Empresários ligados ao grupo Rockbridge ajudaram Flávio Bolsonaro com relatórios e consultoria, dizem aliados

Dois empresários ligados à Rockbridge ajudaram o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) com serviços de apoio à sua candidatura e aconselhamento sobre a venda de infraestrutura de inteligência artificial no Brasil, segundo seis pessoas próximas à campanha ouvidas pela Folha.
A Rockbridge Network, grupo conservador que motivou acusações eleitorais, foi cofundada pelo vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, tem a participação de empresários do Vale do Silício e defende pautas da direita radical.
A assessoria do presidenciável do PL afirma que a campanha não recebeu nenhuma verba ou estrutura estrangeira, algo proibido pela legislação eleitoral.
A Folha mostrou que a Rockbridge começou um processo de instalação no Brasil em maio, interrompido por causa da eleição.
Pedro Sang, apresentado como CEO da Rockbridge Brasil, elaborou relatórios de monitoramento, participou de reuniões e ajudou a encontrar um imóvel para sediar a campanha de Flávio na avenida República do Líbano, em São Paulo.
Já Tallis Gomes, integrante da Rockbridge nos EUA, diz que conversou com Flávio dezenas de vezes e que o candidato incluiu propostas suas sobre parceria com o país no plano de governo. Fundador da Easy Taxi e presidente da G4 Educação, Gomes ficou conhecido em 2024 por ser contra mulheres na posição de CEOs, dizendo que esse é papel de homem e a mulher deve construir um lar. Ele pediu desculpas após a repercussão.
Seis pessoas do entorno do senador, inclusive integrantes de sua equipe eleitoral, afirmaram à Folha que Sang frequentava a sede da campanha, prestava serviços e era amigo de pessoas próximas à família Bolsonaro, integrando um grupo ideológico de direita. A ligação entre o brasileiro e a Rockbridge era conhecida pelos membros da campanha.
Em maio, mesmo mês em que a Rockbridge Brazil LLC foi constituída, Sang abriu sua empresa SNG Consult Empresarial Ltda, de consultoria em gestão empresarial. Ele também é sócio no negócio de sua família, a SNG Travel Turismo, uma empresa de turismo.
Na sede da campanha em São Paulo, Sang elaborava e comentava relatórios de monitoramento de redes sociais e de pesquisas. Os serviços do empresário são descritos como uma espécie de consultoria e cruzamento de dados.
Quando a Folha visitou o local, no fim de setembro, Lucas Maciel, sócio da agência Stride, contratada pela campanha, afirmou que Sang não comparecia ao imóvel havia semanas.
A relação entre ele e a campanha de Flávio Bolsonaro foi revelada pelo jornalista Guilherme Amado e confirmada pela reportagem. Sang usava uma sala no segundo andar do imóvel como escritório próprio, onde fazia reuniões, recebia convidados e tratava de assuntos da Rockbridge. Segundo auxiliares de Flávio, boa parte dos despachos era em inglês e envolvia empresários dos Estados Unidos.
Serviços prestados por Sang ou por suas empresas não aparecem na prestação de contas da campanha de Flávio enviada ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Procurado pela reportagem, ele afirmou que é amigo de pessoas que integram a campanha de Flávio, mas não trabalhou nela. “Eu nunca prestei nenhum tipo de serviço ou função oficial para a mesma [a campanha]. Sou apenas um cidadão brasileiro preocupado com o futuro do meu país”, disse.
Integrantes da campanha de Flávio que têm amizade com Sang saíram em defesa do empresário, afirmando que ele não chegou a fazer parte da equipe e pode ter exagerado suas conexões com a Rockbridge americana.
Em abril, logo antes da abertura da Rockbridge Brasil, Tallis Gomes participou de um podcast em que disse fazer parte da Rockbridge nos EUA, mencionou Vance e afirmou estar aconselhando candidatos à presidência.
“Eles [os candidatos] estão me perguntando muito sobre isso. Como é que está tema de AI [inteligência artificial], tema de energia, essas coisas?”, afirmou. Em seguida, declarou que o “PT é um problema no Brasil” e que ele, como parte do Rockbridge, fica “tentando vender o Brasil”.
“O Brasil hoje é, sem nenhum exagero, o melhor ativo geopolítico do mundo para os Estados Unidos. É a única chance que a gente tem como Ocidente de ganhar do eixo do mal lá do Oriente”, declarou, completando que o país pode fornecer terras raras, água e locais para data centers.
“A gente tem condição de ser a plataforma que escala no mundo. A gente só não tem governo para isso”, afirma. No mesmo podcast, ele diz que falou com Flávio sobre isso e que o candidato do PL está disposto a seguir esse plano.
“Todas as conversas que eu tive com o Flávio, o Flávio está disposto a fazer isso para o Brasil. […] Já estive com o Flávio dezenas de vezes tocando em temas sensíveis como esse. Todas as vezes que eu falo isso para o Flávio, ele fala: ‘Você escreve isso para mim? Eu quero pedir para botar no plano de governo‘. Ele ouve.”
Gomes e Sang negam estar interessados na exploração de terras raras brasileiras em caso de vitória de Flávio.
Viés eleitoral
Documentos sobre a instalação da Rockbridge no Brasil, em que Pedro Sang e Tallis Gomes são mencionados, tratam da eleição presidencial. Um dos materiais de apresentação do grupo, com data de abril de 2026, é classificado como confidencial e tem como destinatário o “Pré-Candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro”.
Como mostrou a Folha, o documento intitulado “Conselho de Tecnologia“, sobre a formação de um conselho da Rockbridge Brasil com bilionários do setor e quatro brasileiros (incluindo Sang e Gomes), diz que a iniciativa traria benefícios para a campanha de Flávio e para um eventual governo. Os conselheiros agiriam como “Advisors Diretos para o Presidente”.
É nesse documento que Pedro Sang aparece descrito como CEO da Rockbridge Brasil. Ele afirmou à reportagem que não é parte da Rockbridge, mas foi apresentado ao grupo em 2025 pelo amigo de infância André Marinho (Novo), candidato ao governo do Rio.
Sang diz que se interessou pela proposta, mas que a filial brasileira não avançou. Gomes também disse, por meio de sua assessoria, que o conselho de tecnologia não chegou a ser constituído e ficou apenas no papel.
O presidenciável do Missão, Renan Santos, acusa Flávio de ter a campanha financiada pela Rockbridge e por empresários estrangeiros interessados na exploração de terras raras no Brasil. O grupo americano também é alvo de representações do PT na Justiça Eleitoral que pedem investigação sobre suposto financiamento.
Gomes diz que não integra campanha alguma, não fez doações e não intermediou recurso estrangeiro para campanha. O fundador da G4 também processa Renan Santos por calúnia, difamação e injúria.
Os documentos da Rockbridge afirmam que a missão do conselho é “integrar os maiores atores globais de tecnologia e capital para dentro do plano de governo”. O apoio à eleição de Flávio é claro —”este é o maior agrupamento de líderes de tecnologia, defesa e capital já reunido em torno de um projeto político na América Latina“.
O conselho promete “posicionar o candidato” ao lado desses atores e “criar compromissos de investimento na ordem de dezenas de bilhões antes mesmo da posse”. Também tem como objetivo fazer o que chama de “diplomacia de capital”, ou seja, um “canal direto e informal com EUA, Japão, Coreia e aliados — mais poderoso que diplomacia oficial”.
Em outra apresentação, os movimentos trumpista nos EUA e bolsonarista no Brasil são comparados. O documento fala na necessidade de “gerar capital político permanente” para a direita radical, o que envolveria financiamento pela Rockbridge.
“O que falta a essa base eleitoral é ser ativada de maneira regular e individualizada, não apenas em ciclos eleitorais. […] O grande objetivo de uma plataforma como a Rockbridge é fazer com que o movimento que se defende se torne maior do que o candidato que o represente”, diz.
A apresentação afirma que a base a ser estimulada é composta pelo empresariado, pelo agronegócio e pela classe média produtiva. E diz que as universidades e a mídia são domínios progressistas, sugerindo financiar veículos e formação de jovens com viés conservador.
Folha de São Paulo


