Política

Enquanto culpamos os políticos, ignoramos o corruptor

Quando se fala em corrupção no Brasil, a reação costuma ser imediata. Apontamos para Brasília. Criticamos políticos. Compartilhamos manchetes indignados. Defendemos penas mais duras. Exigimos mudanças.

Mas raramente fazemos uma pergunta incômoda: Quem está do outro lado da mesa? A corrupção não existe sozinha.

Existe a corrupção passiva, praticada por quem recebe a vantagem indevida. Mas existe também a corrupção ativa, praticada por quem oferece, promete ou paga essa vantagem.

E é justamente sobre esse segundo grupo que falamos pouco.

Talvez porque seja mais confortável acreditar que o problema está sempre nos outros. Nos últimos anos, o Brasil assistiu a inúmeros escândalos envolvendo empresas privadas, instituições financeiras, agentes públicos e organizações que, em algum momento, abandonaram princípios em troca de resultados de curto prazo. Casos recentes, como o Banco Master, ou episódios antigos como da JBS, mostram que problemas de integridade não surgem da noite para o dia. Eles costumam ser resultado de uma sucessão de decisões equivocadas, sinais ignorados e valores relativizados ao longo do caminho.

Grandes crises raramente começam grandes. Começam quando alguém decide ignorar um alerta, quando um número deixa de fechar e ninguém tenta entender o porquê e principalmente quando um princípio é negociado em nome de uma oportunidade financeira.

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A verdade é que a corrupção não nasce apenas nos escândalos que estampam os jornais. Ela também nasce nas pequenas concessões que fazemos quando acreditamos que ninguém está olhando.

Quantos empresários condenam políticos corruptos, mas aceitam pagar para acelerar um processo? Defendem ética publicamente, mas fecham os olhos para práticas questionáveis dentro das próprias empresas?

Quantos falam em compliance enquanto recompensam resultados obtidos sem qualquer preocupação com valores que estão estampados na parede?

O problema é que muitas vezes a ética é tratada como um discurso institucional e não como um critério de decisão. Ela aparece no site da empresa, nos eventos corporativos e nos relatórios anuais, mas desaparece quando surge uma oportunidade de ganhar mais dinheiro, crescer mais rápido ou atingir uma meta a qualquer custo. É justamente nesses momentos que os valores são testados.

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Integridade não é o que fazemos quando tudo está funcionando. É o que escolhemos fazer quando ninguém está olhando especialmente quando fazer o contrário parece mais vantajoso.

Essa reflexão é especialmente importante para quem empreende. Empreender é tomar decisões todos os dias.

Em determinados momentos da minha trajetória, precisei abrir mão de negócios que poderiam ter sido extremamente lucrativos porque não estavam alinhados aos valores que acredito. Financeiramente talvez fizessem sentido. Eticamente, não.

O Brasil precisa continuar cobrando transparência dos seus governantes, questionar e combater desvios de recursos públicos.

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Mas também precisa que empresários, executivos e empreendedores assumam seu papel nessa transformação. Afinal, não existe corrupção sem corruptor.

Se queremos um país mais ético, mais competitivo e mais desenvolvido, precisamos entender que a mudança não está apenas nas urnas.

Ela começa nas empresas, nas reuniões, nas negociações e decisões que ninguém está vendo. A integridade de um país é a soma da integridade das pessoas que o constroem todos os dias.

E essa responsabilidade pertence a todos nós.

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Paulo Morais é advogado, fundador da Espaçolaser Ceo da PG&MP Investimentos e conselheiro do Inac

Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA

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