Em berço esplêndido

Diante do tarifaço de Trump, o governo comete um duplo erro conceitual. Reunindo-se apenas com os setores econômicos diretamente afetados, define a nação como uma “condomínio de setores”, quando as tarifas punitivas atingem o conjunto da economia –ou seja, a renda e os empregos de todos. Oferecendo crédito subsidiado e renúncia tributária como compensação, reforça nosso histórico protecionismo, cobrando dos brasileiros o preço da ineficiência da maioria dos setores mais tarifados.
A globalização não acabou: Trump a desloca para longe dos EUA. O tarifaço exige respostas estruturais, que se estendem da redução da taxa de juros (via equilíbrio fiscal de verdade) até abertura comercial (via redução de tarifas de importação) para estimular a competitividade, diversificar intercâmbios externos e multiplicar acordos de comércio.
Há, porém, o horizonte imediato. Que ninguém se engane com papo furado: a negociação terminou. Reabri-la requer reação nacional capaz de causar dor nos EUA.
Não é reciprocidade simétrica (tarifas sobre bens importados dos EUA), que atingiriam bens de capital essenciais à modernização industrial brasileira, causando danos insignificantes à superpotência. É retaliação assimétrica espelhada, nos moldes sugeridos por Monica de Bolle e Philip Yang (shorturl.at/dwTux).
A lista original de isenções dos EUA descortina as vulnerabilidades. A retaliação calibrada pede uma combinação de impostos e controles sobre exportações com foco em itens estratégicos da lista. Por exemplo, tributos sobre exportações para os EUA de café, carnes e suco de laranja, insubstituíveis a curto prazo, gerando inflação às vésperas das eleições para o Congresso. E controles sobre exportações para os EUA de nióbio (crucial nas indústrias de defesa e aeroespacial) e de aeronaves, nesse caso em acordo com o Canadá.
A China dobrou Trump via controles de exportação de terras raras. Os EUA importam 100% do nióbio que consomem, esmagadoramente do Brasil, responsável por 90% da produção mundial. A aviação regional dos EUA baseia-se em aeronaves da Embraer e da Bombardier canadense. “O Brasil não é a China”, clamam com ar sagaz os arautos da inação, circundando o paralelo apropriado: nióbio e aviões regionais são tão essenciais à economia americana quanto minerais críticos chineses.
O lobby da inação reflete uma santa aliança entre setores mais tarifados ineficientes, que buscam subsídios, e setores menos tarifados eficientes, que buscam vida normal em tempos anormais. É o “protecionismo das ideias” em ação. A retaliação assimétrica envolve perdas de curto prazo, reais, mas menores do que se imagina. A China vai às compras, ávida por intercâmbios cedidos pelo rival. Ásia e Canadá entram no jogo. O mercado interno faz o resto: carne barata no supermercado, deflacionada por súbita abundância.
Trump recua quando confrontado com a dor. Escalar para negociar: eis o sentido das medidas retaliatórias excepcionais. Muito mais dependente dos EUA, o Canadá faz isso –e (viu, Lula?) seu governo colhe popularidade. O lobby da falsa prudência almeja deitar no célebre berço esplêndido, transferindo ao povo os custos da ofensiva unilateral americana. O Brasil não deve permanecer refém dos interesses imediatos dos “setores econômicos”. Somos uma nação, não uma coleção de empresas.
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Folha de São Paulo



