Política

Em nova carta, senadores dos EUA alertam para risco de interferência de Trump na eleição do Brasil

Três senadores democratas dos Estados Unidos enviaram uma nova carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, na qual afirmam que ações do governo Donald Trump ameaçam a relação estratégica com o Brasil e o acusam de promover uma “campanha de interferência e desestabilização” no país às vésperas da eleição presidencial.

O documento é assinado por Peter Welch, Tim Kaine, Jeanne Shaheen —os dois últimos integram o Comitê de Relações Exteriores.

A carta ganha peso adicional diante das eleições do legislativo americano. Shaheen é a principal democrata no comitê, e Tim Kaine também ocupa posição de destaque no colegiado. Se os democratas conquistarem o controle da Casa, passarão a comandar audiências e a agenda legislativa do Senado, além de ganhar mais poder para condicionar ou bloquear verbas do governo federal, inclusive recursos destinados a programas dos Estados Unidos na América Latina.

A carta foi enviada menos de uma semana após outra carta sobre o tema. O texto foi enviado na quinta-feira (24) pelo senador independente Bernie Sanders e 30 deputados democratas.

O Departamento de Estado tem afirmado que o governo americano irá respeitar o resultado do pleito, mas acrescenta a expressão “eleições livres e justas”, frequentemente usada para questionar a legitimidade do voto. “Respeitamos o povo brasileiro e qualquer governo que eles escolham livremente por meio de eleições livres e justas no Brasil”, disse um funcionário americano, em agosto.

Na nova carta, os três senadores afirmam estar preocupados com ações que, segundo eles, “ameaçam nossa aliança estratégica com o Brasil e minam a segunda maior democracia do Hemisfério Ocidental” antes da eleição presidencial.

Os parlamentares dizem que, ao longo do segundo mandato de Trump, autoridades americanas participaram de uma campanha de “interferência e desestabilização” no Brasil. Como primeiro exemplo, citam a imposição de tarifas e sanções em meio ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A carta cita a redução das tensões entre os países, inclusive com conversas “diretas e cordiais” entre Trump e o presidente Lula. O texto afirma, porém, que a pressão sobre autoridades brasileiras foi retomada após a nomeação de Darren Beattie como assessor sênior para assuntos relacionados ao Brasil no Departamento de Estado.

No documento, os senadores descrevem Beattie como um extremista e supremacista branco e dizem que ele chegou ao posto com um histórico de declarações públicas que, na visão deles, demonstram compromisso ideológico com o enfraquecimento das instituições democráticas brasileiras e em favor dos interesses da extrema direita do país.

Os parlamentares também mencionam a imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros depois de uma investigação aberta pelo USTR (Representante de Comércio dos Estados Unidos).

Os senadores dizem que “as ações mais recentes do governo apontam para um esforço de interferir e, potencialmente, minar a eleição geral do Brasil em outubro”.

Como exemplo, citam a reunião entre Trump e o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, no Salão Oval, no momento em que ele tinha que se defender de uma notícia negativa para sua campanha —no caso, os pedidos de dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Os senadores contrastam a postura atual de Washington com a de 2022, quando os Estados Unidos reconheceram rapidamente a vitória de Lula, o que, segundo eles, tirou legitimidade de tentativas de contestar o resultado.

A carta também cita os ataques de 8 de janeiro de 2023 às sedes dos três Poderes. Para os senadores, os EUA apoiaram então o governo recém-eleito e ajudaram a mobilizar apoio regional à defesa da Constituição de 1988 e das instituições democráticas.

Os três senadores dizem ainda que veem as ações em relação ao Brasil como parte de um padrão mais amplo do governo Trump na América Latina e citam as eleições legislativas da Argentina e as eleições presidenciais de Honduras e da Colômbia.

Ao final, Kaine, Shaheen e Welch apresentam duas perguntas a Rubio. Eles querem saber como o Departamento de Estado coordena seus objetivos relacionados à democracia e aos direitos humanos com parceiros do Hemisfério Ocidental, em especial no que diz respeito à assistência técnica e ao monitoramento de processos eleitorais e judiciais.

Também perguntam se o governo Trump se comprometerá a reconhecer o resultado certificado das eleições brasileiras de 2026 e a manter relações diplomáticas normais com qualquer candidato que seja “livre e justamente escolhido pelo povo brasileiro”.

Folha de São Paulo

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