Crimes do século 21 desafiam um Estado que não resolveu os problemas de segurança do século 20

O próximo presidente estará diante de desafios que persistem e se multiplicam na segurança pública, destacada como uma das áreas que mais preocupam os eleitores brasileiros.
O próximo mandatário terá de enfrentar um crime organizado que deixou de ser apenas territorial e prisional e passou a operar em mercados legais, no sistema financeiro e no ambiente digital.
Ao mesmo tempo, persistem problemas que o Brasil não resolveu no século passado: baixa capacidade de investigação, polícias pouco integradas, sistema prisional superlotado e territórios onde o Estado não exerce plenamente sua autoridade.
A segurança pública chega às eleições de 2026 em uma espécie de encruzilhada. O que funcionava, ou que se acreditava funcionar, para combater o crime de rua não basta para enfrentar desafios como fraudes digitais, lavagem de dinheiro, infiltração de facções em mercados lícitos, maior circulação de armas e redes criminosas que atravessam estados e países.
“Segurança pública é um direito humano que está negligenciado. E isso não é algo conceitual nem narrativo. É prático. Na Constituição é um direito como educação e saúde, mas ele não está constituído como um sistema”, afirma Eliana Sousa Silva, diretora e fundadora da Redes da Maré, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.
Especialistas ouvidos pela Folha apontaram a falta de um sistema integrado de segurança pública como um gargalo crucial para o desenvolvimento deste campo no país.
“O Brasil enfrenta um gargalo, comum a grandes federações como EUA e México, sobre como integrar e coordenar diferentes níveis de governo e de poder”, diz Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Para ele, a criação do Sistema Único de Segurança Pública, o SUSP, em 2018, não produziu a transformação esperada.
“A gente não tem polícias de ciclo completo, que atuem no patrulhamento das ruas e em investigações. Polícia militar faz uma coisa, a civil faz outra. Algumas polícias colaboram, outras, não. E a gente continua numa lógica de disputa por protagonismo, quando é a cooperação que vai ajudar a gente a chegar do outro lado”, afirma Melina Risso, diretora de pesquisa do Instituto Igarapé.
Para Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, as polícias civis, responsáveis pelas investigações, ainda precisam ser modernizadas para lidar com novos crimes em ascensão. “O Estado ainda não está preparado para lidar com eles sem modernizar a investigação criminal e conectá-la com tecnologia.”
Seria o tipo de investigação necessária ao caso da psicanalista paulistana Liana Reichstul, 77. Ela pegou um táxi na rua e, ao final da corrida, o motorista alegou não ter troco e pediu que passasse o cartão numa maquininha. Ao final, devolveu a ela um cartão que não era o seu.
“Quando deu 8h do dia seguinte, ele já tinha rapado R$ 10 mil da minha conta”, diz Liana, que conseguiu que o banco a ressarcisse.
Dois meses antes, ela tivera o celular roubado quando uma pessoa numa bicicleta arrancou o aparelho de sua mão numa rua na zona oeste de São Paulo.
CRIMES SEM SOLUÇÃO
A investigação é também o gargalo que aparece em relação a crimes analógicos. Ricardo aponta que a elucidação de homicídios melhorou, mas que os índices entre os estados permanecem muito desiguais: enquanto o Distrito Federal elucida 96% dos homicídios, a Bahia só consegue fazer isso em 13% dos casos.
Essa insuficiência investigativa também deixa sem resposta crimes supostamente cometidos pelo próprio Estado, algo que faz parte da vida da carioca Maiara Oliveira, 25. Em outubro de 2020, quando estava grávida, ela foi baleada na barriga ao final de uma operação da Polícia Civil no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.
A bala atravessou sua barriga e ela perdeu o bebê. Ficou 40 dias em coma e, quase seis anos depois, ainda espera por uma resposta para o seu caso.
Como não houve perícia, foi com o apoio do projeto Maré por Justiça, uma parceria da Redes da Maré com universidades internacionais, que ela conseguiu realizar um estudo forense sobre a trajetória da bala que transpassou seu corpo. O estudo foi entregue ao Ministério Público do Rio de Janeiro, que supervisiona as investigações do caso.
“Não imaginei que fosse precisar dessa luta toda para chegar ao promotor, para ter voz. Não imaginei que receberia este tratamento”, diz Maiara.
A advogada Marcela Cardoso, coordenadora do projeto Maré por Justiça, enxerga um problema que vai além do caso de Maiara. “A polícia que mata é a mesma polícia que investiga. Se a gente não estabelece garantias mínimas, as violações se perpetuam”, afirma.
Sistema Nacional de Armas (Sinarm) chegou a 2,17 milhões de registros ativos em 2025, um aumento de 240% desde 2018. Ao mesmo tempo, em 2025 as polícias apreenderam 108.786 armas, 5,4% mais que em 2024. O dado das apreensões, porém, não permite estimar o tamanho do mercado ilegal.
O sistema prisional é outra dívida antiga que chega à próxima eleição sem solução. Superlotação e domínio de unidades por facções do crime organizado convivem com a baixa capacidade institucional de reduzir a reincidência criminal.
Alberto Kopittke, diretor do Instituto Cidade Segura, vai além da falta de vagas. “Para mim o principal problema é o Brasil não fazer tratamento penal para redução da reincidência criminal.” Para presos de alto risco, ligados a facções e com longa trajetória criminal, ele defende programas de reabilitação específicos, que funcionam de maneira semelhante àqueles para dependentes químicos.
Para ele, a União tem papel indutor e precisa exercê-lo. “Quais são as estratégias de policiamento adequadas? E de combate ao crime organizado? O que a União recomenda para tratar jovens que começam a dar sinais de risco de entrada para o crime organizado? Qual programa a União recomenda para o tratamento do homem agressor e apoio psicológico para mulheres vítimas? Não existe uma política pública para isso”, diz.
A violência contra a mulher acrescenta outra camada aos desafios brasileiros na segurança pública: a dificuldade de fazer a informação chegar onde precisa.
A pernambucana Rosaly Machado Ferreira, 43, sabe o que significa não ter esse apoio. Recepcionista de uma unidade de saúde de Garanhuns (PE), toda vez que vê mulheres chegarem ao atendimento da saúde com sinais de violência doméstica, ela enxerga a si própria na mesma situação.
Rosaly sofreu violência doméstica por anos do seu primeiro e único companheiro. “Ele bebia e me agredia. Quase me matou quando eu estava grávida do nosso filho. Foi quando eu fugi”, conta.
Depois da separação, ela conseguiu uma medida protetiva contra o ex-companheiro, mas o filho deles, Gabriel, permaneceu sob guarda compartilhada, apesar dos relatos dela ao juiz e ao Conselho Tutelar de que o menino sofria maus tratos na casa do pai. Até o dia em que Gabriel não voltou: o pai o havia agredido até matá-lo aos três anos.
“Hoje eu sou só uma carcaça. Não sobrou nada”, desabafa. “E ver mulheres machucadas chegarem ao serviço de saúde dói porque eu me vejo em todas elas, que chegam e não encontram na saúde um olhar mais humano ou um encaminhamento adequado.”
VEJA O QUE OS CANDIDATOS PROPÕEM PARA A SEGURANÇA PÚBLICA
| Lula (PT) | Ministério da Segurança Pública e Sistema Único de Segurança Pública (Susp) ; execução do Programa Brasil Contra o Crime Organizado e expansão das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs); aprimoramento da política de controle e rastreabilidade de armas de fogo e munições; e fortalecimento da vigilância territorial nas fronteiras em cooperação com países vizinhos |
| Flávio Bolsonaro (PL) | Tratar PCC, CV e milícias como organizações narcoterroristas; autorização do abate de criminosos portando fuzil; redução da maioridade penal para 16 anos e fim da progressão de regime para condenados por crimes hediondos; criação do Complexo TREVA com 5 novos presídios de segurança máxima; castração química para estupradores e implantação do sistema de reconhecimento facial “Muralha Brasileira” |
| Augusto Cury (Avante) | Instituição do Projeto FATO (Força Alerta Total), recriando o Ministério da Segurança Pública para integrar a Polícia Federal, Polícias Civis, Polícias Militares e Guardas Municipais; aplicação da Segurança 4.0 com inteligência artificial, reconhecimento facial, patrulhamento por drones e análise preditiva da criminalidade; e controle de fronteiras inteligente |
| Renan Santos (Missão) | Aplicação do Direito Penal do Inimigo com decretação de intervenção federal e emprego de GLO em territórios dominados; federalização de todos os processos judiciais e investigações relacionados a facções criminosas; construção de superpresídios de segurança máxima no modelo de El Salvador; e retomada do controle de portos, aeroportos e fronteiras por meio de scanners 3D e monitoramento aéreo e espacial |
| Ronaldo Caiado (PSD) | Criação do Ministério da Segurança Pública ; enquadramento de facções como terrorismo doméstico, sujeitando suas lideranças ao isolamento pelo Regime Especial Disciplinar Antiterrorismo Doméstico (Redad); apoio à aprovação da PEC de redução da maioridade penal para 16 anos em crimes graves, combinada à equiparação do furto de celular mediante arrebatamento ao crime de roubo. |
| Romeu Zema (Novo) | Classificação nacional e internacional de facções como organizações terroristas, permitindo a atuação integrada das Forças Armadas com as polícias para retomada territorial; construção de presídios de segurança máxima em regiões remotas para confinamento de membros de facções; redução da maioridade penal para 16 anos ou menos, acompanhada da substituição do modelo atual pelo cumprimento de pena efetivo na cadeia seguido de liberdade condicional monitorada |
Folha de São Paulo



