‘EA FC 27’ inova pouco a preço alto e indica continuidade na crise nos games de futebol

O novo “EA Sports FC 27” retrata bem a polarização que marca nossa época. Pode ser um verdadeiro catalisador de amor ou de ódio, de diversão ou de frustração. Principal game de futebol do mercado que chega oficialmente nesta sexta-feira (25), o título tenta inovar e corrigir problemas do jogo anterior. Mas não parece convencer que realmente vale o seu preço.
O game anual desenvolvido pela EA (Electronic Arts) chega às lojas virtuais por até R$ 349 em sua versão padrão nos consoles. Há duas versões superiores, Ultimate e Ultimate Plus, vendidas por até R$ 499 e R$ 749,50 (maior preço da história da saga), respectivamente.
Meses antes de seu lançamento, quando a comunidade de apaixonados por games de futebol acompanhava as novidades do título, o sentimento era de frustração. Pipocavam nas redes sociais críticas ao preço alto e à falta de capricho e de criatividade.
É fácil encontrar comparativos recentes entre o “FC 26” e jogos antigos da própria saga, quando ainda se chamava “Fifa“. Títulos como “Fifa 13”, “Fifa 14” e “Fifa 17”, tidos pelos fãs como muito superiores aos games atuais, seguem deixando saudade. O “FC 27” tem acertos, mas não contribui muito para que essa nostalgia seja amenizada. Sinal de que a crise dos jogos de futebol não tem data para acabar.
“The Grounds” e o mundo aberto
O principal modo de “FC 27”, vendido pelo marketing da empresa desde o anúncio do jogo, é o “The Grounds”. Espécie de mundo aberto, inspira-se diretamente em A Cidade, mapa criado em “NBA 2K“, principal game de basquete há anos.
Na prática, o mapa de “The Grounds” é uma adição ao modo “Clubs” com a reciclagem do falecido modo Volta, sucessor espiritual dos antigos jogos “Fifa Street”. Trata-se de uma reciclagem de ideias antigas. Isso não quer dizer que a ideia seja ruim, pelo contrário. “The Grounds” é divertido e funciona como um modo Carreira de atleta online.
Você cria seu avatar, personaliza o boneco como bem entender e pode explorar o mapa para jogar partidas 1×1, 2×2, 3×3, 5×5, rachões e outros passatempos, ou focar as partidas competitivas 11×11 do “Clubs”.
O mapa, no entanto, é pequeno. Possui três bairros inspirados em Paris, Buenos Aires e Londres. Em um só dia, é possível esgotar as possibilidades de “The Grounds”. A EA precisará ser criativa e incrementar o modo para que esse potencial enjoativo diminua.
Um aviso importante: The Grounds está disponível apenas para a nova geração de consoles e para PC —donos de PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch 1 ficaram de fora. O preço do game para as diferentes gerações não muda, saindo por até R$ 349 na edição Standard.
Novo mercado de transferências no modo Carreira de treinador
Este foi o maior acerto do jogo deste ano. O mercado de transferências no modo Carreira de técnicos foi reformulado e enxugado. As cenas de negociações que tomavam o tempo do jogador foram cortadas. A quantidade de propostas que acontecem no mundo aumentou significativamente.
Agora, uma mecânica de “chapéus” pode deixar as tratativas mais inesperadas: se você acertar as bases contratuais com um clube e um atleta, mas um time concorrente chegar com uma proposta mais alta, sua tentativa de contratação pode acabar frustrada. Também vai depender do interesse do jogador em ser transferido para o rival, como na vida real.
Ouso dizer que só houve acertos por parte da EA no modo Carreira de treinador. O modo Carreira de atleta, no entanto, continua deixando a desejar. Falta criatividade da empresa para dar ao gamer uma experiência mais realista e menos enjoativa.
Com um só treino um atleta de baixo potencial consegue virar titular; em sua estreia, ao fazer o mínimo, que é ser obediente taticamente e não errar passes, sua nota pode chegar a mais do que 9,5. São detalhes que prejudicam a diversão de quem prefere jogar offline em vez de usar o modo Clubs online, por exemplo.
Mudanças na jogabilidade ao defender
A gameplay do novo “FC 27” sofreu alterações substanciais nas mecânicas de defesa. Defender agora virou um processo manual. A desenvolvedora diminuiu a quase zero a interferência da inteligência artificial nos botes, interceptações e posicionamento dos zagueiros.
As escolhas do “gamer” têm peso. Saltar linhas e adotar uma marcação alta no campo adversário tem um preço: o risco de deixar a defesa desprotegida e vulnerável a passes em profundidade. Errar um posicionamento na linha de impedimento tem um custo: certamente algum atacante ficará na cara do gol. E fazer uma dividida no tempo errado no meio-campo? Pode ser fatal. A mecânica exige paciência e prudência ao marcar, mas é bem satisfatória.
A jogabilidade autêntica, criada para espelhar um futebol mais realista, sofreu leves mudanças. O jogo parece mais pesado e físico. A gameplay competitiva, no entanto, segue totalmente voltada à responsividade (traduzir rapidamente na tela os comandos dados no joystick). O problema dessa jogabilidade é ser rápida demais ao ponto de parecer atabalhoada. Demanda ajustes.
As animações do jogo têm o mesmo problema dos games anteriores. Falta maior capricho, polimento e realismo à movimentação dos atletas em campo. E os goleiros continuam sendo um ponto negativo do título: são capazes de fazer defesas monumentais ou de deixar passar bolas no meio do gol com pulos esquisitos.
Bahia e Botafogo licenciados
Dois clubes brasileiros estão totalmente licenciados dentro do “EA FC 27”, Bahia e Botafogo. O tricolor e o alvinegro contam com escudos, nomes, faces e atributos realistas de todos os atletas, além de uniformes 1 e 2 incluídos. É possível contratar os jogadores no modo Carreira de técnico ou usá-los no modo de atleta, mas não dá para comandar os dois clubes como treinador.
Ainda fazem falta, porém, os estádios (Fonte Nova e Nilton Santos), e claro, mais times do Brasil, mas é um bom começo. As equipes que disputam as Copas Libertadores e Sul-Americana neste ano estão no jogo, com escudos e uniformes fidedignos, mas elencos fictícios.
Ultimate Team e microtransações
Carro-chefe do jogo, o modo Ultimate Team ganhou apenas uma novidade. Agora, há uma mecânica de galeria, com a qual o gamer pode colecionar as cartinhas obtidas dentro do jogo. Ajuda a diminuir a sensação de que uma carta menos valiosa é descartável e dá uma maior sensação de progressão no modo.
As microtransações continuam na loja do Ultimate Team e, agora, no The Grounds (que absorveu o Clubs), com a venda de pacotes dos chamados “FC Points” por muitos reais (há opções que chegam a R$ 799,90) e “itens aleatórios”. Máquina de lucrar da Electronic Arts, as vendas fizeram com que o game continuasse com a classificação indicativa para maiores de 18 anos pelo segundo ano seguido.
O jornalista recebeu uma cópia do jogo com acesso antecipado para teste.
Esporte / Folha de São Paulo



