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Em duelo na direita, Caiado sobe tom contra Flávio para tentar enfrentar Lula na reta final

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Quando Ronaldo Caiado subiu ao trio elétrico na Avenida Paulista em março, sua fala parecia tirada diretamente da cartilha bolsonarista. Em uma manifestação que contou com Flávio Bolsonaro e outras lideranças de direita, o então governador de Goiás disse que seu primeiro ato na Presidência seria conceder “anistia plena, geral e irrestrita” aos envolvidos no quebra-quebra golpista de 8 de janeiro de 2023. A estratégia à época era permanecer como alternativa capaz de herdar o espólio eleitoral do ex-­presidente Jair Bolsonaro, inelegível, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. A realidade, no entanto, impôs uma mudança de tática.

Menos de cinco meses depois, e com a candidatura ao Planalto oficializada pelo PSD, Caiado passou a intensificar as críticas a Flávio — o escolhido por Bolsonaro para representá-lo — em uma tentativa de ganhar espaço dentro do eleitorado de direita que, segundo as pesquisas, hoje prefere o senador do PL como adversário do presidente Lula.

 

TENTATIVA - Na campanha de 1989: líder dos ruralistas, ele chegou em 10º lugar (Sérgio Tomisaki/Folhapress/.)

O tom vem subindo nas últimas semanas. Em 14 de julho, ele criticou a divulgação por Flávio de uma carta na qual o pai pedia a união da direita em torno do filho. “Liderança você não herda, liderança você cria”, cutucou. Depois, ironizou a reunião do senador com diplomatas para questionar o sistema eleitoral. “Quarenta e dois embaixadores numa sala: dava para vender soja. Dava para abrir mercado para a indústria. Dava para atrair investimento. Escolheram falar de urna eletrônica!”, disse. Também ironizou a relação de Flávio e seu irmão Eduardo com os EUA por conta do tarifaço — chamou o filho Zero Três de “Pateta”. Na convenção que ratificou seu nome, no domingo 26, disse que o país não pode ter um candidato “Kinder Ovo, uma surpresinha todo dia”, em referência às investigações em torno do senador. “Quem mudou foi Flávio. Caiado foi obrigado, em função das revelações, a adotar outra postura”, diz Paulo Vasconcelos, marqueteiro da campanha. “Não houve mudança estratégica. O que existe é uma reação aos erros do adversário.”

A nova postura é uma questão de sobrevivência no jogo eleitoral. Caiado tem investido no discurso de que ele seria mais competitivo contra Lula no segundo turno. Na pesquisa BTG/Nexus divulgada na segunda-feira 27, ele, Flávio e Romeu Zema (Novo) empatam tecnicamente com o presidente em embates diretos, mas Caiado é quem aparece numericamente mais próximo, com 2 pontos de distância (veja o quadro). O problema é chegar até lá: no primeiro turno, o goiano tem 6% das intenções de voto, atrás de Lula (42%) e Flávio (33%), o que ilustra o tamanho de seu desafio.

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Gráfico de barras com resultados de pesquisa eleitoral Caminhada Difícil. Lula lidera o primeiro turno com 42%, seguido por Flávio Bolsonaro com 33%. Em cenários de segundo turno, Lula empata com Ronaldo Caiado (45% a 43%) e Flávio Bolsonaro (47% a 43%), e vence Romeu Zema (46% a 42%)

A candidatura de Caiado enfrentou dificuldades desde o início. Depois de mais de três décadas no partido que começou como PFL, virou DEM e se tornou, enfim, União Brasil, Caiado deixou a legenda, que optou por não lançar candidato à Presidência. Foi acolhido pelo PSD de Gilberto Kassab, mas precisou disputar a indicação interna com os governadores do Paraná, Ratinho Junior, e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Os dois, aliás, foram os únicos dos seis governadores do partido que estiveram na convenção que oficializou sua candidatura.

A disputa de Caiado com Flávio simboliza um duelo que se intensifica entre a direita tradicional e o bolsonarismo. Caiado já representava essa corrente em 1989, quando liderava um setor ruralista que se alarmava com Lula e Leonel Brizola, presidenciáveis de esquerda — chegou em 10º, com 0,7% dos votos. Um enfraquecimento de Flávio pode abrir espaço para uma reacomodação do eleitor da direita. Para o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, se isso ocorrer, o principal beneficiário seria Caiado. “Como o maior objetivo desse eleitor é simplesmente derrotar o lulismo, eles poderiam se redirecionar em massa para uma opção vista com viabilidade maior no segundo turno”, diz. Até aqui, contudo, não há sinais de que o movimento tenha começado, já que Flávio mostra resiliência diante das crises. Caiado vai reunindo seus trunfos. É o melhor colocado como segunda opção de voto e é um dos quatro presidenciáveis que terão direito ao horário eleitoral na TV — os outros são Lula, Flávio e Augusto Cury (Avante). O goiano também acredita ser opção de força a candidatos a governador que querem fugir da polarização, como ACM Neto (União Brasil), na Bahia, e Ciro Gomes (PSDB), no Ceará. Só a campanha, que começa em 16 de agosto, dirá.

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006

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