ e pede indenização de R$ 100 milhões contra as plataformas.

A ferramenta, porém, não foi criada apenas para o processo. O modelo pode ser usado para fins acadêmicos e incorporado a outros sistemas, inclusive às plataformas das big techs, para auxiliar na moderação de conteúdo.

“As inteligências artificiais dão esse poder de interpretação para as máquinas. Então, você pode embutir nosso sistema numa rede social, no buscador, pode criar uma extensão de navegador [que] embaça aquele tipo de conteúdo para que a pessoa não seja exposta àquilo”, explica Gimenes.

Para a programadora, o trabalho da Código Não Binário evidencia a falta de disposição das grandes empresas de tecnologia para enfrentar discursos de ódio nas redes. “Se a gente fez em poucas semanas um modelo de IA capaz de detectar esse ódio, por que não é feito pela big tech, que tem muito mais dinheiro, muito mais equipe?”.

O incentivo para a criação da TybyrIA veio em 2024, quando um corte de um podcast produzido pela Código Não Binário que discutia a identidade transmasculina “boyceta” viralizou nas redes e desencadeou uma onda de ódio contra pessoas trans nas redes.

A falta de regulação levou Gimenes e outras ativistas digitais a procurar formas de contornar os mecanismos das plataformas para remover conteúdos hostis a grupos minoritários.

“A gente precisa denunciar coisas como infração de direito autoral para conseguir derrubar um conteúdo, porque se você denuncia como discurso de ódio, não acontece nada.”

A relação de Gimenes com a tecnologia começou muito antes da inteligência artificial generativa. Nascida e criada no Cambuci, na região central de São Paulo, ela se aproximou dos computadores por meio dos videogames.

Aos poucos, passou a aprender programação para melhorar o desempenho das máquinas e conseguir executar jogos mais pesados. O interesse por hardware e redes veio em seguida. No início dos anos 2000, ainda adolescente, fez cursos de montagem e manutenção de computadores e cursou o ensino técnico em processamento de dados.

Na mesma época, aproximou-se da música eletrônica e das raves. Para ela, os dois universos se complementam. “Você tem um pouco de rave, um pouco de música eletrônica, um pouco de pessoa da programação, a visão da humanidade enquanto código”, diz, ao lembrar do filme “Matrix”, de 1999.

Formou-se em desenvolvimento de software pela FIAP (Faculdade de Informática e Administração Paulista), mas destaca aprendizados que teve fora da universidade, ao participar de movimentos de software livre, cultura digital e ativismo pelos direitos digitais.

Em 2014, na gestão do então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), desenvolveu, junto com outros programadores, a plataforma do plano diretor da capital paulista, com software livre e código aberto. Segundo Gimenes, a tecnologia permitiu digitalizar processos de outras secretarias e reduzir gastos públicos.

Em 2021, quando fez a transição de gênero, ela passou a repensar o próprio propósito com o desenvolvimento de tecnologia. “Você não tem como fazer uma transição sem questionar completamente a própria visão de mundo, sem questionar muitos sistemas éticos, morais.”

Foi nesse período que surgiu a Código Não Binário, fundada por Gimenes e Amanda Claro. A organização passou a combinar desenvolvimento de tecnologia, defesa de direitos digitais e formação de pessoas de grupos sub-representados no setor.

Para Gimenes, raça, classe e gênero são fatores que determinam a estrutura dos produtos digitais. “Para mudar o cenário de tecnologia, a gente precisa mudar quem está fazendo essa tecnologia, quais são as identidades, quais são as classes, quais são as raças das pessoas por trás da produção tecnológica.”

A organização oferece capacitação tecnológica e procura ampliar a participação de mulheres, pessoas LGBTQIAP+, pessoas negras e pessoas com deficiência.

É também por essa perspectiva que Gimenes critica tanto a dependência das big techs quanto a rejeição completa da inteligência artificial, defendida por alguns setores progressistas devido aos efeitos dos data centers e da expansão da IA.

Ela diz que tenta ocupar o espaço entre as duas visões. “A gente não está simplesmente criticando a IA e falando ‘não usem’. A gente está falando ‘olha, há alternativas’.”

A estratégia consiste em se apropriar do funcionamento das tecnologias e ampliar o acesso a ferramentas que não dependam das grandes plataformas, como os códigos abertos.

Modelos abertos permitem que desenvolvedores adaptem sistemas para necessidades específicas e, em alguns casos, executem as ferramentas em seus próprios computadores, sem a necessidade de grandes data centers.

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A desenvolvedora vê na expansão desses modelos uma forma de descentralizar a produção tecnológica e cita a China como exemplo importante desse movimento. Segundo ela, a estratégia do país trata a IA como infraestrutura para diferentes setores em vez de concentrá-la apenas em produtos comerciais.

Ao ampliar o acesso de mais pessoas à compreensão e produção de tecnologia, Gimenes diz buscar romper o que chama de colonialismo digital e fazer com que grupos que historicamente foram deixados de fora desse processo pensem e construam a inteligência artificial.

Folha de São Paulo

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