Centro-direita e direita lideram corrida aos governos e expõem dificuldades para Lula

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“Peço a Deus que eu e você estejamos juntos em janeiro do ano que vem, porque vai ser muito bom para o Ceará e muito bom para mim”, disse Lula ao governador Elmano de Freitas (PT) na quinta-feira 2, durante a inauguração de trechos da Ferrovia Transnordestina em Quixeramobim. A intervenção divina, de fato, viria a calhar para o aliado cearense: candidato à reeleição em outubro, Elmano aparece atualmente em segundo lugar nas pesquisas e pode perder o assento para Ciro Gomes (PSDB), mais novo aliado de conveniência do bolsonarismo e opositor às gestões petistas. Os ventos desfavoráveis a Lula, no entanto, não sopram apenas no Ceará, um dos colégios eleitorais mais relevantes do Nordeste, mas em dezoito estados onde, a menos de noventa dias da votação, nomes alinhados à centro-direita e à direita e críticos ao governo federal despontam como favoritos nas sondagens para governador.
O retrato fica ainda pior para Lula quando se vê que o PL de Flávio Bolsonaro, maior rival na disputa presidencial, tem sete nomes entre os líderes das corridas estaduais. Em 2022, a sigla elegeu apenas dois governadores: Cláudio Castro (Rio de Janeiro) e Jorginho Mello (Santa Catarina). O primeiro foi abatido por investigações variadas da Polícia Federal e está fora do jogo. Já Mello lidera a corrida pela reeleição e é uma das estrelas do partido nas disputas estaduais, ao lado do senador Sergio Moro, favorito no Paraná (alavancado pelo amplo eleitorado antipetista no estado), e outros cinco pré-candidatos (veja o quadro). A resiliência da legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro nos estados, aliás, contrasta com a turbulenta campanha de Flávio, que tem enfrentado contratempos em série, como o áudio em que o senador pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, a crise com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o papel do senador no tarifaço dos EUA e as investigações em torno de aliados importantes no Rio.
No lado oposto do espectro político, o PT enfrenta dificuldades para crescer nas corridas estaduais. Nas 27 unidades da federação, apenas seis candidatos próximos a Lula lideram a disputa, sendo o governador do Piauí, Rafael Fonteles, o único petista. A crise decorre, em parte, da dificuldade do partido em formar novas lideranças nas últimas décadas, o que forçou a legenda a abrir mão de candidaturas próprias para fortalecer aliados mais populares, como Eduardo Paes (PSD), João Campos (PSB) e Juliana Brizola (PDT), que aparecem à frente nas pesquisas mais recentes no Rio de Janeiro, em Pernambuco e no Rio Grande do Sul, respectivamente. “Com a imagem desgastada e poucos nomes jovens para apresentar ao eleitorado, Lula perdeu o ‘toque de Midas’ para eleger governadores e hoje depende de outros partidos para garantir palanques estaduais”, avalia o cientista político Elias Tavares. Mesmo nos locais que governa, o PT pode perder o comando para a oposição — caso da Bahia, onde o governador Jerônimo Rodrigues (PT) está atrás do ex-prefeito ACM Neto (União Brasil), em meio ao cerco da Polícia Federal sobre o senador Jaques Wagner, cacique petista e candidato à reeleição, no escândalo do Banco Master.
O retrato atual das pesquisas revela, ainda, a incontestável força dos partidos de centro-direita, que têm dezessete pré-candidatos entre os favoritos. Cinco são governadores em busca da reeleição, como Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado-chave do bolsonarismo em São Paulo, e Daniel Vilela (MDB), sucessor do presidenciável Ronaldo Caiado (PSD) em Goiás. Sem compromisso com a coesão ideológica, algumas legendas lançam candidatos com visões opostas nos estados. O PP, por exemplo, lidera no Distrito Federal com Celina Leão, aliada do clã Bolsonaro, e na Paraíba com Lucas Ribeiro, apoiado por Lula. O PSD, por sua vez, forma coligação com o petismo no Rio e em Sergipe enquanto enfrenta aliados do PT no Amapá e Maranhão. Também há estados onde os candidatos desses partidos evitam se comprometer com os nomes da disputa nacional, como Raquel Lyra (PSD) em Pernambuco, ACM Neto na Bahia ou Daniel Santos (Podemos) no Pará. “O centro é pragmático e navega para onde o vento sopra. Mesmo entre centristas pró-governo ou de oposição, é uma postura em relação ao governo ‘de plantão’, que pode mudar com a alternância de poder”, avalia Marco Antonio Teixeira, cientista político da FGV-SP.

A predominância da centro-direita nas sondagens não surge por acaso. A vitória acachapante em 2024, quando levou nada menos que 82% das prefeituras em todo o país, empoderou essa corrente política com a capacidade de mobilizar prefeitos e vereadores, fator determinante para o sucesso ou fracasso das campanhas de governadores. Além da capilaridade, siglas como PSD, MDB e a federação União-PP controlam gordas fatias do bilionário fundo eleitoral, o que torna incontornável, para qualquer candidato nos estados, negociar recursos de campanha com caciques dessas siglas.
Sem ignorar a óbvia influência da polarização nacional nas campanhas estaduais, é bom lembrar que discursos ideológicos não bastam, em si, para vencer uma eleição local. Mais do que promessas de alinhamento, pesam nas eleições estaduais as entregas do atual governo em emprego, renda, segurança pública e saúde, fatores que figuram recorrentemente nas pesquisas entre as principais preocupações da população — o maior desafio para o governador no cargo é entregar bons indicadores, enquanto o desafiante precisa convencer o eleitorado de que fará um trabalho melhor. “O voto para governador é bem mais pragmático do que para presidente. A escolha é guiada por resultados de gestão e capacidade de resolução de problemas, não por discursos e promessas”, diz o cientista político Juan Carlos Arruda, CEO do Ranking dos Políticos.

Considerando-se esse critério de escolha, as pesquisas atuais indicam um alto índice de reprovação de boa parte das gestões do último mandato. Há uma forte tendência de renovação dos comandos estaduais: em dezoito estados, lidera o candidato de oposição. A crise sucessória afeta até mesmo incumbentes com alto nível de aprovação do mandato, como é o caso de Eduardo Leite (PSD), no Rio Grande do Sul; Mateus Simões (PSD), em Minas Gerais; e Hana Ghassan (MDB), no Pará. Como regra, emplacar um sucessor é mais difícil do que conquistar a própria reeleição. As notáveis exceções ocorrem em Goiás, onde o recém-empossado Daniel Vilela (MDB) é favorito à sucessão de Caiado, e no Tocantins, onde a senadora Dorinha Seabra (União Brasil) lidera, com apoio do governador Wanderlei Barbosa (Republicanos). “No Brasil e no mundo, cada vez mais, a população exige soluções rápidas aos problemas. A falta de entregas sólidas em quatro anos já basta para punir fortemente o governante”, diz Arruda.
A dificuldade do PT em conquistar governos estaduais não é recente. O recorde do partido é de cinco governadores, em 2014. Apenas quatro petistas foram eleitos no pleito de 2022. A maioria dos vencedores era de oposição, o que fez com que Lula não tivesse vida fácil com os governadores. Basta dizer que até pouco tempo atrás nada menos que cinco se apresentavam como potenciais nomes para desafiar o petista em outubro (Tarcísio, Zema, Caiado, Leite e Ratinho Jr.). Também houve dificuldade para tocar projetos que envolviam a participação dos estados, como a PEC da Segurança Pública, até hoje travada no Congresso. Os atritos tampouco são um problema exclusivo da atual gestão: na pandemia, as divergências sobre vacinação e medidas de quarentena colocaram Jair Bolsonaro em pé de guerra contra mais de uma dezena de governadores, incluindo João Doria, em São Paulo, e todo o Consórcio do Nordeste.

No cenário atual, a desvantagem dos aliados de Lula nos estados pode complicar muito os planos de reeleição do petista. Os palanques em locais como São Paulo podem fazer a diferença na disputa ao Planalto, que tende a ser bastante apertada. Não por acaso Lula pediu ajuda a Deus para seu aliado vencer a disputa no Ceará.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003
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