Datafolha: Máquina do governo, ‘guerra santa’ e memória de 2022 mexem ponteiros no fim da campanha

A reta final da campanha teve um movimento simultâneo de eleitores na direção de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A nova pesquisa do Datafolha mostrou sinais de que os dois principais candidatos recebem acenos de segmentos estratégicos do eleitorado, em busca de um impulso para os últimos dias de disputa.
A variação positiva de dois pontos experimentada pelo petista e pelo bolsonarista é reflexo de estímulos que as duas campanhas vêm tentando ativar: a máquina do governo, a identidade religiosa e a memória de eleições passadas.
Pontos-chave
- Lula dá alguns sinais de fôlego em segmentos estratégicos, que parecem responder a estímulos enviados pelo governo e pela campanha petista nas últimas semanas.
- A disputa espiritual também mexeu no alinhamento de grupos religiosos: Lula se aproximou mais dos católicos, Flávio reforçou o domínio entre evangélicos.
- Faltando poucos dias para a votação, parte do eleitorado que hesitava em escolher Lula ou Flávio abandona a indecisão e volta a se concentrar nos dois campos que já tinha escolhido em 2022.
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Para a última hora 17% dos eleitores podem mudar de voto |
Espontânea – 1º turno Lula: 36% para 39% Flávio: 27% para 31% |
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Pirâmide – 1º turno Lula: +4 na baixa renda Flávio: +7 na classe média |
Simulação de 2º turno Lula: 48% Flávio: 45% |
Lula faz a máquina do governo trabalhar
A variação que Lula experimenta nesta semana final de campanha não é dispersa: está concentrada na população de baixa renda, no Sudeste e entre eleitores que avaliam o governo como regular. São grupos tradicionalmente sensíveis a estímulos econômicos como o reajuste do Bolsa Família e a medidas de impacto como a proibição das bets.
- Entre eleitores com renda de até dois salários mínimos, Lula subiu quatro pontos na comparação com a pesquisa anterior. Apesar do salto, o petista continua abaixo do patamar que tinha nesse segmento em 2022, um déficit de sete pontos em relação à semana final daquela campanha.
- No Sudeste, o avanço do petista foi de cinco pontos. A alta num terreno permeável ao bolsonarismo sugere que anúncios recentes penetraram na região, que também concentra uma grande quantidade de beneficiários de programas do governo.
- Entre brasileiros que avaliam o governo como regular, o crescimento foi de quatro pontos. Esse é o principal foco do governo: um eleitor que não é fiel nem hostil e que pode ser convencido a manter o atual presidente no cargo em vez de experimentar uma troca.
A leitura conjunta dos três números sugere que Lula finalmente conseguiu mover ponteiros em grupos que se mantinham hesitantes em relação à sua reeleição. Por outro lado, o momento dessa variação, a dias do primeiro turno, também pode indicar um alinhamento mais frágil do que uma fidelização construída ao longo da campanha.
Os efeitos da ‘guerra santa’
A pesquisa captou um movimento religioso na esteira do caso Nossa Senhora. Os esforços de Lula para reforçar sua identificação com o eleitorado católico parecem ter sido recompensados, enquanto Flávio aprofundou seus laços com os evangélicos.
Lula ampliou seu domínio entre os católicos, com um ganho de cinco pontos em relação à pesquisa da última semana. Flávio, por sua vez, teve um reforço de cinco pontos entre os evangélicos, eleitorado já historicamente fiel ao bolsonarismo.
O eleitor de 2022 volta para casa
Os números do Datafolha também mostram que uma parte do público que se dividiu entre Lula e Jair Bolsonaro em 2022 está buscando novamente o caminho de casa. Na última semana de campanha, cresceu o alinhamento entre esses eleitores e os dois principais campos políticos em disputa.
O salto entre os dois lados é praticamente simétrico:
- Entre os eleitores de Lula no segundo turno de 2022, a parcela que hoje declara voto no petista subiu de 78% para 84%.
- Entre os eleitores de Jair Bolsonaro naquele mesmo turno, a parcela que hoje declara voto em Flávio passou de 73% para 79%.
A convergência a poucos dias da votação dá destaque a um grupo de brasileiros que flertou com candidatos alternativos e até com a indecisão ao longo do primeiro turno (possivelmente por fadiga em relação a Lula e resistência ao clã Bolsonaro), mas voltou a se alinhar ao grupo de quatro anos atrás.
Folha de São Paulo


