Dia Nacional da Doação de Órgãos: pai doa fígado ao filho – 26/09/2026 – Equilíbrio e Saúde

Felipe Oliveira Costa, 7, hoje pode jogar bola em sua casa em Praia Paulistinha, bairro no extremo sul de São Paulo. Quatro meses atrás ele passou por um transplante de fígado.
Em abril de 2025, o menino desenvolveu a síndrome de Stevens-Johnson, causada por uma reação medicamentosa. Foi internado e, sete dias depois, a família descobriu que o fígado havia sido afetado.
Após seis meses de tratamento, o quadro clínico evoluiu para cirrose hepática, conta a mãe do menino, a esteticista Thais Angela da Costa, 37. Ascite (barriga d’água) e insuficiência hepática foram alguns dos sinais clínicos que indicaram a gravidade do quadro. O médico recomendou o transplante. Sem o procedimento, a criança correria risco de morte.
A criança foi internada no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, e o transplante foi feito no Hospital Sírio-Libanês.
“Ele ficou na lista de espera. Nós propusemos para a família que, se aparecesse um fígado de doador falecido compatível com o tamanho e o peso do Felipe, faríamos o transplante. Se não aparecesse, seria interessante ter um doador vivo de preparo [para preparação]”, diz o médico Eduardo Antunes da Fonseca, diretor do departamento de transplante hepático do Sírio-Libanês.
“Como não apareceu, conversamos com o pai, que se prontificou a doar parte do fígado ao filho. Ele poderia morrer esperando pelo transplante”, acrescenta o médico. O hospital Menino Jesus é gerido pelo IRSSL (Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês), em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.
Além de evitar o álcool, o auxiliar de almoxarifado Abimael Maurício Oliveira Silva, 37, precisou perder peso. “Estava há seis meses sem beber, mas precisava chegar aos 90 quilos, no mínimo; pesava 106. Tenho arritmia cardíaca e decidi ir assim mesmo”, conta o pai.
“Não tem coisa mais gratificante do que ver ele felizão desse jeito. Não solta mais de mim. Antes, era mais grudado com a mãe. Agora, me liga toda hora. Ele acha que eu o salvei, mas foi ele que me salvou e me salva todos os dias. É meu parceiro.”
Pai e filho estão bem. Silva já retomou suas atividades cotidianas. Felipe permanece em casa e voltará à escola no ano que vem. O menino faz acompanhamento médico regular.
José Sampaio, cirurgião responsável pelo Serviço de Transplante Hepático do Hospital Pequeno Príncipe, no Paraná, explica que a porção do fígado doada por um adulto a uma criança representa uma fração pequena do órgão. O procedimento causa impacto mínimo na função hepática e no equilíbrio geral do organismo de quem doa, e o órgão volta a crescer.
“O fígado cresce após a doação, o órgão remanescente expande seu volume de forma global”, diz.
Segundo Fonseca, a falta de doador pediátrico é um grande desafio para pacientes que precisam de transplante —apenas 2% das notificações de doador falecido se referem a crianças, aproximadamente. O peso e a altura precisam ser compatíveis para que o órgão caiba no receptor.
De acordo com o Ministério da Saúde, entende-se por doador vivo a pessoa maior de idade, juridicamente capaz, saudável e que concorde com o transplante, desde que não prejudique a própria saúde. É possível doar um dos rins e parte do fígado, da medula ou dos pulmões. Compatibilidade sanguínea é necessária. O médico também deve avaliar a história clínica e as doenças prévias do voluntário.
O doador morto é aquele com morte encefálica ou causada por parada cardíaca. Ele pode doar órgãos (rins, coração, pulmão, pâncreas, fígado e intestino) e tecidos (córneas, válvulas, ossos, músculos, tendões, pele, cartilagem, medula óssea, sangue do cordão umbilical, veias e artérias).
Em 2025, de acordo com a ABTO (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos), as famílias de potenciais doadores recusaram doações em 45% dos casos. Segundo os especialistas, nos casos envolvendo crianças a rejeição à doação é ainda maior.
“Grande parte das mortes encefálicas infantis acontece por afogamento ou um acidente que determina uma parada cardiorrespiratória. A família fica muito abalada e, quando você faz a abordagem, muitas vezes a resposta é negativa”, afirma Fonseca, do Sírio-Libanês.
No caso dos adultos, o principal motivo de recusa é pelo desconhecimento da intenção do doador em vida, afirma Sampaio, do Hospital Pequeno Príncipe. “Aí cabe campanha de esclarecimento para estimular as famílias a conversarem sobre qual seria a decisão de cada um”, diz.
Transplante de órgãos no Brasil
O Brasil conta com 829 serviços de saúde autorizados a transplantar órgãos. Em 2025, 70 deles fizeram transplantes pediátricos. A informação é do Ministério da Saúde.
De janeiro a julho de 2026 (dados parciais), o país realizou 278 transplantes pediátricos de órgãos: 24 de coração, 114 de fígado e 140 de rim.
Em 2025, foram registrados 589 transplantes pediátricos de órgãos: 61 cardíacos, 211 hepáticos, dois pulmonares e 315 renais.
O SUS (Sistema Único de Saúde) adota uma lista única de espera, e a ordem de atendimento considera critérios técnicos e clínicos, além da compatibilidade entre doador e receptor —e não apenas o tempo de inscrição.
No caso de crianças, é considerada a compatibilidade do tamanho do órgão com o corpo do receptor. Mais da metade dos transplantes pediátricos (53%) é feita com órgãos de doadores na faixa de 11 a 17 anos.
A doação de órgãos de crianças depende da autorização de ambos os pais, quando vivos, ou do responsável legal.
Para Fonseca, doar um órgão é se ver no lugar do outro. “Pense no outro lado, coloque-se no lugar da outra pessoa. A doação de órgãos é o momento mais profundo da relação entre os seres humanos. Não existe uma conexão maior”, afirma.
Informação
Folha de São Paulo



