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Corte inédito na produção de energia preocupa usinas de cogeração no país



O corte de geração de energia (conhecido como “curtailment”) determinado pelo Operador do Sistema Nacional (ONS) em 7 de junho às usinas tipo 3, que incluem plantas de cogeração a partir de biomassa de cana-de-açúcar, teve impacto limitado na produção sucroalcooleira. Porém, as empresas, que já estavam preocupadas com esses episódios e suas consequências, não encontraram alento na experiência.
No dia 6, um sábado, o ONS avisou às 12 distribuidoras que elas teriam que reduzir a geração em 1 gigawatt (GW) no dia 7, das 10h às 14h. Coube a cada distribuidora alocar o corte entre suas usinas associadas e avisá-las um dia antes, como previsto no Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição do ONS entregue à Aneel.
Foi a primeira vez que o ONS acionou o plano de restrição de geração para usinas tipo 3. Até então, apenas usinas eólicas e fotovoltaicas sob controle direto do operador haviam sido submetidas a cortes. O curtailment tornou-se recorrente nos últimos dois anos às fontes eólica e solar principalmente devido ao avanço da geração micro e minidistribuída (MMGD), que começou a atender a demanda durante o dia, justamente no período em que a carga (consumo) é menor.
Mas os cortes nas usinas térmicas a biomassa não são tão simples como nas fotovoltaicas e eólicas. Há um receio no setor sucroenergético de que acionamentos do plano de corte prejudiquem o ritmo de moagem de cana e de produção de açúcar e etanol, além de gerar instabilidade operacional em seu sistema.
Como as usinas a biomassa utilizam a energia térmica da queima do bagaço da cana para gerar energia e vapor, que também são consumidos em suas próprias usinas, o receio é de que mesmo uma mera redução da geração já afete a geração de vapor e dificulte a manutenção do ritmo de moagem. O temor é maior com relação às usinas que não possuem turbinas de condensação, o que é a realidade da maioria do setor.
O Valor apurou que a maioria das usinas de cogeração a partir de bagaço de cana tiveram que obedecer a instruções de redução ou corte de geração no último dia 7. Circularam relatos de empresas que também tiveram que reduzir ou até suspender a moagem de cana como efeito colateral, mas os casos foram pontuais, segundo fontes do setor.
Somente a CPFL Paulista, por exemplo, acionou para o plano de corte 86 usinas, das quais 55 eram a biomassa. A Cemig também acionou todas as usinas com as quais tem contrato, de forma isonômica, segundo ela.
Uma das empresas que teve que reduzir sua produção foi a Tereos, mas companhia disse que não houve “prejuízos relevantes à produção de açúcar e etanol”.
Em nota, a companhia disse que, “nas cinco unidades em operação, não houve impacto expressivo decorrente do acionamento do plano”. A Tereos afirmou que já tem uma “estratégia de flexibilidade operacional” para adaptar sua produção e já vinha trabalhando com essa possibilidade, e que “suas equipes estavam preparadas para reorganizar as atividades ao longo do dia, considerando eventuais paradas temporárias, sem prejuízos relevantes à produção de açúcar e etanol”.
Adaptações
Mesmo usinas que não têm turbina de condensação conseguiram adaptar seus processos sem afetar a moagem. Foram os casos da Usina Alta Mogiana, que teve que paralisar toda sua geração nas quatro horas, da Usina Batatais, que teve que reduzir a energia injetada em 60%, e da Usina Ferrari, que também teve que reduzir a entrega de energia.
Embora o impacto para a maioria tenha sido limitado à energia que deixou de ser injetada no Sistema Integrado Nacional (SIN) e à consequente perda desta receita, as empresas estão preocupadas com possíveis novos episódios de curtailment.
“Na hora que eu não tenho mais exportação, tenho que trabalhar o gerador em uma menor carga, mas ainda tem que funcionar porque eu preciso de energia elétrica no processo, e preciso de menos vapor para a turbina, porque ela não está mais em sua potência nominal. E esse estágio não é estável”, afirma Newton Duarte, presidente da Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen).
“É como se você estivesse andando com um carro com tração nas quatro rodas, e de repente tivesse que continuar andando com uma roda travada, mantendo o carro em movimento e em equilíbrio até o destino”, compara Fábio Venturelli, CEO da São Martinho. O maior temor, segundo ele, é que a redução da geração provoque uma alteração em todo o sistema energético da usina. “Isso pode levara um acidente, uma fatalidade”.
“É bem contraproducente. Operacionalmente, pode ser um desastre”, diz Luiz Gustavo Junqueira, diretor comercial da Usina Alta Mogiana. “Uma usina, quando começa a moer, para ter ritmo de moagem, não pode parar. Exigir que a usina pare por algumas horas é muito contraproducente. Aí os custos de produção do açúcar e do etanol vão para a estratosfera”, diz.
Mesmo quando a usina consegue modular a geração, ela pode ter um problema com o excedente de bagaço de cana que se acumula. “Muitas vezes a usina não tem estrutura para guardar bagaço, e vai ter que achar comprador de uma hora para outra”, diz o usineiro. O mercado de bagaço, porém, é limitado, já que há poucos compradores, e não é eficiente vender para clientes muito distantes.
Há o risco ainda de que uma paralisação prolongada afete a própria receita da empresa. “Se a usina deixa de produzir açúcar e etanol e não atende os contratos, ela tem um problema de lucros cessantes”, alerta Duarte, da Cogen.
Para Alexandre Leite, sócio da área de energia do Dias Carneiro Advogados, o imbróglio é preocupante para as usinas a biomassa e não há solução à vista. “Para a cogeração, não tem previsão de reembolso [pela energia não vendida], só tem para as renováveis”, observa. Para ele, uma solução para o setor teria que passar por alterações legislativas.
As distribuidoras afirmam que apenas seguem ordens do ONS. “Entendemos que os prejuízos causados pela interrupção de energia que decorrem de determinação do operador do sistema, dentro dos parâmetros regulatórios estabelecidos pela Aneel, não caracterizam uma falta de prestação do serviço”, afirmou a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), em nota.
Sobre a capacidade do distribuidor de selecionar qual usina sofrerá o curtailment, a Abradee disse que “desde o início tem defendido que os critérios de curtailment sejam transparentes, tecnicamente fundamentados e que considerem as especificidades operativas de cada unidade de geração”.
Já o ONS afirmou que “as diretrizes gerais do Plano [de Gestão de Excedentes] foram apresentadas em workshop institucional destinado a todos os agentes envolvidos, em especial distribuidoras e Aneel”, para “garantir ampla transparência, difundir o entendimento sobre a importância da medida e obter contribuições que permitam aprimorar sua aplicabilidade prática”.
Segundo o ONS, o plano de gestão de excedentes “tem como objetivo prevenir riscos à estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN) e evitar a perda de controlabilidade do sistema em momentos de carga muito reduzida e alta geração distribuída, assegurando a continuidade de fornecimento de energia à sociedade”. Procurada, a Aneel não deu retorno.


Globo Rural

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