Eleições 2026: ‘El Loco’ Milei já não consegue driblar a desconfiança dos argentinos

De passagem por São Paulo no fim de semana, Javier Milei realizou uma proeza ao participar da convenção do Partido Liberal que ratificou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Milei atacou dois dos três Poderes, desrespeitou o presidente da República e um juiz do Supremo Tribunal Federal, e louvou condenados por crimes contra a Constituição, entre eles, a tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2026.
Foi simples assim: num sábado de inverno (25/7), o presidente da Argentina saiu de Buenos Aires, viajou 2,1 mil quilômetros e desembarcou em território brasileiro apenas para ler um discurso recheado de insultos ao principal sócio político, econômico e militar do seu país. Não há precedente.
Aos 55 anos, ele emoldurou seu retrato político com um repertório de extravagâncias, e não é por acaso que responda ao ouvir o apelido “El Loco”.
Lula não gosta de “El Loco”. Nele percebe uma mistura milongueira da ideias de Donald Trump com os devaneios de Jair Bolsonaro.
Milei não gosta de Lula, em quem vislumbra vocação totalitária, a mesma que atribui à adversária Cristina Kirchner.
Condenada por corrupção, ela cumpre sentença em prisão domiciliar. Lula visitou-a meses atrás e até posou para fotografia na embaixada do Brasil em Buenos Aires, exibindo um cartaz onde se lia: “Cristina livre.” Milei não conseguiu autorização do STF para visitar Jair Bolsonaro, preso em casa depois de condenado a 27 anos de cadeia pela frustrada tentativa de golpe de estado.
A visita de Lula a Cristina, acompanhada por multidão na rua, aconteceu depois de interferência indevida nas eleições presidenciais da Argentina.
Ecoando o amigo Alberto Fernández, então presidente, ele apostou que o “inimigo” argentino estava na ala do liberalismo moderado comandada pelo ex-presidente Mauricio Macri. Aconselhou e investiu no candidato peronista, Sergio Massa, então ministro da Economia, a quem chegou receber no Palácio do Planalto no meio da campanha eleitoral argentina.
Lula perdeu: deu um presidente de extrema direita na cabeça, eleito com o voto de protesto de ampla maioria empobrecida dos argentinos, acossada naquele final de 2023 por uma inflação exponencial, na época só comparável à da ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela (160% ao ano).
Milei chegou à presidência dizendo-se anarcocapitalista, libertário de direita. Continua dizendo isso e, também, que “conversa” direta e frequentemente com Deus, de quem teria recebido a “missão” de salvar a Argentina do “mal”.
Em notável registro biográfico, o repórter Juan Luis González expôs um Milei nostálgico do seu cachorro morto em 2017.
Ele deu um jeito de “reencarnar” o amigo Conan, homenagem ao Bárbaro criado em 1932 pelo escritor americano Robert E. Howard: mandou clonar o cão nos Estados Unidos.
Passou a viver com as cópias certificadas de Conan, às quais nomeou em tributo aos seus economistas prediletos, teóricos do liberalismo: Milton (alusão a Friedman), Murray (Rothbard) Robert e Lucas (Robert Lucas).
Milei usa a aparente “loucura” como licença política. Quando Gustavo Petro o comparou a Hitler, evocou seus vínculos judaicos e qualificou o presidente da Colômbia com três adjetivos: “Assassino, terrorista, comunista.”

A Cristina Kirchner costuma se referir como “versão argentina do ex-presidiário” — isto é, Lula, a quem dedicou um discurso de nove páginas em São Paulo, no fim de semana, além de uma torrente de mensagens nas redes sociais.
O presidente da Argentina possui sua própria fórmula do “nós contra eles”. Resolveu aplicá-la ao Brasil, numa peça retórica que foi, essencialmente, dirigida ao público argentino. Ele parece precisar com urgência de alguma distração na política doméstica — a “candidatura” a líder da direita latina, por exemplo.
Milei completou 30 meses de governo com relativo êxito econômico, mas já não consegue driblar a desconfiança do eleitorado. A exaustão do modo de governar em confronto aberto e permanente mantém alta e constante a sua desaprovação no eleitorado, a maior entre líderes das principais economias da América Latina.
Milei tropeça nos próprios pés, e isso ameaça transformar seus sonhos com a reeleição em insônia com pesadelos no final de mandato.
Veja



