Política

Eleições 2026: suspeita de ligação com o crime organizado motiva impugnações no Rio de Janeiro

O Ministério Público Eleitoral (MPE) moveu diversas ações de impugnação contra candidatos do Rio de Janeiro por ligação com o crime organizado. Os pedidos encaminhados à Justiça Eleitoral citam relações com domínio territorial, tráfico de drogas, jogo do bicho e até parentescos com criminosos para embasar as contestações.

Até o momento, são os candidatos à Assembleia Legislativa (Alerj) Júnior da Lucinha (PSD), João Felipe Drumond (PRD), Val Ceasa (PRD), Cristiano Hermógenes (Avante) e Márcio Canella (União); à Câmara dos Deputados, Clébio Lopes “Jacaré” (União Brasil), Mariana de Souza (PP).

Todos os processos consultados pelo Brasil de Fato no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) citam explicitamente envolvimento dos impugnados com crime organizado ou organização criminosa. O vereador Junior da Lucinha é filho da deputada Lucinha (PSD), acusada de vínculo com a milícia. Já João Drumond é neto do bicheiro Luizinho Drumond. Os dois, no entanto, não têm acusações criminais. 

No caso de Val Ceasa, a ação aponta vínculos com o Terceiro Comando Puro (TCP), facção criminosa no Complexo de Israel, zona norte do Rio. Além da conexão com o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, o deputado é acusado de atuar em benefício dos interesses do traficante Peixão. O candidato à reeleição declarou R$ 6,2 milhões na Justiça Eleitoral, um crescimento patrimonial de mais de 400% desde 2022. Ele tenta agora o terceiro mandato consecutivo na Alerj.

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Já o candidato a deputado federal pelo União Brasil, conhecido como Clébio Jacaré, a impugnação é motivada por denúncia ajuizada pelo Ministério Público (MPRJ), por meio do Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). A ação descreve uma organização criminosa que teria se estruturado para “viabilizar a instalação de um gigantesco mecanismo voltado ao desvio sistêmico de dinheiro público”, mediante a “assunção paralela do comando governamental de cidades do interior fluminense”.

Em 2022, ele conquistou uma vaga de suplente de deputado federal. Em seu perfil nas redes sociais, Clébio Jacaré se apresenta como gestor e empresário e declarou um total de R$ 57 milhões em bens na Justiça Eleitoral. Do total, chama atenção o montante de R$ 11,9 milhões em espécie.

Em 2024, o TRE-RJ indeferiu a candidatura de Clébio ao cargo de prefeito de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, citando 17 processos criminais, um deles na 1ª Vara Especializada em Crimes de Organização Criminosa.

Infiltração do crime

Os pedidos de impugnação vêm na esteira de medidas da Justiça Eleitoral para tentar barrar candidaturas ligadas ao crime organizado na política fluminense. A Constituição Federal, no parágrafo 4º do artigo 17, proíbe a utilização de grupo armado pelos partidos políticos.

A asfixia ganhou força na eleição de 2024, quando o TSE fixou que a proibição “também incide quando a utilização da estrutura partidária ocorre de forma indireta, mediante o lançamento ou apoio a candidaturas de agentes vinculados a organizações criminosas, uma vez que os partidos políticos, detentores do monopólio das candidaturas, não podem servir de instrumento para a inserção de organizações criminosas no processo político-eleitoral”.

Em março deste ano, um ato da presidência do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) criou o Grupo de Trabalho Unificado de Defesa da Integridade Eleitoral, com o objetivo de coordenar ações de enfrentamento à infiltração do crime organizado e das milícias no processo eleitoral do Rio de Janeiro. 

Um dos eixos é integrar informações de inteligência sobre os candidatos com possíveis vínculos para subsidiar a atuação da Justiça Eleitoral e do Ministério Público Eleitoral na análise de registros de candidatura.

Outro caso emblemático foi o do ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, atualmente candidato a deputado estadual. Ele desistiu da candidatura ao Senado após ter sido preso em flagrante com um fuzil no carro durante buscas da Operação Unha e Carne.

Relações familiares

A representação do MP Eleitoral contra o vereador Junior da Lucinha destaca que a candidatura constitui “sucessão meramente formal para fins de manutenção do espólio político-territorial da ‘família Barros’, estruturado sob as mesmas redes de influência atualmente investigadas por constituição de milícia privada”.

No caso da família Drummond, a Procuradoria cita o contexto associado ao jogo do bicho e ao “universo da contravenção, projetando para o processo eleitoral uma rede de relações que reúne vínculos familiares, posições institucionais, atuação territorial e articulações políticas”.

“Desse modo, a candidatura de João Felipe não emerge de uma trajetória política desvinculada dessa estrutura, mas de um núcleo familiar que, há décadas, mantém posição de influência no ambiente do samba, das escolas de carnaval e, segundo os elementos informativos reunidos, do próprio universo da contravenção e do crime organizado”, diz um trecho.

Também é o caso do candidato Cristiano Hermógenes, ex-vereador de Belford Roxo, que teve sua relação familiar evidenciada na ação. Ele é irmão de Márcio dos Santos Nepomuceno, o “Marcinho VP”, apontado como um dos líderes do Comando Vermelho (CV).

A peça também cita uma prisão de Cristiano em 2006 e reportagens da época que o associam com tráfico e lavagem dedinheiro. O rapper Oruam, sobrinho de Cristiano, também é mencionado. 

A relação de Mariana Souza com o crime organizado, segundo o MP Eleitoral, também é familiar. A candidata do PP é casada com Wilson Marques de Albuquerque, vulgo “Zé Dirceu”, identificado pelas forças de segurança como segundo na hierarquia do CV de Alagoas.

Mudança de locais de votação

Outra frente do grupo de trabalho do TRE-RJ é a mudança de locais de votação considerados de alto risco ou dominados pelo crime organizado. Por esse motivo, 66 locais já foram alterados. A medida afeta cerca de 188 mil eleitores em 20 cidades fluminenses. O número ainda pode aumentar porque o mapeamento continua em outras localidades.

A medida atinge eleitores da capital, Araruama, Bom Jesus do Itabapoana, Cabo Frio, Campos dos Goytacazes, Itaboraí, Itaguaí, Itaperuna, Japeri, Macaé, Nilópolis, Niterói, Nova Iguaçu, Pinheiral, Resende, Rio Bonito, Rio das Ostras, São Gonçalo, São João de Meriti e Volta Redonda. São dez municípios a mais em relação às eleições de 2024.  

Para saber se houve mudança, é possível consultar o site da Justiça Eleitoral do Rio de Janeiro, com o número do CPF ou do Título de Eleitor. Também é possível verificar pelo Disque TRE-RJ, de segunda a sexta-feira, das 11h às 19h, pelo telefone: (21) 3436-9000.

Outro lado

O Brasil de Fato solicitou posicionamento de todos os citados na matéria por meio dos contatos de e-mail e telefone disponíveis no registro das candidaturas, além das respectivas redes sociais. O espaço segue aberto para manifestação.

O TRE-RJ tem até o dia 14 de setembro para decidir sobre as impugnações. De acordo com o MP Eleitoral, os candidatos podem apresentar recurso e concorrer com a candidatura sub judice até que se esgotem todas as instâncias.




Brasil de Fato

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