Espécies invasoras causam prejuízos bilionários e desafiam produtores


Já faz cerca de dez anos que o produtor Rogério da Fonseca Alves tem tido que lidar com invasões em suas terras, localizadas em Sacramento, no Triângulo Mineiro. Bandos de até 50 indivíduos têm destruído lavouras e vegetação nativa em áreas de nascentes, causando prejuízos que já chegam a R$ 3 milhões. E o agressor nem humano é: trata-se do javali, um suíno selvagem originário da Europa.
O animal, que tem alta capacidade de adaptação e começou a aparecer no Brasil a partir da segunda metade do século XX, multiplicou-se de maneira acelerada no país, onde não tem predadores naturais. O cruzamento com suínos domésticos originou o chamado javaporco, o que ampliou ainda mais sua disseminação.
Os impactos dessa invasão são notórios: destruição de lavouras, ataques a rebanhos, danos à vegetação nativa, degradação de nascentes e cursos d’água, além de desequilíbrios ecológicos e risco de acidentes com pessoas.
“O prejuízo é gigante. Aqui na propriedade, eles destroem as lavouras de milho e soja e, logo depois do plantio, reviram a terra para comer as sementes”, relata Alves. “Tenho uma área com nascentes, onde eles reviram a terra para achar minhocas, insetos e chafurdar na lama.”
Entre produtores e especialistas, é particularmente grande a preocupação com os aspectos sanitários da invasão: os animais podem ser vetores de doenças como febre maculosa, peste suína africana e peste suína clássica, o que, em última instância, pode até ameaçar o status sanitário da produção brasileira.
Unha-do-diabo: originária de Madagascar, é encontrada no semiárido do Nordeste
Getty Images
O javali tornou-se um dos casos mais conhecidos de espécies exóticas invasoras presentes no Brasil, mas está longe de ser um exemplo único desse problema. Os produtores rurais, que têm tido perdas bilionárias com os intrusos biológicos – espécies que se fixam em uma região muito distante de seus locais de origem e que costumam desequilibrar a ordem ambiental, econômica e sanitária de seu novo hábitat –, são testemunhas disso.
A Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) divulgou em 2024 um estudo segundo o qual, ao longo de 35 anos (entre 1984 e 2019), pragas agrícolas e da silvicultura levaram a prejuízos de US$ 28 bilhões no agronegócio brasileiro.
O número atesta que o impacto é gigantesco, porém é bem possível que as perdas estejam subdimensionadas, afirma Michele de Sá Dechoum, professora do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina (CCB/UFSC) e uma das coordenadoras do relatório da BPBES.
“O documento identificou 476 espécies exóticas invasoras no Brasil, sendo 268 animais e 208 plantas e algas, em sua maioria nativas da África, da Europa e do Sudeste Asiático. Mas temos dados de perdas econômicas causadas por apenas 16 espécies”, diz.
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Segundo a professora, depois que as espécies invasoras se estabelecem em um local, controlá-las é uma tarefa extremamente difícil e cara. Assim, defende ela, o país tem que aumentar os investimentos em prevenção e biossegurança.
O javali também exemplifica as dificuldades no combate aos invasores. No país, o controle da população da espécie é autorizado e regulamentado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Para fazer o abate de manejo, necessário para controlar o número de animais, é obrigatório ter registro como caçador, atirador e colecionador (CAC).
No entanto, produtores que sofrem com a ação do bicho invasor reclamam da burocracia para conseguir a autorização do uso de armas, enquanto entidades de proteção animal alegam que a autorização pode acabar sendo um instrumento para a caça de outras espécies.
Controle
O Ministério do Meio Ambiente reconhece que a falta de controle sobre espécies exóticas invasoras é um desafio que o país ainda tem que superar.
“Os impactos (das espécies exóticas invasoras) se manifestam em diversas frentes, com custos diretos e perda de produtividade. Espécies como o javali causam destruição direta de lavouras e predação de animais jovens. Há aumento nos custos de manejo, com a necessidade de gastos em controle químico, barreiras físicas e monitoramento constante. Insetos e fungos invasores também têm o potencial de fechar mercados internacionais para produtos brasileiros, devido à adoção de protocolos de quarentena”, disse o ministério à Globo Rural, em nota.
Especialistas acreditam que a população dessas espécies tende a crescer no país. De acordo com o relatório da BPBES, em um cenário sem grandes mudanças no quadro socioeconômico nacional, as invasões biológicas devem crescer entre 20% e 30% até o fim deste século. O aumento acompanharia a expansão do comércio e do transporte de mercadorias e pessoas.
Em uma infeliz ironia, as espécies exóticas invasoras que mais têm impactos negativos sobre o meio ambiente, a economia e a defesa sanitária do Brasil alastram-se por biomas e regiões aos quais chegaram por meio de ação humana intencional, muitas vezes para uso comercial.
Um exemplo é o dos peixes de interesse para a pesca desportiva que hoje estão em regiões que não são seu habitat natural, como o tucunaré, originário de rios das bacias Amazônica e Tocantins-Araguaia, no Norte do país, que tem avançado nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste, e o dourado, que tem origem na Bacia do Prata (que inclui o Rio Paraná), mas hoje também ocupa as águas da bacia do Rio Iguaçu.
Capim-annoni: originário do sul da África, está presente em Minas Gerais, Bahia, São Paulo e na região Sul do país
Aline de Oliveira Gonzalez
Combate
As políticas e ações do governo federal para o combate às espécies invasoras seguem as diretrizes da Estratégia Nacional para Espécies Exóticas Invasoras, instituída pela Resolução Conabio nº 7, de 29 de maio de 2018. O texto prevê medidas para evitar a introdução, conter a dispersão e reduzir os impactos dessas espécies na biodiversidade. Ações de fiscalização e monitoramento ficam a cargo de Ibama e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Para reforçar o combate, o país discute atualmente a criação de duas listas de ameaças: uma reunirá espécies invasoras exóticas que já estão em ecossistemas naturais brasileiros, e a outra apresentará as espécies que devem ter prioridade nos esforços de prevenção, detecção precoce e resposta rápida.
Em dezembro de 2025, durante reunião da Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), a análise da lista de espécies exóticas invasoras foi suspensa, em parte devido à pressão de representantes do setor produtivo, que dizem temer a inclusão de espécies que integram cadeias de produção comercial, como a tilápia. As discussões para a montagem da lista prosseguem.
“O setor agropecuário é favorável a ações que combatem espécies exóticas invasoras, principalmente aquelas que estão fora de controle, como javali, mexilhão-dourado e outras. Manter o controle (dessas espécies) tem custo alto para o produtor rural”, afirma Nelson Ananias, coordenador de sustentabilidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
“Mas vemos com bastante preocupação (a inclusão de) algumas espécies para as quais já se tem uma forma de plantio, criação e controle, muitas das quais até incentivadas por órgãos públicos e pelo governo, como é o caso da tilápia, que é, hoje, o carro-chefe da aquicultura brasileira.”
“O setor agropecuário é favorável a ações de combate às espécies exóticas invasoras.” — Nelson Ananias, coordenador de sustentabilidade da CNA
Divulgação/CNA
Trajetória
Nem toda espécie exótica torna-se invasora, observa o engenheiro florestal Raphael Luis Matheus Batista. “Uma espécie exótica em um ambiente vai ser também invasora se ela conseguir completar seu ciclo reprodutivo sem auxílio do ser humano e vencer a competição por recursos com as espécies nativas, causando problemas e desequilíbrios ecológicos”, explica.
O especialista, que mantém um canal no YouTube chamado Guia da Floresta, com vídeos sobre botânica, nos quais fala sobre espécies vegetais, afirma que, muitas vezes, a conscientização sobre os problemas que algumas invasoras geram esbarra no “apego emocional” de parte da população.
Ele cita a nêspera como exemplo. Originária do Sudeste Asiático, a árvore tem frutas amarelas e adocicadas, atrativos que levaram muita gente a plantar a espécie em quintais e vias e praças públicas.
“Muitos dizem que assim elas alimentam os pássaros, a fauna, mas esses animais deveriam estar consumindo frutas nativas e espalhando sementes da nossa flora. Agora, vemos nespereiras crescendo em muitos locais e tomando espaço que poderia ser de uma pitangueira, um araçá ou de outra planta brasileira”, diz.
Raphael Luis Matheus Batista, do Guia da Floresta: “nem toda espécie exótica torna-se invasora”
Guia da Floresta/Divulgação
Em seu relatório, o BPBES usa a expressão “carismáticos” para fazer referência a plantas e animais que se espalharam fora de seu ambiente de origem por terem fins ornamentais ou de estimação. É o caso de algumas árvores, tartarugas, aves e primatas: eles se tornaram invasores de fato, mas, como se popularizaram, parte da sociedade, muitas vezes, não entende por que é preciso controlar a disseminação dessas espécies.
“Até mesmo algumas frutas, como limão, jaca e amora, são invasoras em algumas regiões, e muita gente tem uma relação afetiva com essas plantas”, afirma Raphael Batista. O engenheiro florestal ressalva, por outro lado, que não é porque essas espécies são invasoras que é preciso demonizá-las.
“As plantas não são ruins, mas elas foram introduzidas em ecossistemas inadequados, e a gente acabou, ao longo do tempo, esquecendo toda a riqueza biológica nativa. É por isso que a educação ambiental é tão importante. Ela mostra as outras alternativas que temos para criar memórias afetivas”, completa.
O peso dos intrusos
BPBES Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos
Da prevenção ao controle
Sem o carisma de uma tartaruga exótica, mas certamente problemático, o capim-annoni é um invasor originário do sul da África, e sua primeira identificação no país ocorreu na década de 1950, no Rio Grande do Sul. A espécie entrou no Brasil com lotes de sementes de pastagens.
Seu nome brasileiro, a propósito, faz referência ao Grupo Annoni, que chegou a comercializar sementes da gramínea como alternativa forrageira para o gado. No entanto, logo se percebeu que a planta era, na verdade, um problema para os pecuaristas.
Tucunaré-real (Cichla intermedia): originário dos rios das bacias Amazônica e Tocantins-Araguaia, está presente nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste do Brasil
Getty Images
“O capim-annoni é muito fibroso, difícil de cortar e arrancar, e tem baixo valor nutricional. Ele não é adequado para gado de corte, e muito menos para gado de leite. Mas, quando se percebeu isso, ele já estava em processo de disseminação”, relata a médica-veterinária Thais Michel, que coordena a área de Defesa e Educação Sanitária Animal na Gerência Técnica da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (Emater/RS).
Dos 6,5 milhões de hectares de campos nativos que existem no estado, 2 milhões têm capim-annoni. Segundo a especialista, o problema é tão grave que já nem se pensa mais na erradicação da espécie, mas em tentar conter seu avanço.
O Restaura APA foi uma das iniciativas de combate direto à gramínea e prevenção contra sua disseminação no bioma Pampa. Coordenado pela Universidade La Salle e executado pela Emater/RS na Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã, o projeto recebeu financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), abrangeu 1.780 hectares e recebeu investimento de mais de R$ 3 milhões.
O trabalho, que começou em 2020 e estendeu-se até 2024, incluiu ações como divisão das áreas em piquetes e implantação de pastoreio rotativo, controle químico seletivo com glifosato em áreas mais infestadas, introdução de espécies forrageiras não invasoras e coleta e uso de sementes de espécies campestres nativas.
O produtor Antônio Carlos Custódio Ramos, um dos participantes do projeto, segue fiel às práticas de combate à invasora. Neste ano, ele fez o controle do annoni em 150 de seus 400 hectares de campo nativo em Santana do Livramento (RS), onde cria 500 cabeças de gado para recria. “Depois que entrei no projeto, estou recebendo subsídio para o herbicida, o que é fundamental para ajudar o produtor a combater essa praga”, diz.
Segundo o pecuarista, a diferença nas pastagens das quais já se retirou o annoni é evidente. “É impressionante a recuperação e a resiliência que tem o campo nativo”, afirma. Para Ramos, os produtores ainda têm que compreender a importância de extirpar a invasora. “Tem gente que diz que o annoni é uma salvação, porque, quando chega a época de seca, ao menos o gado tem algo para comer. Mas não podemos deixá-lo tomar conta do campo nativo”, alerta.
“Depois que as invasoras se estabelecem em um local, fazer o controle é muito difícil e caro”- Michele de Sá Dechoum, professora de Ciências Biológicas da UFSC
SABRINA STAHELIN
Aliança no controle
Para derrotar um invasor, às vezes é preciso aliar-se a outro – ao menos no campo da biologia. Essa lógica é a linha mestra de um estudo que visa combater uma praga que está devastando a carnaúba, palmeira que é um dos símbolos da Caatinga e tem grande importância econômica para muitas comunidades rurais, especialmente no interior do Ceará e Piauí.
Nesses locais, pequenos produtores coletam as folhas da árvore, as colocam para secar e, depois, as trituram. Desse trabalho, eles extraem um pó, que é derretido para se transformar na cera da carnaúba, produto com diversos usos industriais.
O problema é que as carnaúbas vêm sendo atacadas pela unha-do-diabo, uma trepadeira originária da Ilha de Madagascar, na costa sudeste da África, e que muito provavelmente foi introduzida no Brasil no século XIX para fins ornamentais, segundo o professor Rafael Carvalho da Costa, do Centro de Ciências da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Como adaptou-se com facilidade ao clima local, a unha-do-diabo começou a se proliferar nos carnaubais do Nordeste. A espécie se desenvolve com rapidez, fechando o espaço da copa da palmeira, o que impede a fotossíntese e acaba levando a carnaúba à morte.
Costa cita uma pesquisa que encontrou a invasora em pouco mais de 70% das áreas com carnaúbas de 73 municípios de Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte e Paraíba. Atualmente, o combate à praga ocorre por meio do corte das plantas e limpeza da área com fogo (a carnaúba tem alta resistência às chamas). “Mas o controle é pontual e precisa ser repetido periodicamente”, afirma o professor.
Inimigo natural
Para enfrentar o problema, a solução talvez esteja em usar um inimigo natural da trepadeira. Um grupo de universidades brasileiras, a Associação Caatinga e o Centro Internacional de Biociência Agrícola estudam a introdução do fungo Maravalia cryspostegiae, conhecido popularmente como ferrugem, para combater a unha-do-diabo.
O fungo, também nativo de Madagascar, já foi usado com sucesso na Austrália para resolver uma infestação semelhante com a invasora em biomas nativos.
Pesquisadores e produtores reiteram que combater espécies invasoras depois que elas se alastram é muito caro e raramente elimina o problema completamente. A prevenção costuma ser o caminho mais eficiente – e é muito melhor do que chegar ao ponto em que se precisa considerar a importação de fungo.
Globo Rural



