Elmano reduz distância para Ciro e chega a empate técnico na reta final da disputa pelo Governo do Ceará

Há pouco mais de uma semana para o primeiro turno das Eleições 2026, a disputa pelo Governo do Ceará se acirrou ainda mais entre os dois principais candidatos ao pleito. A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (23) mostra o governador Elmano de Freitas (PT) com 41% das intenções de voto, apenas dois pontos atrás do ex-governador Ciro Gomes (PSDB), que aparece com 43%. A diferença está dentro da margem de erro de três pontos percentuais. Na pesquisa anterior, divulgada em 4 de setembro, Ciro tinha 45%, enquanto Elmano registrava 34%, uma diferença de 11 pontos percentuais.
O levantamento também aponta uma aproximação entre os dois candidatos em um eventual segundo turno. Na pesquisa estimulada, Ciro aparece com 45% das intenções de voto, contra 42% de Elmano. Na rodada anterior, a vantagem do tucano nesse cenário era de 13 pontos percentuais. A Quaest ouviu 900 eleitores com 16 anos ou mais entre os dias 19 e 22 de setembro, com nível de confiança de 95%. O número de registro no TSE é CE-08268/2026.
Para a socióloga, professora de Ciência Política e pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia da Universidade Federal do Ceará (Lepem-UFC), Paula Vieira, uma das diferenças entre as duas candidaturas está no momento em que cada uma passou a mobilizar seus ativos políticos durante o processo eleitoral. De acordo com Vieira, embora Ciro tenha chegado à campanha com uma vantagem inicial, Elmano passou a construir sua candidatura de maneira mais efetiva a partir do início oficial do período eleitoral. “A campanha do Elmano iniciou, de fato, quando o período eleitoral começou. Até então, Elmano, por estar como governador, não poderia se movimentar no sentido de construir pré-candidatura, o que se difere de Ciro Gomes”, afirma.
Na avaliação da pesquisadora, a posição ocupada por cada um antes do início da campanha também produziu condições distintas. Enquanto Elmano estava à frente do governo e, portanto, mais exposto à avaliação da população, Ciro estava afastado do exercício de cargos públicos havia anos. “Elmano inicia como ‘vidraça’; Ciro inicia como o ‘herói’ frente à polarização”, avalia.
Ativos políticos e presença no interior
Para a analista política, parte do crescimento de Elmano pode ser relacionada à mobilização de sua estrutura política durante a campanha. Vieira destaca especialmente a relação do governador com as prefeituras e lideranças do interior do Estado. “Quando Elmano inicia a campanha, movimenta seus ativos políticos que passam por relações com as prefeituras do interior do Ceará”, explica. A pesquisadora relaciona ainda esse movimento à distribuição regional apresentada pelas pesquisas, com crescimento de Elmano no interior e maior concentração das intenções de voto em Ciro na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).
Na avaliação da socióloga, esse processo envolve diferentes elementos, entre eles a associação da candidatura de Elmano a lideranças políticas conhecidas, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Camilo Santana (PT) e Cid Gomes (PSB); além de estar atrelada a entrega de equipamentos públicos no interior; e a vinculação da campanha majoritária às candidaturas ao Legislativo. “Não à toa, seu percentual de votos cresce no interior e o do Ciro na RMF. O aumento de intenção de votos, então, se deve a um conjunto de fatores que estão ligados à movimentação do ativo político de Elmano”, afirma Paula.
A pesquisa mais recente mostra ainda que, na pergunta espontânea, quando os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados, Ciro aparece com 28%, enquanto Elmano registra 25%. Na rodada anterior, os dois tinham 24% e 19%, respectivamente.
Questionada pelo BdF Ceará sobre a queda da vantagem de Ciro em relação a Elmano, a pesquisadora destaca que o ex-governador iniciou a disputa com um patamar elevado de conhecimento e intenção de voto, resultado, entre outros fatores, de sua trajetória política nacional e da memória de suas gestões no Ceará. “Ciro iniciou com uma força eleitoral porque seu nome é nacionalizado devido às campanhas à Presidência que disputou nos últimos anos. A memória dos governos de Ciro também é positiva, e por isso ele iniciou a disputa com um teto alto de intenção de votos”, afirma.
Vieira avalia, entretanto, que a movimentação da campanha de Elmano passou a reposicionar os candidatos dentro da disputa política. Segundo ela, a associação de Elmano ao campo político de Lula e a identificação de Ciro com setores da direita e do bolsonarismo no Ceará teriam contribuído para reorganizar as preferências de parte do eleitorado cearense. “A partir do momento que os ativos políticos e eleitorais do Elmano se movimentam, identificam o candidato do Lula e, em oposição, quem é o candidato da direita, apoiado pelos bolsonaristas do Ceará”, afirma. Paula ressalta ainda que a definição das preferências eleitorais não ocorre de forma estática ao longo da campanha, e ressalta que o eleitorado passa a produzir opinião de acordo com os fatos da campanha eleitoral.
Indecisos e avaliação do governo
A pesquisa Quaest mostra que 8% dos entrevistados ainda se declararam indecisos no primeiro turno, enquanto 75% afirmaram que o voto está definido e 24% disseram que ainda podem mudar de escolha até a eleição. Embora o crescimento de Elmano tenha ocorrido simultaneamente à redução da vantagem de Ciro e à queda do percentual de indecisos, a analista pondera que não é possível afirmar diretamente que os eleitores que deixaram de se declarar indecisos tenham migrado para o atual governador. “Não temos como indicar, diretamente, que o posicionamento dos indecisos foi diretamente para Elmano, podemos ter deduções e inferências, principalmente se considerarmos a queda percentual do Ciro Gomes”, afirma.
Vieira destaca, contudo, outro dado importante do levantamento divulgado pela pesquisa, onde a aprovação da gestão de Elmano chegou a 56%, enquanto 36% desaprovam o governo. Na avaliação do desempenho administrativo, 39% consideram a gestão positiva, 33% regular e 22% negativa. Para Paula, a melhora nesses indicadores constitui um elemento relevante para compreender a aproximação entre os candidatos. “A aprovação ao governo Elmano aumentou. Então, há indícios fortes de que o movimento foi a favor do Elmano”, afirma.
A aproximação entre Ciro e Elmano também é interpretada pela pesquisadora como parte de um processo mais amplo de acirramento da disputa política no Ceará. “A redução de percentuais de votos entre os candidatos demonstra o acirramento eleitoral que era, de alguma maneira, esperado”, ressalta. Para Vieira, o cenário estadual reproduz elementos da disputa política nacional e vem sendo influenciado pela aproximação dos candidatos com diferentes campos políticos. “Venho defendendo que, no Ceará, há um espalhamento da disputa nacional”, explica. Nesse sentido, a pesquisadora considera que a posição de Ciro em relação a lideranças e grupos políticos de direita tem impacto sobre a forma como sua candidatura é percebida pelo eleitorado. “Quanto mais próximo Ciro está de políticos de direita e bolsonaristas, mais aumenta a distância de um ‘centro ampliado’ ou, em outro termo usual da política eleitoral, mais distante de uma ‘terceira via’”, afirma.
Com pouco mais de uma semana até o primeiro turno, a pesquisa Quaest retrata uma disputa mais equilibrada do que a registrada no início de setembro. Ciro e Elmano aparecem tecnicamente empatados tanto no primeiro turno quanto na simulação de segundo turno, enquanto os demais candidatos somam percentuais residuais.
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